‘Sou um memorialista, não me preocupo em dar lição a ninguém’

Sonia Racy

30 Setembro 2013 | 01h00

Afonso Arinos (Foto: Vera Donato/Estadão)

Em homenagem à mulher, Afonso Arinos Filho reúne histórias e lembranças naquele que diz ser seu último livro: “Tudo o que eu tinha para contar agora está contado”.

O dia amanhecia. Vinicius de Moraes e Afonso Arinos Filho haviam passado a madrugada percorrendo bares em Copacabana, até pararem em um, no Posto 6. O ano era 1953. Comemoravam o nascimento de Georgiana de Moraes, filha do poeta com sua terceira mulher, Lila Bôscoli. “Meu pai brincava que era uma homenagem a Stalin, nascido na Geórgia”, conta. Os dois eram muito próximos.

Um ano antes, aos 21, Afonso Arinos concluíra o curso do Instituto Rio Branco, tornando-se diplomata. Foi trabalhar na Comissão de Organismos Internacionais do Ministério das Relações Exteriores. Lá chegando, lhe indicaram um lugar vazio. “Na mesa pegada, se aboletava Vinicius. Dele me tornei inseparável. E era o horário manso do trabalho que permitia a vida boêmia.”

Aos 82 anos, Arinos Filho contou a história no teatro da Academia Brasileira de Letras, enquanto esperava o show que Georgiana e Miúcha fariam em homenagem aos 100 anos do poetinha – que nasceu em 19 de outubro de 1913. E a narrou da mesma forma em Tramonto, livro recém-lançado pela Objetiva que o imortal, embaixador e político escreveu em homenagem à mulher, Beatriz – com quem viveu 55 anos. “Ela me ensinou a viver.”

Retratos de Bia, que morreu em 2011, estão espalhados pelo apartamento. Na varanda, de onde se vê a enseada de Botafogo, repousa a foto do dia em que ficaram noivos. No escritório, em destaque, aquela do dia em que se conheceram, em Nova York. “Foi a primeira que fiz dela, em um botequim de um bairro de bêbados.”No lado oposto, um retrato do primogênito do casal, Virgílio, que morreu às vésperas de completar 6 anos. “É como em A Divina Comédia. Virgílio conduziu Dante e Beatriz o levou para o céu”, conta Arinos – que, durante três décadas, morou no exterior. Hoje, o pai de seis filhos e avô de dez netos passa a maior parte de seu tempo em casa. “Já vi muita coisa, agora chega.”

A seguir, os melhores momentos da entrevista.

Quando o senhor decidiu escrever um livro de memórias?
Quando perdi Beatriz, em abril de 2011. O livro é dedicado a ela. Tanto que começo com um poema de Ribeiro Couto que ela dizia ter sido feito em sua homenagem.

Por que Tramonto?

Porque morei sete anos na Itália, em duas ocasiões. Em italiano, tramonto é poente. Faz com que me lembre do pôr-do-sol sob o Leblon, visto do Arpoador. É lindo, uma beleza. Era a praia a que eu e Bia íamos.

Sempre pensou em publicá-lo?

Não, só porque perdi Beatriz. Mas tudo que escrevi até hoje foram registros do que aconteceu. São narrações de coisas que pude saber e assistir. Acho que posso me definir, tranquilamente, como um memorialista.

Suas memórias se confundem com a história recente do Brasil.

Acontecia tudo lá em casa. Assisti ao suicídio de Getúlio (Vargas), ao golpe de Café Filho no Rio. Por causa da posição de meu pai (o imortal, ex-deputado e ex-senador Affonso Arinos de Melo Franco, autor da primeira lei contra o racismo no País), tudo acontecia ao meu redor. O livro não tem a menor intenção de debater, nem de argumentar. É sobre tudo aquilo que me tocou em minha vida: amizades, parentescos, política e diplomacia. Não tive a menor preocupação em dar lição a ninguém. Se a história me tocava, eu escrevia.

O senhor se disfarçou para ir à manifestação contra a Guerra do Vietnã, em Washington. 

Era chefe da seção política da embaixada brasileira. Eu e Bia nos vestimos de hippies, com grandes óculos escuros. Imagina se descobrem que um diplomata estrangeiro estava participando de uma manifestação contra o governo americano? Queria sentir aquele clima. E quando quero provocar um americano, digo que vivi o principal período dos EUA: o fim da Guerra do Vietnã, a abertura para a China e o escândalo do Watergate. O que mais eu poderia viver? (risos)

Como vê as manifestações no Brasil, especialmente no Rio?

Eduardo Paes está sendo um prefeito razoável. E ele tem de ser, senão o Brasil entra pelo cano. Com Copa do Mundo e Olimpíada aqui, o prefeito tem de trabalhar bem. Conheço muito mal os dois, mas acho que o Paes é e tem de ser melhor que o (Sérgio) Cabral. O governador do Rio, por definição, não tem importância. Quem tem importância é o governador de São Paulo. Em termos de Brasil, São Paulo é a locomotiva. Para onde São Paulo for, o Brasil vai atrás.

Acredita que este movimento pode mudar os rumos do País?

Já mudou, porque as pessoas cansaram de ficar caladas, cansaram de achar que ‘é assim mesmo, que está tudo bem’. Não está bem, não. O que não pode haver é o vandalismo. Até porque, ao quebrar tudo, elas estão indo contra os objetivos das manifestações.

É um novo momento?

Antigamente, ninguém se manifestava. Agora, as pessoas reclamam, vão para as ruas, xingam, querem manifestar sua opinião. Fui cônsul do Brasil em Genebra. Lá, pode-se fazer um plebiscito ou referendo sobre qualquer coisa, é possível chamar o povo para votar sobre qualquer problema de interesse maior. Essas discussões não ficam a cargo dos deputados. Lembro-me de meu pai me contando ter visto um importante político suíço andando de bonde. Era natural. Quando fui embaixador na Holanda, os filhos do primeiro-ministro lavavam o carro da família. São democracias avançadas. Estamos muito longe disso. O povo brasileiro – o carioca, particularmente – é totalmente desprovido de disciplina social. Faz o que pode fazer, não o que deve fazer.

Quando a carreira de diplomata entrou em sua vida?

Estava trabalhando em um escritório de advocacia de um tio, um dos maiores do Rio à época. Fui trabalhar lá porque estava pensando em ser advogado, Mas, com o passar do tempo, fui achando uma chatice aquilo tudo. Ser estagiário não era interessante, não. Meu pai deve ter percebido que eu não estava achando aquilo interessante. Um dia, leu para mim uma notícia do jornal sobre a abertura de inscrições para o vestibular do Itamaraty. Eu tinha justamente a idade mínima. Fui diplomata de carreira aos 21 anos. Imagina, você? E foi para estudar para o vestibular do Itamaraty que resolvi deixar o escritório de advocacia.

Antes disso, a profissão já lhe encantava?

Tinha muitos parentes diplomatas. Meu avô tinha sido ministro do Exterior, dois filhos dele eram diplomatas de carreira. A filha tinha se casado também com um diplomata de carreira. Tinha muita coisa familiar ligada ao Itamaraty.

É boa a vida de diplomata?

É, mas a gente perde contato com a família e com os amigos. Morei 32 anos fora do Brasil e não pude, durante esse período, saber o que estava acontecendo com eles. Costumo dizer que passei a não me entrosar mais. Eu nunca estava naquele ambiente em que tudo acontecia. Não sei o que as pessoas sentiram, o que aconteceu com elas. Por exemplo, hesito muito antes de perguntar a algum amigo ‘como vai sua mulher?’. Porque não sei se ainda é mulher dele, se está viva…

Não há como recuperar o que passou?

Não há como morar 32 anos fora de seu ambiente social e familiar e voltar acreditando que está tudo como era antes. Não está, é outro mundo. Foram todos esses anos fora do Brasil, em 11 postos diplomáticos diferentes. É dose! E não é que eu tivesse querido, não. Era o ministério que resolvia.

E onde foi o primeiro posto?

Na Itália. É justamente por isso que nomeei meu primeiro e meu último livros com nomes italianos: Primo Canto e Tramonto.

Mas Tramonto será mesmo seu último livro?

Acho que sim. Não tenho mais nada para contar. Tudo o que eu tinha para escrever já está escrito neste livro. /THAIS ARBEX