Sociedade ‘já não é mais omissa’, diz criador do Renova BR

Sonia Racy

06 de novembro de 2017 | 00h40

EDUARDO MUFAREJ, DO RENOVA BRASIL. / ARQUIVO PESSOAL

 Fundador do grupo, Eduardo Mufarej
diz que projeto para formar candidatos
para 2018 já tem 2.500 inscritos

As inscrições para as bolsas criadas pelo Renova Brasil foram estendidas até 12 de novembro. Já existem 2,5 mil inscritos e o grupo abriu escritório no Rio. Sócio da Tarpon Investimentos, Eduardo Mufarej lançou o movimento há um mês com missão para lá de ambiciosa: renovar a política brasileira. Para tanto, criou uma escola para novos políticos e pretende ver seus 150 escolhidos disputando as eleições já em 2018.

O pretendente se qualifica em seis meses e tem liberdade de optar por qualquer partido. A ideia é dar condições a pessoas que hoje estão fora do jogo político mas que têm competência e capacidade para entrar nessa batalha. “Tem gente competente nos diferentes espectros ideológicos da política brasileira”, diz ele. Na missão já estão dez pessoas mais – até agora – 158 voluntários. Aqui vão trechos da conversa com Mufarej.

Qual o principal desafio do movimento?
Começa com o próprio processo decisório. A sociedade, em grande parte, olha hoje a política com grandes restrições. A gente vê e fala: “o caminho político perdeu a nobreza, o sentido”. E quem quer fazer algo tem o desafio de ter de largar uma profissão por um projeto político absolutamente incerto. Temos que facilitar o caminho de pessoas jovens e competentes, dar recursos mínimos para que elas possam se manter ao longo do processo de formação e desenvolvimento de uma candidatura. Nossa ideia é identificar pessoas com potencial de liderança, com resiliência, ética e espírito de servir.

Como é que vocês sabem se alguém é ético ou não?
Existem vários testes desenvolvidos dentro da psicologia moderna para colocar pessoas perante dilemas éticos e ver como elas reagem.

De onde virão os recursos?
Criamos uma fundação para receber doações de pessoas físicas que estejam dispostas a ajudar. Acabou a fase em que a sociedade foi omissa em relação à política. Nossa ausência nos levou ao estado em que estamos vivendo. É importante construirmos um movimento a partir da sociedade. Estimamos que vamos investir R$ 200 mil em cada candidato.

Como você entrou na política?
Venho de uma família com algum nível de engajamento político. Minha mãe participou muito do início da história do PT e também fez parte da Apeoesp – ela era professora de escola pública. Muito da iniciativa do Renova Brasil consiste em tentar trazer um contexto diferente, quebrar um pouco esse círculo vicioso em que a gente vive – seja por ser a política hereditária, seja por termos o espaço político tomado por pessoas que não têm interesse em servir a sociedade. Obviamente, a gente não pode generalizar, há políticos bons.

Qual foi o clique que o empurrou para essa iniciativa?
Há três anos assumi a presidência da Somos Educação, maior grupo de educação básica do Brasil. E iniciei uma processo de reflexão. Pensei em ir para algo diferente, onde eu pudesse me colocar mais a serviço da sociedade. Desde março deste ano. Me aprofundei, encontrei apoio dos meus sócios lá da Tarpon e tomei a decisão de fazer uma migração – não ser mais presidente da companhia. Fui para o conselho de administração para poder dedicar mais tempo a esse processo de renovação.

‘A SOCIEDADE HOJE QUER
EMPODERAMENTO, TOMAR
DECISÕES POR SI PRÓPRIA’

Sua experiência na área de educação deve ter tido influência. O que você descobriu de importante nesses três anos?
Tive clareza de quais são os gargalos do Brasil. Ao mesmo tempo, um sentimento claro de que o País precisa de ações mais contundentes na educação. De uma certa forma, dando aula no curso Anglo e também em escola da rede pública de reforço para alunos que pretendem prestar o Enem.

Qual matéria você ensinava?
História e Atualidades. A educação hoje no Brasil é excludente. Quando você olha para a situação, uma pessoa estuda numa escola privada e depois entra numa universidade pública. E a da escola pública não entra na vida pública. Precisamos, de fato, privilegiar as pessoas que mais precisam.

O ‘Estadão’ promoveu um debate entre promotores e juízes da Operação Mãos Limpas, da Itália, e da Lava Jato. Um dos italianos, depois de contar que a Mãos Limpas não deu em nada, revelou que hoje trabalha na área de educação, única maneira, segundo ele, de mudar o processo político. O que vem primeiro, mudar a política ou a educação?
Os pontos estão todos interconectados e uma coisa nunca deve excluir a outra. Mas o padrão educacional leva à melhor política. Esse, no entanto, é um processo longo, vai tomar muito tempo. Normalmente leva mais de uma geração. Nós estamos olhando para a formação política.

Como assim?
Acho que a questão de formação política também é essencial. Faço parte do conselho da Escola de Negócios da Yale University, e ali se foca muito a formação de liderança. No Brasil não existe uma entidade que esteja concentrada na formação de novas lideranças políticas. É esse o espaço que o Renova pretende ocupar.

Esses novos candidatos vão ter melhor formação. Mas quem vota neles não. Como desfazer este gap?
A eleição de 2018 ela tende a ser bastante nova. Há dois efeitos importantes na mesa hoje: uma rejeição grande em relação ao establishment político e a força das redes sociais, que não existiam quando a gente teve uma eleição análoga em 2014. A sociedade hoje quer empoderamento. Tomar decisões por si própria. Nossos candidatos estarão formados e atentos.

Esses novos representantes terão qual compromisso com vocês?
Eleito por quatro anos, ele tem que cumprir o mandato. No Brasil a gente criou uma cultura de suplência que é um desserviço aos eleitores. Hoje, se a gente olhar, por exemplo, no Senado Federal, temos uma parcela importante de senadores que foram eleitos mas em seguida convocados a ocupar outros cargos – e quem ficou na cadeira deles, no Senado, foram suplentes que a gente desconhece.

Os eleitos do grupo vão ter que assinar alguma coisa?
A gente vai pedir um termo de compromisso. Outro ponto é a transparência, seja de contas de gabinete ou do processo seletivo de gabinete. Não vamos orientar sobre a forma como ele deve votar no dia a dia, mas a gente acha que faz parte do processo o congressista comunicar à sociedade por que votou deste ou daquele jeito.

A Maitê Proença vai ajudar?
Ela nos procurou, como voluntária, para ajudar a fazer a parte do treinamento das mulheres. Hoje as mulheres estão sub-representadas na política brasileira e é muito importante que se aumente a presença delas nessa atividade.

‘TÁ TODO MUNDO
DENTRO DA BOLHA,
FALANDO PARA SI MESMO’

O Estado tem que ser grande ou pequeno?
Ele tem que funcionar. O cidadão ligar para o SUS e a ambulância chegar, ligar para polícia e ela atender. A escola tem que oferecer para a população uma educação básica de qualidade. Caso contrário, a gente continuará perpetuando um País de profunda desigualdade.

Como você vê o cenário de 2018? Vamos ter uma eleição pulverizada, concentrada ou judicializada?
Estamos em um processo acentuado de polarização, as próprias mídias sociais trazem isso. Está todo mundo falando dentro da bolha, para si mesmo. Perdemos a capacidade de dialogar, encontrar os pontos que unem a sociedade brasileira.

Não os pontos que dividem?
Estamos em num contexto de ampla divisão. Eu gostaria que a gente pudesse olhar um Brasil para o qual grande parte da sociedade converge. E se gente olhar, independente da ideologia, tem uma convergência importante: todo mundo quer sonhar, todo mundo quer ter um País melhor, todo mundo quer um País com maior leque de oportunidades. Todos querem deixar um País melhor para os filhos e netos. Mas hoje estamos vivendo talvez o maior momento histórico de distanciamento que eu, pelo menos, já enxerguei na nossa sociedade.

Eu já li sobre a criação do PSDB, do PT também, a Rede, da Marina… No meio do caminho, de algum modo eles se desvirtuam. Como fazer para impedir que isso se repita?
Renovando as estruturas partidárias, fazendo com que os filiados tenham uma voz forte, que as lideranças exerçam esse papel, não de perpetuação no poder mas de perpetuação das filosofias. De visão de futuro, constituição de pauta. Hoje os partidos – infelizmente – fazem muito pouco disso. É muito difícil, a gente olha para o Congresso brasileiro e vê que só uma minoria de partidos tem visão, projeto de País. Você trouxe ótimo exemplo, vários desses partidos históricos foram criados com as melhores intenções mas ao longo da jornada se perderam.

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