‘Só se fala o que se deve por medo das redes’, diz Maitê Proença

‘Só se fala o que se deve por medo das redes’, diz Maitê Proença

Sonia Racy

28 Maio 2018 | 01h00

MAITÊ PROENÇA

MAITÊ PROENÇA. FOTO: PAULO GIANDALIA/ESTADÃO

Maitê Proença concorda que o mundo vive tempos difíceis, no qual emitir opinião, publicamente, por meio da internet, WhatsApp ou outro veículo significa “estar em guerra com quem pensa outra coisa”. Trata-se de uma nova prisão social? “Sim, e muito séria, porque a gente não tem como chegar nessas pessoas sem cara e sem voz”, avaliou a atriz, no meio da turnê da peça A Mulher de Bath. “São covardes. E você sabe por que é que eles fazem isso? Vou te dizer. Pela mediocridade. É uma gente que sabe que não tem valor. Não tem feitos, não realizou nada de produtivo”, destaca Maitê. Conhecida pela coragem com que enfrenta percalços na vida, acredita que esses “haters” não criam pensamento inteligente. No que tem razão.

No fim de semana, a peça, cujo texto é de 1380, foi encenada em Salvador. Ela conta a história de uma viúva libertária e está programada para rodar o Brasil neste ano, já tendo passado por São Paulo e Rio. O que não impedirá a atriz de colaborar com o caderno da Copa a ser editado pelo Estadão. Vai comentar o evento durante a disputa.

Maitê fez mais de 30 novelas e séries em 40 anos de carreira, foi apresentadora, debatedora, ganhou prêmios com papéis fortes no cinema e no teatro. Foi cronista da revista Época, tem seis livros publicados e três peças de sua autoria. Viveu dramas pessoais, viajou por 90 países, embarcou em jornadas espirituais, e agora, depois de ser dispensada da TV Globo onde trabalhou por 37 anos, diz que “está livre pra levar a vida à sua maneira.” A seguir, os principais trechos da entrevista.

Quais são os seus projetos para os próximos… cinquenta anos?
Quero velejar o mundo. Encontrei o Lars Grael outro dia e ele me explicou que tenho idade para isso, que está tudo certo, que eu posso, que os pais dele estão fazendo. Falta só aprender a velejar, um pequeno detalhe. E falta inclusive o barco também. Mas já comecei a fazer aulas, estou na sexta e com dez posso sair para o mar aberto.

Por que resolveu montar especificamente este texto de Geoffrey Chaucer?
Existem temas atemporais. O da mulher é um deles. As circunstâncias variam um pouco, mas as condições foram sempre opressivas, desde que os homens inventaram que Eva foi a danação da humanidade. O problema é longevo e achei que valia a pena trazê-lo à tona pelo olhar de uma senhora dos tempos medievais. Será que mudou muito?

Essa mulher que você escolheu é muito livre, pelo menos no pensamento, no modo de agir e na manipulação. Acredita que os homens são menos manipuladores que as mulheres?
Sim, nós fomos obrigadas a criar táticas de sobrevivência do corpo e do espírito para conseguir driblar a ferocidade masculina. A mulher de Bath tem a fala franca e revela o que faz para enrolar seus rapazes, suas artimanhas e truques. Isso a torna cômica, despudorada e corajosa. É muito católica e se casa pela primeira vez aos 12 anos com um homem velho e rico, seguem-se mais dois desse tipo. Para variar o plantel, ela reza fervorosamente para que esses homens morram. E dá sorte. Eles morrem, um atrás do outro. Teve cinco. Está querendo o sexto.

Uma assassina mental?
É uma menina caprichosa que vai se transformando em uma mulher madura e sábia. Ela vai contando o que acontece ao longo de todas essas fases da vida. O que ela aprende e como. A personagem é um dos pilares da literatura ocidental e o discurso dela sobrevive há 650 anos. Não é à toa que virou um clássico. Ela é muito inteligente. É irreverente, fala com homens de igual pra igual e, quando usa argumentos bíblicos (já que está em uma peregrinação religiosa), não se compara ao pescador, ou às mulheres recatadas, mas a Abraão, a Jacó. Ela se nivela por cima. A mulher de Bath nos mostra os diversos aspectos e verdades da guerra entre os sexos, sem precisar dourar pílula alguma.

Homem não faz isso também?
Todo mundo. Mas como esse movimento renasceu e que em todos os movimentos há abusos, quando as pessoas criticam o feminismo essa crítica acontece pelos excessos. No entanto, acho que temos o direito de pesar na mão, dada a longevidade do problema. E essa personagem faz uma coisa diferente porque fala da virulência com que os homens oprimem. Mas fala dos truques e das artimanhas, conta e mostra toda a verdade. Eu acho que isso só reforça o discurso dela e a torna muito mais engraçada. A moral dessa história é dar mais poder para a mulher. Está faltando hoje em dia. Precisamos de mais mulheres em cargos de poder. Seria saudável existirem muitas mulheres nos espaços de decisões. O mundo seria um lugar sem as patetices irresponsáveis e agressivas do Trump e do “menino malucão”. A mulher de Bath diz que se você der soberania para uma mulher, ela devolve e divide com você. E, dividindo com o homem, ela promove o bem-estar geral, inclusive o dele.

Você concorda com isso?
Concordo. As mulheres não gostam de guerras, de armas, de mortes. Sabem que nas guerras morrem os nossos filhos e os nossos maridos. Elas lutam de outra forma. Com uma visão mais abrangente das coisas. Não pegando uma arma e matando. O homem inventou o duelo. Imagina se uma mulher inventaria uma barbaridade dessas? ‘Olha aqui, eu não gostei do que você falou para mim, você desonrou a minha pessoa, vamos lá fora e um de nós dois vai morrer’. A mulher daria um jeito, diria ‘vem cá, espera aí, vamos conversar’. Talvez até destruísse o outro depois, mas por meio de artifícios bem mais sutis.

Por que a mulher é tratada tão diferentemente?
Porque ainda hoje, em parte do mundo, as mulheres não têm direito a educação, a herança, aos seus próprios corpos. Sofrem com a prostituição, com casamentos prematuros. Elas têm filhos que elas não querem, que não podem sustentar. Elas produzem dois terços dos trabalhos da humanidade e têm um terço das propriedades. Isso é estatístico. E é um equívoco histórico. Não é só assim nos países islâmicos ou nos países africanos. Do lado da nossa casa isso acontece. As mulheres são espancadas, estupradas e mortas muitas vezes com impunidade.

Já foi assediada ou passou por maus momentos?
Acho que as mulheres que têm voz, as herdeiras de Simone de Beauvoir, sofrem menos. Mas podem falar pelas outras que são oprimidas. Estas que estão nessa categoria que eu te falei. Eu, Maitê, fui assediada de muitas maneiras e não conheço mulher que não tenha sido. Mas, ou eu dei um coice, “chega para lá” ou contornei com humor. E me levantei porque a vida criou um couro em mim e sei me safar.

Quais são as grandes mudanças nas novelas de atualmente?
O que mudou foi o público, porque não sabemos mais quem é o interlocutor. Antigamente sabíamos. Então era fácil o autor escrever para aquelas pessoas… Acredito que o mundo é que mudou bastante. Mudaram as opções. Em casa hoje você pode escolher o que vai ver. Tem também a internet na qual você pode determinar qual será sua programação.

Você tem muita facilidade para se comunicar, tem o raciocínio muito claro e opiniões muito definidas. Pensou em fazer política de alguma maneira?
Não. Já acho político o que fazemos. Aqui, conversando com você, falando sobre temas em uma época em que não podemos falar nada. As pessoas só falam o que se deve, têm medo. Nos meus grupos de WhatsApp alguém comenta alguma coisa um pouquinho mais polêmica e é um silêncio só. Todo mundo tem pânico de que aquilo vaze. Ninguém pode emitir opinião porque parece que estamos em guerra com quem pensa outra coisa.

Isso é uma nova prisão que as pessoas estão vivendo?
Sim, e é muito sério porque não temos como chegar nessas pessoas sem cara e sem voz. Covardes. E você sabe por que é que eles fazem isso? Vou te dizer. Pela mediocridade. É uma gente que sabe que não tem valor. Não tem feitos. Não realizou nada de produtivo. São pessoas que falam com seus os amigos, que não expandem seu mundo, não cria um pensamento inteligente, nada! É a única maneira dessas pessoas se sobressaírem da mediocridade, é achatando o que está em volta. Então, criticam o outro. Amassam você para cabecinha delas se destacar na multidão.

Como reage às agressões?
Tenho uma pessoa que apaga as coisas desagradáveis que escrevem, mas às vezes passa uma ou outra e eu vejo. Não faz bem.

Como se proteger disso?
Não tenho a menor ideia. Isso abate. É um mundo muito hostil, destrói reputações pela abrangência da internet. Alguém joga uma mentira cabeluda, vira verdade e tudo que você fez ao longo da vida, todas as coisas das quais você se privou por ter ética, por moral firme, tudo vai para o ralo. Quem tem voz está calado. Quem pondera, tem opinião, está perplexo e quieto. Só os detratores é que estão falando barbaridades. Tempos esquisitos, né?