‘Só os americanos estão fora’

‘Só os americanos estão fora’

Redação

19 de outubro de 2008 | 21h52

Tamas Rohonyi, do GP Brasil de Fórmula 1, conta por que as montadoras investem tanto na competição



Foto: Paulo Giandalia

Enquanto o mundo do esporte discute a chance de o Brasil ser sede de uma Olimpíada e os riscos de receber a Copa do Mundo em 2014, um brasileiro cresce, discretamente, no ranking dos favoritos para assumir o comando da principal entidade automobilística do Planeta, a FIA, responsável por gerir o milionário circo da Fórmula 1. Trata-se do publicitário Tamas Rohonyi, húngaro naturalizado brasileiro, que assumiu a promoção do GP Brasil no fim da década de 70, e desde então cuidou de todas as provas realizadas em Jacarepaguá e Interlagos. Isso lhe garante uma vaga – e um voto – na Federação. Mas que não se pense que ele caiu do céu direto no GP Brasil. Em 1986, foi o responsável por introduzir o automobilismo em uma Hungria ainda socialista. Organizou os três primeiros grandes prêmios do país.

Hoje, com o fim da era Max Mosley – atual presidente, que promete aposentar-se em 2009 -, a tendência é que o futuro chefão da FIA venha da América Latina ou da Ásia. Nesta entrevista, Rohonyi fala sobre a evolução do esporte, relembra histórias saborosas e fala sobre o futuro da F1 no Brasil. Com ou sem Felipe Massa no alto do pódio.

Qual a chance de um brasileiro ser presidente da Federação Internacional de Automobilismo? A mesma de qualquer um. A FIA é uma organização muito grande, com 145 países-membros e, como toda entidade desse tipo, tem uma vida complexa. Lá dentro há o bloco da América Latina, da Europa Central, dos EUA, da Ásia. O atual presidente, Max Mosley, que é muito meu amigo, mesmo antes das complicações que surgiram, já havia anunciado que, após 14 anos no cargo, não se candidataria em 2009. Os vários grupos, então, começaram a se movimentar para criar uma chapa. O esporte está muito forte na Ásia e na América Latina. Por isso, é provável que o próximo presidente não seja nem alemão, nem inglês, nem francês.

Pode ser você? Pode ser qualquer um. Mas a maior chance é que saia da América Latina ou da Ásia. Não é um cargo fácil. E, por isso, não acho que vai chover candidatos.

É verdade que a Fórmula 1 gera efeitos colaterais à saúde? No GP, se você olhar atentamente, verá que as pessoas mais antigas, como dirigentes e chefes de equipe, usam aparelho de surdez. O primeiro a se preocupar com isso foi o Jack Stewart, que insistiu em certas medidas preventivas, como protetor auricular. Eu, graças a Deus, não tenho esse problema.

De todas as gerações que você acompanhou, qual foi o piloto mais carismático? Sem dúvida, Ayrton Senna. Mas, pessoalmente, meu favorito é Nelson Piquet.

Por quê? Ele é muito autêntico, muito engraçado.

Nos bastidores, os pilotos fazem muita festa ou são atletas exemplares? Houve uma mudança muito grande nesses 30 anos que estou no negócio. Na época do Emerson – que foi um dos mais disciplinados da sua geração -, o pessoal gostava de festa. Mas os carros atuais exigem uma concentração muito, muito grande. É preciso ter um preparo físico e mental enorme. O exemplo perfeito do piloto moderno é o Lewis Hamilton, que foi criado praticamente em laboratório para ser um piloto de Fórmula 1. O grande Michael Schumacher, hoje, pesa 6 quilos mais do que quando parou de correr. O Senna? Esse era um atleta exemplar…

O que achou da experiência de Cingapura? Tem vontade de fazer uma corrida noturna em Interlagos? A corrida noturna é uma prova interessante, mas não deve predominar. O campeonato mundial de F1 é uma imitação das antigas corridas de estrada. Os circuitos tentam se aproximar delas. Interlagos é uma estrada típica brasileira, por exemplo. Anos atrás, os pilotos se queixaram de que ele era muito ondulado. Ora, é uma estrada brasileira, não de Mônaco.

Vocês passam um ano preparando o dia da corrida? Mais do que isso. Já estamos trabalhando no evento de 2009. No total, dá uns 14, 15 meses. O cronograma é extremamente complexo.

Qual o segredo do sucesso da Fórmula 1? Tenho uma teoria: o sucesso se deve ao roteiro. A Fórmula 1 é como uma novela em dezoito capítulos. O primeiro é em março, na Austrália, e o último em Interlagos. São 22 heróis batalhando. Praticamente todos as grandes montadoras estão presentes nesse épico: Toyota, Honda, Fiat… Só os americanos estão fora.

Por quê? Eles não têm a tecnologia, que é extremamente avançada. E não interessa para eles, do ponto de vista mercadológico. BMW, Toyota, Honda mostram sua tecnologia para o público na F1. Recursos aerodinâmicos que os carros têm hoje vieram da F1. Os carros usam tecnologia de avião militar.

E quanto a cidade fatura com a Fórmula 1? De acordo com os dados da SPTuris, a receita do GP Brasil gira em torno de R$ 200 milhões.

O contrato de vocês com a Prefeitura vai até quando? 2014.
Existem rumores de que a Prefeitura quer renegociar esses contratos… Esse contrato que, dizem, seria renegociado, terminava em 2009. Só que no GP do ano passado, Gilberto Kassab e Bernie Ecclestone anunciaram que ele seria prorrogado até 2014.

Por que a F1 saiu do Rio em 1989? O problema lá foi o autódromo, que deixou de ser adequado e a prefeitura não tinha recursos para modernizá-lo. Aí a prefeita Luíza Erundina fez uma reforma (em Interlagos) e o evento acabou vindo para cá.

Mas o César Maia quis levar a prova de volta para o Rio, não foi? Ele chegou a conversar comigo várias vezes e em todas elas deixei bem claro que temos um contrato com São Paulo.

Quando a F1 não tem brasileiros na ponta a receita cai? Definitivamente, não. Nosso público quer ver o show, acompanhar o drama. Claro que se tiver um herói brasileiro, melhor. O que aconteceu quando o Ayrton faleceu foi que a audiência da TV Globo caiu. Quem deixou de ver corrida naquela época não era fã de automobilismo, era fã do Senna.

por Sonia Racy e Pedro Venceslau

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