‘Só não me mudo para o Rio, pois passaria o tempo todo na praia’

‘Só não me mudo para o Rio, pois passaria o tempo todo na praia’

Sonia Racy

12 Janeiro 2015 | 01h00

Foto: Ben Tietge

O fotógrafo peruano fala da relação com o Brasil, Gisele, os projetos sociais que está desenvolvendo em seu país e sua nova forma de trabalhar: cuidando de tudo.

O peruano Mario Testino mora em Londres, mas pode ser visto, com bastante frequência, nas areias de Ipanema – cenário que conheceu aos 15 anos e, desde então, faz parte de seu circuito. “Venho para o Rio todo fim de ano. Alugo um apartamento ou fico no Copacabana Palace”, diz.

Foi no Brasil, durante um show do grupo Secos e Molhados, com Ney Matogrosso coberto apenas por plumas, que o fotógrafo se sentiu livre para se tornar o que é hoje. “Quando vi a cena, senti a mesma sensação de quando conheci David Bowie. Eles me mostraram que tudo era possível.”

Pois o momento, agora, é de retribuição para Testino. Ele vai começar um trabalho social em seu país natal. Ainda este mês, vai construir parques de jogos nas áreas mais pobres do Peru. “Acho que é o momento de participar da cultura, do crescimento e dar apoio. Retribuir para o meu povo tudo o que eu vi e aprendi nestes anos fora.”

No Brasil para gravar a parte brasileira da campanha mundial da Cîroc, marca da qual é diretor criativo, ele foi responsável por tudo, dos cliques ao figurino e à escolha das modelos – Mayana Moura (uma de suas musas) e Helena Bordon. “Desse jeito funciona melhor para mim e para o cliente”, explica.

Testino conversou com a coluna em português quase perfeito durante o shooting, em uma manhã ensolarada de dezembro, no hotel La Suite, no Joá, Rio.

A seguir, os melhores momentos do bate-papo.

Você está sempre no Rio. Já pensou em se mudar?

O problema é que só ia querer ir para a praia e não conseguiria trabalhar. Mas, quem sabe um dia…

Você descobriu o Brasil aos 15 anos. Como foi?

Sempre lia a revista Manchete e ficava encantado com as matérias de carnaval, as mulheres peladas e toda aquela festa. Pensava: “Uau, esse é o lugar onde eu quero estar”. Fiquei sabendo de um voo militar que saía de Lima para Brasília, propus ao meu pai e ele me deixou ir. Só que minha irmã e meu irmão menores também queriam conhecer o Brasil. No fim das contas, os três tentaram um lugar no avião e só eles conseguiram. (risos) Aí, meu pai falou que a ideia era minha e acabou me dando uma passagem em classe executiva, direto para o Rio. Desde então percebi que minha vida seria assim, de sorte.

Qual foi sua primeira impressão ao chegou no Rio?

Fiquei louco, porque o Peru é bem clássico, bem conservador como país, tudo o que eu não sou. Lembro-me de que, quando cheguei ao Rio, achava incrível as pessoas irem de sunga ao supermercado, ao banco. A liberdade que os brasileiros têm com o corpo me encanta. Mas o que mais me marcou foi um show do Secos e Molhados, a que eu assisti e no qual o Ney Matogrosso estava nu, só com umas plumas. Quando vi a cena tive a mesma sensação de quando conheci David Bowie. Eles me mostraram que tudo é possível.

O estilo mais extravagante sempre chamou sua atenção?

A liberdade, na verdade. Essa ideia de que o homem tem de ser sempre macho e a mulher tem de ser sempre superfeminina nunca me atraiu. Por que não podemos ser apenas o que estamos sentindo no momento?

Você considera o mundo muito machista?

Considero, mas acho que hoje está tudo mais aberto. Não só o lado sexual, mas tudo.

E como foi que você se descobriu fotógrafo?

Eu estudava Economia, mas já gostava muito do mundo das artes. As pessoas acham que, se você é economista, não pode ser mais nada. Mas eu não penso assim, acho que você pode ser um ótimo economista e um ótimo fotógrafo de moda também. Um não exclui o outro.

Uniu as duas profissões.

Sim, as pessoas têm a impressão de que os artistas são bobos, não ganham nada. Isso não tem nada a ver. Você pode ser um superartista e um super-homem de negócios. Foi isso que aprendi no Brasil, que tudo na vida é possível.

Você está aqui para gravar a parte brasileira da campanha mundial da Cîroc e fez questão de cuidar de tudo. É o seu lado empresário falando?

Mais e mais as marcas me pedem para fazer o controle de tudo. Elas me explicam o que querem e eu pego a ideia, contrato todo mundo e decido o que é bom. Gosto de ser o executor e também a cabeça, fica mais completo para mim.

Você é responsável pela imagem de marcas como Gucci, Burberry e Michael Kors. Como é isso?

A vida me trouxe isso. E ainda bem, pois sempre dá um retorno muito positivo. Veja o exemplo da Michael Kors: quando entrei, valia US$ 50 milhões; ano passado, foi vendida por US$ 10 bilhões. Não fiz isso sozinho, claro, é um conjunto. As pessoas têm diferentes maneiras de olhar o mundo da moda: uma maneira é mudar tudo o tempo todo; outra, a que eu mais gosto, é mais consistente.

Qual sua relação com o Peru, sua terra natal?

Adoro meu país. Abri um museu lá, porque acho que é o momento de retribuir e ajudar. Você conhece a Natalia Vodianova, a modelo russa? Pois há alguns anos ela me convidou para ir a Moscou fazer a foto de uma personalidade russa em uma festa. A mulher pagou 450 mil euros, doados para a ONG que ela tem na Rússia. Ela constrói parques de jogos para crianças em regiões pobres. Um deles fica em um hospital de crianças com câncer, o que mexeu muito comigo, pois meu irmão morreu de câncer aos 10 anos.

Isso o motivou a fazer esse trabalho no Peru?

Ela me abriu essa possibilidade. Ano passado, fui com Natalia para Mônaco fazer a mesma coisa. Pagaram um milhão de euros pela foto. Aí eu falei: “Olha, Natalia, eu adoro você, mas não sou russo. Vou querer uma participação nesse dinheiro para fazer o mesmo trabalho no Peru”. Ela, claro, me deu uma porcentagem. Agora em janeiro vou começar a construir esses parques nas zonas mais pobres do meu país. Acho que é o momento de participar da cultura, do crescimento e dar apoio. Mostrar para o meu povo tudo o que eu vi e aprendi nesses anos passados fora.

Vai investir em escolas de arte no Paru também?

Sim, pretendo fazer um pouco de tudo.

O mundo da moda mudou muito desde os anos 80 e 90, quando você estava começando. O que acha da febre do fast fashion?

Temos de nos adaptar a tudo. Minha mãe é um exemplo disso: ela sempre me conta que, no começo, para fazer uma ligação telefônica local, ia até o operador e esperava mais de uma hora. Hoje, aos 92 anos, usa o Instagram, Facebook, Skype. Acho que temos sempre de estar abertos a tudo que acontece, porque, a partir do momento em que você fala “não acredito nisso”, começa a ficar para trás. Quem não usa as redes sociais hoje em dia é bobo, porque tudo é comunicado através delas. O mundo muda e temos de ir com ele.

E sobre as parcerias das grandes marcas de luxo com lojas de fast fashion, como a que aconteceu agora entre Versace e Riachuelo, no último SPFW?

Eu gosto. Lembro-me da coleção do Karl Lagerfeld para a H&M, anos atrás, que foi um escândalo. Mais uma vez, as redes sociais possibilitam que todos conheçam a moda e queiram consumir essa moda. São as parcerias que possibilitam a essas pessoas comprar peças de grandes labels por preços acessíveis, o que é bom, pois democratiza a moda.

É favor dessa democratização?

Claro. Por que não associar uma boa ideia a um material não tão caro, para que todo mundo possa comprar, ao invés de associá-la a um material supercaro, que só um punhado de pessoas pode comprar?

É adepto do Instagram? Ou acredita que essa moda de todo mundo querer ser fotógrafo atrapalha a profissão?

Não atrapalha em nada. Acho ótimo, porque, agora, o mundo sabe que fazer fotos boas não é tão fácil. (risos) Fazer fotos e postar está na moda e hoje todo mundo está interessado no que está na moda.

Qual sua opinião sobre as blogueiras e it girls?

Olha, já vi tanta coisa ir e vir nessa minha área… Acho bom, porque são elas que comunicam a moda a todos.

Elas conseguem passar uma imagem mais real da moda?

Sim, porque não estão na passarela, estão usando as roupas no dia a dia. Vi agora, em Paris, que, às vezes, a rua fica mais interessante que os desfiles. Tem tanta gente vestida de modo original e louco, coisa que só havia na Inglaterra. Acho que as blogueiras são parte disso.

Acha que as blogueiras vendem mais que as modelos hoje?

Não, são mercados diferentes. As modelos vendem horrores, eu vejo a Gisele (Bündchen) a Kate Moss… Basta que usem uma peça para que ela desapareça das lojas.

O que uma modelo precisa para te agradar?

Muitas coisas. Ela tem de ser linda, ter todas as qualidades de que preciso: pernas, cabelos, mãos bonitas e, além de tudo isso, precisa ser superinteressante. Porque vou passar meu tempo com ela, então precisa ser simpática e muito, muito, muito humilde. Kate e Gisele são assim: simpáticas com todo mundo, atraem vida, estão sempre tentando fazer melhor. Gosto de gente de verdade, não gosto de nada falso.

Você descobriu a Gisele…

Não posso falar que descobri. Eu a vi em NY e disse: “Ela é incrível”. Gisele correspondeu ao momento em que eu estava descobrindo a mim mesmo, voltando para a América Latina, voltando às minhas raízes. Trabalhei com ela semana passada, em NY. Um dia, glamorosa; no outro sexy e selvagem. Ela pode ser qualquer coisa, o que torna minha vida muito mais fácil. (risos) Kate e Gisele são minhas amigas, passo a vida com elas.

Elas têm estilos de vida bem diferentes.

Muito diferentes, mas muito parecidas ao mesmo tempo. Meu problema é que, atualmente, começo a percebê-las parecidas fisicamente, o que é estranho, porque são muito diferentes.

Qual o atual modelo de beleza? Continua sendo a Gisele?

A gente vive um momento de beleza muito amplo. Tem as mais voluptuosas, como a Kim Kardashian…

Gosta dessa mulher mais voluptuosa?

Ah, eu gosto de tudo. (risos) Tudo tem beleza, basta o jeito como você olha.

Qual o segredo para uma modelo emplacar?

Trabalhar muito e ser simpática. Porque temos de conviver com essa pessoa e, se ela não é simpática, ninguém vai querer estar junto, mesmo sendo linda. A personalidade é superimportante.

Que dica você dá às modelos que estão começando, em relação aos perigos do mundo da moda, como as drogas?

A vida tem muitas possibilidades. Quando eu era jovem, assistia a um programa de TV no qual uma pessoa entrava em um quarto com muitas portas e tinha de escolher uma delas. Cada uma abria para um caminho. Acho que a vida é como esse programa, por isso é difícil aconselhar. Tem de ser precavida. É como estar no Brasil: não dá para sair na rua com relógio e joias.

Qual foi o trabalho mais marcante da sua vida?

A princesa Diana. Mudou a minha vida, não apenas a maneira com que as pessoas passaram a me conhecer. Ela me inspirou a devolver para o mundo, para a sociedade, para o meu país.

Se não fosse fotógrafo, o que gostaria de ser?
O que você acha? Performer, é claro! (risos) /SOFIA PATSCH