‘Seria retrocesso acabar com a Ancine’, diz presidente da Cultura

‘Seria retrocesso acabar com a Ancine’, diz presidente da Cultura

Sonia Racy

02 de setembro de 2019 | 00h40

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JOSÉ ROBERTO MALUF. FOTO: IARA MORSELLI

Presidente da TV Cultura defende a agência,
critica censura e revela seus planos para o canal,
entre os quais lançar novos produtos no streaming

Ex-vice presidente do SBT e da Band, onde ficou por 25 anos, o executivo José Roberto Maluf assumiu em junho o cargo de presidente da Fundação Padre Anchieta – que cuida da TV Cultura – com missão precisa: mudar o perfil da emissora. Tinha, no horizonte, dois desafios principais – o de tornar o canal menos dependente de recursos públicos e o de ampliar a receita. Como uma das saídas, Maluf articula a entrada da TV Cultura no streaming com sua nova programação e novos produtos. E define a nova estratégia: “Vamos estar em todas as plataformas onde pudermos estar”.

Na bagagem, o advogado, formado na São Francisco, tem 10 anos de ensino de Direito Civil, experiência como jornalista e editor e o comando, como superintendente, da Fundação Cásper Líbero – além de passagens pela Abert e pela Organización de la Televisión Iberoamericana até 2000. Nesta entrevista a Pedro Venceslau, o presidente da emissora não economiza críticas à política cultural do presidente Jair Bolsonaro. Definiu como “um retrocesso” qualquer tentativa de extinguir a Agência Nacional do Cinema, Ancine, como chegou a propor o presidente. Chamou de “lamentável” o que se fez com o filme Bruna Surfistinha: “É uma censura em um País cuja Constituição determina claramente que não se pode censurar.” Nada a estranhar, assim, que Bolsonaro sequer lhe tenha respondido quando convidado para o Roda Viva. A seguir, os principais trechos da conversa.

O secretário de Cultura, Sérgio Sá Leitão, disse no ano passado que sua escolha foi feita com ajuda de um headhunter. Como foi o processo?
Na verdade eu soube que houve a contratação de um headhunter que fez várias sugestões ao Conselho Curador. Mas esse sistema acabou não dando o resultado esperado. Não sei por quê. Houve uma indicação do meu nome feita um dos membros do conselho. A sugestão foi para a assembleia. Dos 39 conselheiros (são 47 no total), 36 votaram pelo meu nome.

Qual a sua relação com o governador João Doria?
Participei do Lide (Grupo de Líderes Empresariais) como media partner com a (revista) America Economia. Tive proximidade com o João mais de uma vez. Ele trabalhou comigo por duas ocasiões na Bandeirantes quando eu era vice-presidente. Assim que fechou a Tupi nós o convidamos para ser o responsável pela comunicação da Band. Ele ficou um pouco conosco e saiu. Posteriormente, quando o Walter Clark se tornou diretor-geral, convidou-o de novo. João foi também presidente da Paulistur num hiato em que deixei a Band e fui vice-presidente dele.

Acha que essa proximidade com o governador teve algum peso na sua indicação para comandar a TV Cultura?

Quando soube que eu tinha sido indicado, o João não se opôs. Não foi ele quem indicou, mas deixou claro que gostou da decisão.

Qual é a influência do governador na rotina e na programação da TV? Ele veta ou escolhe entrevistados do Roda Viva?

Quando convidamos o (Felipe) Santa Cruz, presidente da OAB, para o Roda Viva, o senador Major Olímpio, do PSL, foi às redes sociais dizer que a Cultura estaria a serviço do governador, desancou a TV e Doria. Eu respondi, também pelas redes, que o convite havia sido feito pela apresentadora Daniela Lima, que consultou a direção da casa. O governador jamais pediu para indicar ou vetar alguém.

‘VAMOS ESTAR EM
TODAS AS PLATAFORMAS
ONDE PUDERMOS

É possível que a Cultura chegue a ter algo mais do que traço de audiência ou esse não é o objetivo do canal?
Eu adoraria ter audiência. E já tenho. Está um pouco melhor do que quando cheguei. Fizemos algumas modificações buscando qualidade. É claro que não tenho condições de fazer o investimento que as TVs comerciais fazem na busca de maior público. Já melhoramos de audiência do Roda Viva, que tem novo cenário, nova apresentadora e trilha sonora. Está dando 1 ponto no Ibope. Antes era 0,30 ou 0,50. O Jornal da Cultura está dando 1,5 ponto de audiência.

Como foi a escolha da jornalista Daniela Lima como nova apresentadora do Roda Viva?
Eu entendia que não estava bom do jeito que estava. O cenário era antigo e precisava de reformas. Começamos a fazer um cenário diferente. Trouxemos uma apresentadora que, embora não seja de TV, foi muito bem no teste de câmera, dominou o programa. Os entrevistados que vieram estão na crista da onda. Alguns não aceitaram, como o Bolsonaro. Nesse caso nem resposta tive.

A ideia do governador quando assumiu o governo, segundo se informou na ocasião, era reduzir o custo da emissora para o Estado e ampliar a receita com publicidade. Isso está acontecendo?
Isso me foi dito quando entrei: o Estado não arcará com nenhum tostão a mais do que o valor já destinado ao canal. A ideia era diminuir esse valor aumentando a receita própria. Essa receita é constituída por  publicidade da Lei Rouanet, licenciamento, locação de estúdio, produção de TV para terceiros, a Orquestra Jazz Sinfônica e uma série de outras coisas.

A quanto chega o valor que o canal recebe do governo?
Hoje temos uma proporção mais ou menos 65% vinda do governo e 35% de receita própria. Espero chegar em dois anos a 50% de cada uma.

Ela pode vir a ser lucrativa?
É muito difícil, porque tem muita coisa que ela precisa e deve fazer, e não está preocupada com receita. Por exemplo: as 12 horas de programação infantil diária. Nós sabemos que a torta publicitária tem pouco mais de 1,5% destinado à programação infantil. Temos muito mais que isso no ar. As TVs vêm diminuindo ou tirando do ar a programação infantil porque não dá dinheiro. Aqui não estamos preocupados com a receita, mas com a criança.

No geral, qual é hoje a situação financeira da emissora?
O corte que já fizemos foi de gordura. Tinha mais gente em algumas áreas que necessário. Mas não tem crise nenhuma. A operação está no azul.

Sua equipe tem no horizonte algum projeto de produzir conteúdos para streaming?
A TV Cultura tem que olhar para a frente. Hoje ela tem os seguintes canais: canal 2 aberto, Univesp, Multiprogramação e TV Rá Tim Bum. Esses quatro canais mais as duas emissoras de rádio, um canal de música clássica para streaming on demand e a Orquestra Jazz Sinfônica devem ingressar em uma grande plataforma. Penso em ir para uma plataforma de terceiros. Nessa direção, estamos negociando com três operadoras de streaming sem exclusividade. Vamos estar em todas onde pudermos estar.

Quais novidades o sr. pode adiantar sobre próximas mexidas na programação?
Estamos mexendo nela inteira. Temos hoje mais ou menos 10 programas sendo examinados pelo comitê de conteúdo. Começamos com o futebol feminino, exibindo o quadrangular entre Costa Rica, Chile, Brasil e Argentina – em que o Brasil foi vencido ontem, na final, pelo Chile. O Papo de Mãe começou bem no horário em que está hoje, foi passado para um horário mais cedo e despencou de 4 pontos de audiência para 1. Agora voltou a 3.

E quanto aos programas de maior peso?
O Cartão Verde está sendo modificado, o Metrópolis mudou de horário. O Jornal da Cultura 1° Edição vai ser remodelado. E está em estudo um programa de jornalismo bem de manhã. Espero que a audiência continue subindo. Por fim, temos um projeto importante no mesmo nível do Rá Tim Bum, o Menino do Caixote Azul. Vai ser um produto infantil.

‘O CORTE QUE FIZEMOS
FOI DE GORDURA. A CULTURA
ESTÁ NO AZUL’

A Cultura tem restrições de anúncios. Seria melhor que não tivesse?
Temos restrições no varejo. Eu posso dizer “Compre o carro X”, mas não devo dizer que tal loja está vendendo um ferro elétrico. O Conselho Curador pede para não colocar varejo porque tem muita criança que assiste e não seria adequado à programação cultural, informativa e educacional. Respeito as decisões. Elas serão adotadas até meu último dia aqui na Casa. São só 3 anos.

O que acha da ideia ventilada pelo governo federal de acabar com a Ancine?
Seria um retrocesso acabar com a agência. A Ancine é necessária para a regulação dessa área, que é tão importante no audiovisual.

E quanto à política do governo Bolsonaro em relação à censura de alguns tipos de filmes, como foi o caso de Bruna Surfistinha?
Resumo em uma palavra: lamentável. É outro retrocesso. É uma censura em um País cuja Constituição determina claramente que não se pode censurar. Quem se sentir ofendido tem a lei a seu favor para poder reclamar. Censura nunca mais.

Como avalia a relação que o presidente Jair Bolsonaro estabeleceu com a mídia?
Está bem evidente que nada pode ser dito contra o que o governo pensa ou quer. Quem fizer isso será tido como uma mídia contrária.

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