“Ser político com alma e dedicação é duro”, diz Eduardo Mufarej

“Ser político com alma e dedicação é duro”, diz Eduardo Mufarej

Sonia Racy

27 de maio de 2019 | 00h55

EDUARDO MUFAREJ. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

EDUARDO MUFAREJ. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

O número de interessados em participar da segunda turma do Renova – escola criada por Eduardo Mufarej para ajudar na formação de políticos interessados em disputar cargos públicos – surpreendeu até os diretores da instituição. Fechadas no dia 15 de maio, as inscrições somam 31 mil pretendentes – quase oito vezes mais que no ano passado, quando 4,2 mil pessoas se listaram na primeira experiência do centro de formação. Da primeira leva de alunos, 133 se tornaram candidatos e 17 foram eleitos por meio de partidos diferentes, que eles próprios escolheram.

Na seleção, a escola busca, de acordo com o empresário, identificar aqueles que têm vocação para uma carreira política ética. “Ser político com alma e dedicação é duro, eu digo que é quase um sacerdócio”, afirma. “Nós, no Renova, tentamos entender se essa vocação é para valer”, explica.

Agora, o principal objetivo do Renova é, segundo Mufarej, dar escala maior aos trabalhos da instituição. Por quê? “O País teve, em 2018, uma eleição disputada em 27 unidades da federação. Na próxima, vamos votar em nada menos que 5 mil e 600 municípios aproximadamente.”

Afinal, os interessados pelo processo de seleção são de mais de 1,8 mil cidades. A seguir, trechos da conversa com a coluna.

Nessa eleição de 2020, o que espera?
De agora em diante, o principal objetivo do Renova é escalar. O País teve, em 2018, uma eleição disputada em 27 unidades da federação. Na próxima, vamos votar em nada menos que 5 mil e 600 municípios aproximadamente.

O primeiro processo de seleção foi montado para atender 4,2 mil candidatos. Com 31 mil inscritos, o que vai mudar?
Basicamente, é o mesmo processo. Que no fundo, não é muito diferente de processos de seleção de massa. É só olhar para os programas de trainees nas empresas privadas. As vagas de seleção passam por situações parecidas, muita gente disputando. Decidimos montar filtros de seleção com bastante critério, tem várias provas, a pessoa tem que fazer provas de raciocínio lógico, de posicionamento político, enfim, e a combinação dos resultados dessas provas cria mais ou menos um estratagema de qual que é a nossa persona ideal, qual é o tipo de candidato que a gente pretende lançar.

Vocês estão desenhando esses filtros de seleção?
Temos feito isso desde o ano passado. Definindo um pouco do que é essa persona do candidato que imaginamos. O que é essa pessoa, essencialmente? E se você ver observar isso, olhando, candidato a candidato, que o Renova conseguiu produzir no ano passado, você vai ver coisas em comum. Primeiro, a vontade de servir, pessoas que estão a fim de entrar na política para melhorar a vida dos outros. Não para melhorar a delas.

Tem como detectar este tipo de característica nas entrevistas que vocês promovem?
Temos formas de qualificar. Observamos como a pessoa se posiciona perante dilemas éticos, por exemplo, questões de crenças e posicionamento. E outras mais, de forma que a gente consiga mitigar esse tipo de comportamento. Enfim, detectar as pessoas que estão olhando para a política como uma agenda única e exclusivamente de interesse pessoal. Além disso, temos formas de analisar a história de vida dos que estão se propondo a fazer o curso de seis meses. Acreditamos que a história de vida é importante porque a população no fim do dia quer escolher como representante pessoas que tenham trajetórias merecedoras de atenção e admiração. E, quando a gente olha para o primeiro grupo de eleitos, tendo passado pelos ensinamentos do Renova, encontramos todo tipo de história, muitas delas formidáveis. Com essas histórias vindo a público, acho que, de uma certa forma, elas encorajam mais gente a entrar para fazer política.

O que vocês consideram como história maravilhosa? Qual o critério de avaliação?
Vou listar aqui o que a gente não quer. Não queremos ter conosco, neste processo, pessoas que nunca tiveram nenhuma atividade junto à sociedade. Que nunca entenderam o quanto é importante tentar contribuir na construção de um país. Essa atitude pode ser cuidar do seu prédio, da sua rua, do seu entorno. Aquelas pessoas que nunca olharam para fora, nunca se mexeram para nada, e de repente, decidem: ah, eu quero ser político. A atividade política, ser político com alma e dedicação é duro, tem que ter vocação, eu digo que é quase um sacerdócio. Nós, no Renova, tentamos entender se essa vocação é para valer. Principalmente a política praticada do jeito correto, ética, é essa a política que a gente quer capturar. Quem é que está a fim de abrir mão de horas de seu tempo com a sua família, com os seus parentes, com amigos, para servir o País? É isso.

Na primeira leva, vocês detectaram muitas pessoas com essa vontade? Além das escolhidas?
Muitos. Tanto que a gente tem hoje mais de 50 dos que participaram do processo do Renova e não se candidataram trabalhando em diversos governos, esferas federal, estadual, municipal. Essas pessoas se inscreveram a fim de colaborar. Foram selecionadas para participar do curso e portanto, também tinham essa vocação. Acabaram não disputando as eleições mas têm a vocação.

E os outros 3 mil, que não foram adiante? Sabe dos respectivos destinos?
Vários deles estão inscritos agora nesta próxima etapa do processo seletivo.

O que você acha desse atual modelo de financiamento das campanhas políticas?
A sociedade brasileira precisa debater financiamento de campanha. Não adianta a gente falar não ao financiamento privado, não ao financiamento público… E aí, quem é que vai financiar? A campanha vai continuar custando dinheiro, não tem jeito. Quem vai entrar financiando é o crime organizado, vai ser o dinheiro escuso. Simplesmente porque a política traz poder, poder traz influência… Então, se a gente não acordar para essa discussão, sair do jardim da infância e analisar, discutir qual é o financiamento ideal, não vamos para frente no processo democrático. Quais são os critérios de financiamento público? O País distribui com mais critério, mais transparência, e tal. E esses critérios de distribuição chegam, do maior partido para o menor, mas como o partido distribui os recursos ninguém revela. É dinheiro público sendo alocado da forma como o dirigente partidário deseja e decide. E muitos partidos sequer fazem o trabalho de lição de casa de transparência e de prestação de contas. Então, se vai ser financiamento público, que seja baseado em modelos que existem fora do País. Existem inúmeros modelos que exigem prestação de contas.

E financiamento privado?
Sou a favor de formas de financiamento. Hoje, as formas que existem somam financiamento de pessoas físicas e financiamento público. Acho uma forma adequada, que, de certa maneira, barateia as eleições. Isso quer dizer que o financiamento pessoa jurídica é um erro? Não. A forma como ele foi feito foi um grande erro: concentrou demais, em poucos doadores, o financiamento de grande parte das eleições. Teve empresas que financiaram 200, 300 deputados. O que deveria ser feito é estabelecer um limite. Nenhum grupo econômico poderia, por exemplo, dar mais do que 5% do teto de gasto de uma determinada candidatura. Todos os modelos são imperfeitos, mas é importante que a gente entenda que o financiamento é fundamental.

Então você é a favor de qualquer tipo de financiamento desde que seja absolutamente transparente e específico?
Exato. E mais importante, estimular as pessoas físicas a doarem, porque a gente não tem cultura de doação. Temos que sair desse lugar estereotipado, quando se pensa que, só porque você doou recursos para um candidato, isso quer dizer que você quer alguma coisa em troca. Muitas vezes, e deveria ser todas, você está doando para candidatos nos quais acredita. Isso aí é um importante estímulo à democracia.

Quem ganha bolsa do Renova deve seguir regras durante o mandato, caso eleito?
Sim, deve.

Vão ser mantidas?
As regras eram cumprimento de mandato, transparência, eficiência de gastos e ser proponente de um modelo de participação política com mais representação. Essas eram as contrapartidas. E devem ser mantidas. Principalmente porque o Renova só atende novato, ele não atende quem já tem cargo. O que a gente entende é que se você é um novato, o mínimo que você tem que fazer pela primeira vez em que você foi eleito é cumprir o cargo.

Você foi colega de conselho do Paulo Guedes na Abril Educação. Tem contato com ele?
Desde que o Paulo foi para o governo Bolsonaro, falamos muito pouco.

Acha que ele vem tendo uma boa atuação, tem com condições de tocar essa agenda proposta com sucesso?
O Paulo sempre foi uma pessoa com uma visão de futuro muito bem constituída. Eu tinha um pouco de receio que, por ele ter esse alcance, pudesse faltar sustentação na execução. Mas ele construiu, trouxe um time muito bom para trabalhar com ele e isso me dá bastante segurança. A visão dele somada a uma execução boa do time pode nos proporcionar um caminho muito melhor.

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