“Sentimos falta da loucura e da diversão dela”, diz Alexandre Machado, sobre a mulher, Fernanda Young

“Sentimos falta da loucura e da diversão dela”, diz Alexandre Machado, sobre a mulher, Fernanda Young

Sonia Racy

23 de agosto de 2020 | 00h45

ALEXANDRE MACHADO – ESTEVAM AVELLAR/GLOBO

Para fazer um dos episódios de Amor e Sorte – série que estreia na Globo em setembro – Alexandre Machado usou como premissa um panelaço e as implicações que a intensa polarização política dos dias de hoje traz para a vida de um casal. O seriado reúne quatro duplas de artistas que vivem juntos durante a quarentena e o roteirista escreveu o capítulo estrelado por Taís Araujo e Lázaro Ramos. Este é seu primeiro trabalho depois da morte da mulher, Fernanda Young, ano passado, que continua, conforme suas palavras, criando com ele. “Ela tinha uma maneira de existir que vence a ausência física”. Leia abaixo a entrevista.

Como foi criar com as limitações impostas pela pandemia?
A maior limitação que eu via era fazer uma dramaturgia longa, com duas pessoas dentro de um lugar só. Mas foi um desafio que me animou. A vantagem de trabalhar na televisão também é essa, conseguir driblar as dificuldades. Essa é a graça.

A diminuição do contato com as pessoas te atrapalhou?
Acho que afetou todo mundo. Não é exatamente o ficar em casa ou não, mas o terror, o medo. Um roteirista, normalmente, é um cara com muita empatia, porque se ele não tiver empatia ele não sabe escrever sobre os outros. Só que agora, que o mundo está num momento difícil desses, as sensações gerais são um pouco desanimadoras, é difícil. Mas quem trabalha com televisão, cinema e arte em geral tem um compromisso com o público.

O episódio que você escreveu parte da premissa de um casal que começa a discutir a relação por conta de um panelaço. A polarização política entrou de vez no cotidiano?

Sim. Escolhi um dia de panelaço para mostrar o momento que estamos vivendo e ao mesmo tempo toda sensação também de que nada adianta muito. No começo da pandemia, tinha panelaço todo dia, depois as pessoas vão vendo que aquilo não tem muito sentido. Acho que a pandemia traz essa discussão sobre esgotamento, de limite emocional, A polarização política tá mais polarizada do que nunca. É uma coisa interminável. As pessoas estão em casa querendo dar sua opinião a qualquer custo. Os dois estão ali discutindo com pretexto político mas a conversa é, na verdade, sobre suas angústias, suas ansiedades.

É o seu primeiro trabalho depois da morte da Fernanda. Como foi criar sem ela, tanto no sentido pessoal quanto profissional?

Olha, na verdade eu nem tenho a sensação de estar sem ela. A gente tinha e tem uma relação muito amorosa. Ela está muito presente aqui em casa e na família de todas as maneiras. Tínhamos um projeto pessoal, familiar, profissional e existencial que continua pra mim tão vivo quanto antes. Acho que vai ser pra sempre assim. Lógico que a ausência é dolorida, mas a Fernanda tinha uma maneira de existir que vence essa ausência. Sentimos falta da loucura que ela trazia, da diversão, da visão das coisas, da coragem dela, da busca pelo novo. É estranho explicar, e não tem nada de sobrenatural, mas digo com a maior tranquilidade que continuamos criando juntos.

Você tem quatro filhos. Como está sendo essa convivência na pandemia, sem a escola?
A situação toda é uma loucura, mas a gente se adapta. A nossa família é muito divertida. Confesso que entendo as pessoas que reclamam por estar com crianças pequenas em casa, mas pra mim é o que me dá força. Quando penso em desistir, eles entram no quarto e eu vejo que essa não é uma opção. Claro, tem toda a logística complicada de aula remota e trabalho, mas está sendo harmonioso. Quando aconteceu a coisa da Fernanda, fizemos uma espécie de pacto de que só conseguiríamos sobreviver se estivéssemos muito unidos. Estarmos juntos não é ruim, estarmos juntos é aliviante.
/MARCELA PAES

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