‘Sempre achei que você é tão bom quanto a sua última corrida’

‘Sempre achei que você é tão bom quanto a sua última corrida’

Sonia Racy

18 de novembro de 2013 | 01h00

Em nova fase, Rubens Barrichello fala sobre Stock Car, a vida como comentarista de TV, família unida, o dia em que foi à Disney com Senna e os desmandos da Ferrari.

Rubens Barrichello se considera um cara de sorte – “a despeito do que alguns danados imaginam”, diz, algo irônico. Passou 19 anos ininterruptos na Fórmula 1 (um recorde), correu ao lado de dois dos maiores mitos do esporte (Senna e Schumacher), encerrou a carreira em um GP Brasil, em 2011, e ostenta uma marca quase impossível de ser quebrada: 326 corridas disputadas.

Como detesta monotonia, assim que deu adeus aos companheiros de F1, encarou um ano de Indy (“experiência maravilhosa, para contar aos netos!”). E, em 2013, estreou em dois grids: o da Stock Car, correndo pela equipe Medley, e o da F1, como comentarista da Rede Globo – e tem se mostrado competitivo em ambos. “Gosto do microfone e da câmera e tenho amigos especiais no mundo das corridas”, explica.

Tantos amigos que, nos últimos meses, muito se falou sobre um possível retorno de Barrichello ao cockpit em 2014. Até o fechamento desta edição, contudo, ele permanecia firme na Stock, categoria que lhe dá a chance de continuar acelerando (“é a minha vida”) e um dia a dia mais saudável e ativo junto à mulher, Silvana, e os filhos, Fernando e Eduardo. Ele não disse que tinha sorte?

Entre uma prova e outra, Rubinho toca também o Instituto Barrichello Kanaan, “um sonho antigo”. Missão? Abrir horizontes de crianças, adolescentes, jovens e idosos. Agora baseado no Brasil, depois de quase 20 anos “fora de casa”, ele tem mais tempo para se dedicar aos projetos, o que vem lhe dando tanto prazer quanto acelerar nas pistas do País. “Fui muito ajudado na vida. Não era possível que não conseguisse, em algum momento, ajudar também”.
O piloto conversou com a coluna antes de mais um final de semana de corrida. Aos 41 anos, garante: “Ainda tenho muita velocidade dentro de mim”. Com vocês, em primeiríssimo lugar, Rubens Barrichello.

A Stock Car é o que você imaginava que seria?
Sempre sonhei com a volta ao Brasil. Sabia que, em algum momento, voltaria. E a Stock encaixou muito bem no que eu queria fazer da vida, porque ela é muito competitiva, mas, para baratear, não tem muito treino. Dependo, basicamente, dos meus simuladores, em casa. Ou seja, saio de casa na sexta, para o fim de semana da prova, e domingo, às 5h da tarde, volto para a minha família.

É qualidade de vida?
Principalmente se você levar em conta que eu passei vinte anos fora de casa, né? (risos) Claro que continuo muito ativo, monotonia não é comigo, não. E eu sempre ouvi, de todos os pilotos que pararam de correr, que é preciso ter alguma coisa na vida para preencher o vácuo do automobilismo.

Muita gente acha que você devia ter continuado na F1 ou deveria voltar. Porque ainda teria o que provar. Tem essa sensação?
Não tenho mais nada para provar na F1. Continuo correndo porque amo o esporte. Acho que ainda tenho muita velocidade dentro de mim para ajudar o automobilismo, principalmente o nacional.

Em que aspecto?
A gente consegue produzir tão bons pilotos, mas não consegue ter bons autódromos, boas reuniões, fins de semana unidos, com harmonia. Tem ainda muita guerra interna, um falando mal do outro. Creio que posso ajudar nisso também.

E a vida como comentarista?
Gosto muito da câmera. Participar dos programas ao vivo, por exemplo, me dá uma adrenalina danada, que eu sinto falta. Até porque são milhões de pessoas assistindo. Tenho facilidade em me expressar, e essa experiência como comentarista está sendo excelente.

E o seu dia a dia em casa, mudou muito?
Acordo às 6h30, com as crianças. Posso ter tido um dia difícil, com muitos compromissos contratuais, mas acordo sempre às 6h30 para tomar o café com a minha família. Eu me sinto meio vagabundo se não faço isso, sabe?

Você acorda para dar uma animada na família?
Eu sou o palhaço da casa, isso não tem dúvida. (risos) E essa música que é a família reunida de manhã me faz muito bem. Só depois que eles saem é que vou cuidar da vida. Vou para a academia, correr de kart, participar de reuniões de negócios.

Seus filhos também gostam de velocidade?
Muito, mas o Fernando, o menorzinho, curte mesmo é batalha naval. “G1, água, pegou um pedaço do cruzador!”. Ele adora. O Dudu está correndo de kart, acelerando. Acho que nasci com dois dons: correr e ser pai. Sempre quis ser pai, e ver o Dudu guiando é algo que me emociona demais, porque a velocidade é a minha vida. Meus dois filhos são muito melhores do que eu poderia imaginar.

Seu pai gostou quando seu avô te deu o primeiro kart?
Sempre fui CDF na escola e meu pai controlava. Primeiro os estudos, depois a diversão. O que aconteceu é que ele achava que eu ainda não estava pronto para o kart. Comecei aos 6 anos e quem me levava para a pista eram meus tios. Minha primeira corrida eu fiz sem meu pai saber, só o chamaram quando eu já estava no pódio. Cheguei em terceiro. Aí não deu mais para segurar.

Depois do kart, você foi para a Fórmula Ford. Como foi?
Olha, essa história é a prova de que tenho sorte na vida, a despeito do que alguns danados ainda acham. (risos) Fazia oito anos que eu corria de kart. Meu pai chegou e disse: “Está na hora de ir para a Fórmula Ford. Só que não tenho dinheiro para comprar um carro zero. Você vai ter de correr com um usado”. Respondi que não tinha problema, se a gente não tinha o dinheiro… fazer o quê? Treinei duas vezes com o tal carro em Interlagos. E o antigo dono tinha dado duas porradas com ele, estava meio… meio… sabe carrinho que anda meio caranguejo? (risos) Enfim, adivinha o que aconteceu? A Ford pediu o carro para colocar em exposição no stand da competição na etapa de Foz do Iguaçu. E, no caminho, ele caiu do caminhão. Como o contrato previa que, se acontecesse qualquer coisa, a fábrica teria de me dar um novo, ganhei um zerinho. Viu como eu tenho sorte na vida?

E como foi sair do País pela primeira vez, em 1990, para disputar a Fórmula Opel?
Graças a Deus, naquele momento, eu já tinha um contrato com a Arisco, que me pagava tudo (o contrato é vitalício). Mas foi um momento difícil. Cheguei à Itália um mês antes de treinar com o carro, para aprender o idioma – o que, anos depois, me ajudou na hora de dialogar com a Ferrari, já na F1. Foi complicado, mas, quando entrei no cockpit, percebi que era 100% o que queria pra mim. (Aos 18 anos, Rubens foi campeão da Fórmula Opel em seu ano de estreia, com seis vitórias e sete pole positions)

Seu pai te deu algum conselho quando você saiu do Brasil?
Ah, foi uma frase que me marcou. Ele me puxou pelo ombro, no aeroporto, e disse: “Vá e volte sempre o mesmo”.

E como foi o início na F1? Quais as suas expectativas?
O começo era um sonho, ficava me beliscando, para acreditar que estava mesmo em um carro de Fórmula 1. Para você ter uma ideia da emoção, quando a gente está no cockpit, ainda nos boxes, colocam uma TV na nossa frente, para acompanhar o treino. Eu via o Senna saindo do boxe e ficava repetindo: “Ele vai passar aqui na frente, aqui na frente!” E ele passava, voando. (risos) Aquilo era demais… Ele era meu ídolo. Agora, em termos de resultado, foi um pouco frustrante. Nas duas primeiras provas, o carro quebrou quando eu ia marcar pontos. E na corrida seguinte, em Donington, eu era terceiro, na chuva, ia compor pódio com o Senna, mas a gasolina acabou. Fiquei meio chateado, porque os resultados não estavam vindo. E eu sempre achei que você é tão bom quanto a sua última corrida.

Achou que podia ter ganhado a prova em Donington?
Foi muito engraçada aquela corrida, porque aconteceram vários pit stops, por causa da chuva, e ninguém tinha muita certeza da posição em que estava. Já quase no final, imaginava estar entre os três primeiros. De repente, surge no meu retrovisor o Ayrton. Pensei: “Estou ganhando essa porcaria dessa corrida! Nem o meu ídolo vai passar”. Ele tentava e eu fechava. Foi quando recebi a bandeira azul (para deixar um piloto mais bem colocado ultrapassar). Eu não estava na frente, estava era tomando uma volta do líder. Foi um choque de realidade… (risos)

É verdade que você foi com o Ayrton para a Disney?
Fui. Na Disney de Tóquio. Era a segunda corrida de 1994, meu primeiro pódio. Estava saindo do hotel e dei de cara com o Ayrton. Ele me perguntou para onde eu estava indo. Falei: “Pra Disney!”. E ele: “Que legal, posso ir com você?”. Até parece que eu ia dizer não… Tenho uma foto dele comendo um hambúrguer no parque.Aliás, ele comeu dois. O Ayrton era muito focado, até meio quadradão, por isso aquele momento foi especial e eu guardo a foto até hoje. Duas semanas depois… ele morreu.

Naquele final de semana em Ímola você também se acidentou. O que mudou na sua vida depois daquilo?
Olha, até um ateu convicto teria de concordar que aconteceu alguma coisa do além naquele fim de semana. Duas mortes, meu acidente, o cara do boxe que foi atropelado, havia alguma coisa no ar. Para te falar bem a verdade, não me lembro do que aconteceu. Graças a Deus. Não me lembro do acidente.

Como foi sua chegada à Ferrari. E seu relacionamento com o Michael Schumacher?
Ele era praticamente o “dono” da equipe, né? Não me ajudou, não. Mas eu preferi agir a reclamar. O Schumacher é um cara muito bacana com um copo de vinho na mão. No social é muito diferente do piloto na corrida.

O fato de ser obrigado a entregar provas te irritava?
Tem dia que é nosso e tem dia que não é. A gente precisa aceitar isso. No dia que não é seu, você trabalha para que o próximo dia seja. O dia que é seu, agradeça. Esse sempre foi meu mantra. A Ferrari modificar o destino para que o dia fosse sempre dele me incomodava bastante. Tive muitos momentos de angústia, cheguei a falar para o Schumacher que ele não precisava daquilo. Agora, nos seis anos que passei lá, tive muito mais alegrias do que tristezas.

Às vezes pensa que poderia ter feito algo diferente? Não ter deixado o alemão passar, por exemplo?
Você quer a verdade mais pura? Qualquer um que tivesse ouvido o que eu ouvi pelo rádio naquele momento – mesmo os críticos que batem na mesa – teria agido da mesma forma que eu. Aquilo foi um acontecimento. E que mudou a F1. Hoje, o telespectador ouve as conversas de rádio das equipes, entende mais o que acontece. Se alguém tivesse ouvido o que eu ouvi, juro que entrava pela televisão…

E o que foi que você ouviu? Pode falar?
Não posso, ainda não estou preparado… (risos) Talvez um dia. /DANIEL JAPIASSU

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