Sem o amigo Paulo Gustavo, Samantha Schmütz volta a gravar e opina: ‘governo desastroso’

Sem o amigo Paulo Gustavo, Samantha Schmütz volta a gravar e opina: ‘governo desastroso’

Sonia Racy

09 de agosto de 2021 | 00h30

Samantha Schmütz. Foto: Wilton Jr/Estadão

Acostumada a fazer os outros rirem, Samantha Schmütz aprendeu cedo a separar momentos pessoais tristes do trabalho como atriz. Aos 28 anos perdeu o pai no dia da estreia de uma peça, mas, mesmo assim, se apresentou. Agora, volta às gravações do humorístico Vai Que Cola – programa em que estreou em 2013, junto com o ator Paulo Gustavo, morto em maio deste ano por covid-19. “É muito louco, é muito triste e é muito estranho voltar a gravar porque esse programa foi feito pra ele. Mas lá temos liberdade até de chorar se for o momento”, diz à repórter Marcela Paes.

Ativa nas redes sociais – nos últimos meses ganhou cerca de 600 mil seguidores no Instagram – a niteroiense expõe suas opiniões sem papas na língua. “Viver é político, não se separa o artista do assunto político. Me desconecto de algumas pessoas que não concordam, mas acabo me ligando com gente que tem mais sintonia comigo”. Leia abaixo a entrevista:

Como é fazer humor em um momento tão difícil?

É muito difícil, mas eu tive um grande desafio na minha vida, que foi a morte do meu pai, quando eu tinha 28 anos. Ele sempre foi minha maior inspiração para fazer comédia. Sempre foi uma pessoa engraçada. Eu aprendi a ser artista com a minha mãe, que era bailarina, mas aprendi a ser comediante com o meu pai. Ele morreu no dia da estreia de uma turnê que eu ia começar com a peça Curtas. Eu saí do enterro e fomos todos, os amigos, para o teatro. Tive essa lucidez de saber que se eu conseguisse continuar com a peça naquele dia, eu conseguiria muita coisa. Foi uma espécie de frieza aquariana. Ter seguido com a peça me curou de uma certa forma também, sabe? Me deu uma casca que ajuda em momentos difíceis.

Você voltou com as gravações do humorístico Vai Que Cola, em que estreou com o Paulo Gustavo, que era seu amigo. Como está sendo isso?

É muito louco, é muito triste e é muito estranho voltar a gravar porque esse programa foi feito pra ele. Tem foto dele no cenário… Dá uma mistura de sentimentos muito grande, porque estamos felizes de voltar a estar em cena, mas tem essa tristeza. No Vai Que Cola nós temos muita liberdade também, até de chorar se for o momento.

Você tem algum método para se desligar e entrar no personagem? 

O método é a disciplina mesmo. Tive ótimos professores que me ensinaram que para fazer arte você passou da porta, entrou na sala de aula, os seus problemas têm que acabar. Só tem problema se você morreu, se você não veio. Não tenho essa nem de chegar atrasada. Eu sou muito séria, exigente na profissão. Tenho que ter respeito com a arte e com o público.

Como você tem passado esse período?

No ano passado eu estava nos Estados Unidos. Fui antes do lockdown começar, ia ficar três meses e acabei ficando seis. Eu ia voltar pra lançar o filme Não Vamos Pagar Nada, mas a estreia, claro, foi cancelada. Quando eu vi que a coisa ia apertar mesmo, vi que eu ia ter tempo livre, comecei a treinar triatlo. Eu sou muito amiga da Fernanda Keller, que é campeã de triatlo. Ela é daqui de Niterói e nós já tínhamos uma ligação porque ela treinava com o meu pai, que era professor de educação física. E aí comecei a me dedicar mesmo. Foi algo que me ajudou muito nesse período.

A manter a saúde mental também, não?

Isso com certeza ajudou a minha saúde mental e a minha saúde física. Nesse tempo de doença em que estamos vivendo, nada melhor que cuidar da saúde. Tudo o que eu puder fazer para me fortalecer, eu vou fazer. Eu percebi nesse período que tenho uma base mental forte, porque com tudo eu estou aguentando bem, estou levando. Vou medindo a minha gasolina como um carro, vendo até onde dá pra ir, sabe?

 Muita gente diz que vamos sair melhor disso. Você concorda?

É uma busca de cada um. Eu estou querendo sair melhor em todos os sentidos. Fisicamente, mentalmente, humanamente. Mas não sei. Às vezes me surpreendo positivamente, depois negativamente, e assim vai. Eu tento manter a minha esperança no ser humano.

Como você enxerga a atuação do governo federal na pandemia?

Acho péssima. Ninguém no governo está preocupado em ajudar, solucionar, em resolver o problema. O meu questionamento, para quem segue apoiando o governo, é esse. Eu não quero que ninguém  levante bandeira para nenhum candidato, para esse ou aquele. Mas como as pessoas assistem a isso e não são contra, não lutam por uma gestão melhor? Ainda mais porque o Brasil é um País que é referência em vacinação, nós temos o SUS. Aí a gente vê isso de nem responder e-mail, sabe?

A área da cultura também vive um momento difícil, com corte de verbas, mudanças na Rouanet e na Ancine.

Acho que o que está acontecendo é uma perseguição com os artistas mesmo. Porque sabe-se o poder dos artistas, né? A gente comunica, a gente fala, a gente está aqui para questionar, para apontar certos comportamentos que precisam ser questionados. Dá até uma tristeza no coração. Essa gestão é realmente contra a cultura. Antes das eleições de 2018 eu já estava em passeata para protestar. Eu, Paula Lavigne, Sophie Charlotte, Maria Clara Spinelli, Marina Morena. Até o Ricardo Tisci (estilista italiano da grife Burberry) foi com a gente.

Qual era a sua preocupação naquele momento?

Eu sempre soube que esse governo teria resistência com as minorias como negros, indígenas, LGBTQIA+, que seria desastroso. Até se eu não me preocupasse com isso e fosse egoísta, não teria eleito esse governo, porque também sabia que seria péssimo na cultura.

 Recentemente você cobrou posicionamento de atrizes que foram a Cannes sobre o incêndio na Cinemateca. Acha que falta engajamento em parte da classe artística?

Eu não quis citar ninguém em particular. Falei sobre atrizes, no geral, que fazem isso. Vão para lá sem estar participando de nenhum filme, posam com joias e voltam. Tudo bem fazer esse tipo de trabalho, mas acho absurdo ficar quieto porque quem de fato vive da arte, e não ganha com marcas, está vendo a cultura acabar. Em que país do mundo abandonam uma Cinemateca com uma riqueza dessas, gente? Não que seja errado posar com joias, porque isso faz o business rodar, mas não dá para separar tanto uma coisa da outra. Não dá para dizer que não se sabia o que tinha lá. São anos de história. Não foi um ataque pessoal a ninguém, embora na internet as pessoas queiram ver isso, a briga.

Você costuma se posicionar bastante nas redes sociais. Como encara as críticas?

O que eu mais vejo são ataques, não críticas. São comentários sem base real, calcados no achismo das pessoas que não compreenderam o que eu estou falando. Na verdade, eu não sei se elas querem realmente compreender, entendeu? Não dou atenção. Eu até leio, mas não fico pensando muito. Um outro dia uma menina me xingou num post que eu fiz, fofo, sobre o Paulo Gustavo. Aí eu fui responder pra ela, que tinha dito que minhas lágrimas eram de crocodilo, que minha luta era sincera, que esperava que ela compreendesse. Logo depois, tive uma resposta com outro tom, muito mais educada. Também tem uma coisa das pessoas falarem o que querem porque estão protegidas por um computador, por distância.

Acha que emitir suas opiniões tão abertamente pode prejudicar sua carreira de alguma forma?

Olha, prejudicada eu já estou, porque estou morando no Brasil. Prejudicados nós todos já estamos. Acho que sempre se pode perder e por outro lado, ganhar. Nunca vai estar perfeito. De repente eu posso ter perdido parte do meu público que não gostaria que eu fosse uma pessoa que fala sobre política. Mas viver é político, não se separa o artista do assunto político. O que aconteceu na prática foi que de uns meses para cá eu ganhei cerca de 600 mil seguidores no Instagram. Me desconecto de algumas pessoas que não concordam, mas acabo me ligando com gente que tem mais sintonia comigo.

O isolamento te ajudou artisticamente de alguma forma? 

Sim, porque pude me dedicar mais à minha música. Estou resgatando músicas inéditas de uns 20 anos atrás. Também estou produzindo novas. Estou em um processo de criar um EP com o Tropkillaz.

No começo da pandemia você passou um período nos Estados Unidos e seu marido é americano. Carreira internacional é algo que te interessa?

Tenho planos de me mudar para os Estados Unidos e de estudar atuação, sabe? Fazer alguma escola de musical. Agora, sonho seria fazer uma peça da Broadway. Eu tenho muita vontade de buscar em mim novamente a força do início. Testar as minhas aptidões artísticas em outros lugares onde as pessoas não têm nenhum julgamento comigo, que não me conhecem. É legal para eu ver se consigo conquistar as coisas como normal, assim, à paisana.

 

 

 

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