Sem intervenção

Sonia Racy

17 de maio de 2014 | 01h10

Sem deixar o humor para trás – “quem fica chateado é namorado, homens de negócio não podem se dar a esse luxo” – e tampouco esquecer que “o Brasil é uma terra de oportunidades”, Rubens Ometto Silveira Mello, da Cosan, surpreendeu, anteontem, ao fazer duras críticas, ditas construtivas, à intervenção do governo na economia do Brasil.

No hotel Waldorf Astoria, em Nova York, a uma plateia de quase mil pessoas já sentadas para o tradicional jantar black-tie da premiação Homem do Ano, da Câmara Brasil-EUA, Binho, como é conhecido entre os amigos, não titubeou:

“O País vive, hoje, uma onda de pessimismo, alimentada pela deterioração dos fundamentos da nossa economia, uma percepção de que o Estado quer, senão tomar o espaço do setor privado, pelo menos respirar em seu cangote, direcionando o rumo de vários setores com a mão de ferro da intervenção”.

Com essa frase crítica ao governo Dilma (diga-se de passagem, Ometto não citou o nome da presidente), o vencedor do prêmio pelo lado brasileiro traduziu o que pensa boa parte do PIB nacional – que, por medo de represálias, prefere bater sem expor a identidade, como muitas vezes já registrou esta coluna.

Intervenção 2

E não parou por aí. Depois de contar sua história, que se confunde com a da Cosan, ponderou que o Brasil, com uma infraestrutura minimamente decente, seria como as Ferraris que Sergio Marchionne (também presente, vencedor do prêmio da Câmara pelo lado americano) produz na Itália. E ressalvou: “Para atingirmos essa visão de país, precisamos que o Estado desça dos ombros dos empresários”.

Congelamento de preço da gasolina? “Se, para nós, essa política de preços tem sido ruinosa, para a Petrobrás tem sido fatal.” Ometto classificou-a de “mal planejada”.

Intervenção 3

Como um conto de fadas às avessas, disse Ometto, “o etanol é o príncipe que virou sapo, e esse feitiço só poderá ser quebrado se tivermos uma liderança política que não busque ‘bodes expiatórios’, pense fora da caixa, aceite correr riscos e aposte na nossa criatividade, inovação e vantagens competitivas”.

Lembrou ali também que suas críticas não se aplicam somente ao setor em que a Cosan atua, mas também “às áreas tributária, trabalhista, comercial, financeira e todos os outros setores”.

Intervenção 4

Para marcar ainda mais fortemente sua posição, frisou que os empresários brasileiros, hoje, andam com A Revolta de Atlas, livro para lá de liberal, escrito por Ayn Rand, debaixo do braço, “pedindo que o Estado pelo menos… deixe de atrapalhar”.

Foi aplaudidíssimo, com uma exceção: o único representante do governo no recinto, Luciano Coutinho, do BNDES, vencedor em 2013.

Intervenção 5

Dilma enviou um vídeo, exibido no salão, parabenizando Ometto pelo prêmio.


O empresário agradeceu a presidente antes de começar seu discurso.

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