Sem acordo, Latam pretende demitir

Sem acordo, Latam pretende demitir

Sonia Racy

31 de julho de 2020 | 00h55

JEROME CADIER – FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

A Latam enfrenta especulações dando conta de que a Azul iria comprar a Latam Brasil. O que há de verdade nisso? Jerome Cadier, dirigente da empresa de aviação, faz jus a sua fama de executivo franco ao contra-argumentar: “Com que caixa? Dela? Da Delta ou da Quatar? Que interesse teriam essas duas estrangeiras, no meio de um dos piores momentos da aviação comercial mundial gerado pela pandemia, em tentar comprar algo que não está à venda?”, disse ontem o executivo à coluna, em sua primeira manifestação pública sobre o assunto.

Além disso, lembra Cadier, ‘colocando os pés no chão’, a Azul celebrou essa semana a renegociação de débitos com um de seus fornecedores declarando logo depois que conseguiu fazer o mesmo com todos eles. “Se você renegociou com seus fornecedores é porque está faltando caixa para tocar a operação e aí, alguém acredita que a Azul terá caixa para comprar uma outra operação aérea maior do que a dela?”, pergunta.

Então, é mais fácil a Latam comprar a Azul? “Acho que não, no fundo qualquer compra é pouco viável nesse momento e uma negociação dessa levaria, senão meses, anos”.

A Latam Brasil, como um todo, segundo Cadier, está hoje concentrada em dois aspectos.  O primeiro é o mais delicado: a conclusão de um acordo com o Sindicato Nacional dos Aeronautas. Na segunda-feira desta semana, a proposta de redução salarial da Latam Brasil chegou na assembleia e foi rejeitada por 90% dos presentes. Não satisfez nem o sindicato e nem os tripulantes da própria empresa.

Diferente da GOL e da Azul, a Latam defende corte permanente nos salários. Por quê? A explicação envolve dois aspectos: a Latam não acredita que essa é uma crise é passageira. “Ela é profunda e vai levar de quatro a cinco anos para o mercado voltar e mesmo assim, a indústria terá que passar por uma transformação profunda”.

O segundo aspecto traz surpresa: a Latam hoje paga salários  maiores aos tripulantes na comparação aos pagos pelas concorrentes nacionais. Gol e Azul. “E é o mesmo tripulante. Digo isso porque muitas vezes há confusão, gente dizendo que a Latam opera internacionalmente e que por isso paga mais. Negativo. Fazendo um voo doméstico de mesma duração no mesmo avião eu pago entre 20% e 30% a mais do que meus concorrentes”.

Por quê isso? “Historicamente, a Latam é a mais antiga, paga de outra forma, pago por quilômetro, não pago por hora. A Gol e a Azul nasceram nas últimas duas décadas, então elas já nasceram com uma maneira de pagar muito mais agressiva, muito mais competitiva. Lembro que a TAM tem mais que 40 anos de Brasil”.

Então as regras são diferentes? “Quando cada empresa inicia a sua operação, ela pode, dentro da legislação brasileira, achar uma maneira de remunerar o seu tripulante. Temos os tripulantes mais antigos e operando a mais tempo, eu nunca reduzo o salário. Historicamente, você reajusta pela inflação, etc. Aí entra uma companhia nova, sempre vai ter um diferencial. Tanto a Gol, bem como depois a Azul, começaram a operar no Brasil com salários mais baixos que as empresas antigas”.

Para concorrer no mercado, redefinindo a folha de pagamentos de maneira que ela fique parecida com a de seus dois concorrentes, a Latam Brasil quer tornar permanente o corte salarial. O mesmo porcentual pela Azul e Gol só que este, em ambas as empresas, será temporário.

Foi essa proposta de corte permanente a rejeitada por meio do sindicato. “Nossos colaboradores estão questionando porque é que a gente precisa reduzir o salário permanentemente. Trabalhamos com o fato de que a crise não será passageira, a demanda não vai voltar como era, especialmente a corporativa (as empresas apreenderam que dá para fazer reunião e encontros online).

Cadier defende que a empresa de aviação tem que corrigir a diferença salarial de forma estrutural. “Não acho que o passageiro está disposto a pagar mais pela passagem porque a Latam paga salário maior que o da Azul e o da Gol”.

E se o sindicato não concordar? “Vamos ter que enxugar a Latam Brasil e demitir. A realidade se impõem”.

A segunda questão importante e ainda em aberto, é a financeira. A Latam espera o resultado do processo nos EUA (Chapter 11), o aporte dos acionistas calculado em US$900 milhões – há um fundo americano que também pode entrar – e a ajuda do BNDES.

“Ainda esperamos alguma ajuda do banco mas temos consciência de que, por termos entrado na justiça americana, o molde do empréstimo será diferente dos autorizados para a Gol e a Azul”.

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