‘Ministério ou secretaria, o que importa é a cultura ser eficiente’

Sonia Racy

30 de maio de 2016 | 01h30

PAULO GIANDALIA/ESTADÃO

PAULO GIANDALIA/ESTADÃO

Para Alexandre Borges, o vilão de Haja Coração,

nova novela da Globo, a cultura não depende de ministério,

mas precisa de estímulo, de atenção à diversidade

e de mais ações fora do eixo São Paulo-Rio

Aos 50 anos de idade, 31 de carreira, Alexandre Borges garante que lida bem com sua fama de galã. Tido como um dos atores mais charmosos de sua geração, ele explica: “Essa fama pegou pelos meus papéis com estereótipos latinos, brasileiros. Uma malícia. Não me incomoda, não”. Para comemorar a boa fase, ele estreia hoje na Globo a novela Haja Coração, uma releitura de Sassaricando.

Seu papel, como o golpista Aparício Varela, promete boa repercussão entre o público. Na trama original, quem deu vida a Aparício foi um ícone do teatro brasileiro, Paulo Autran. Divertindo-se antecipadamente com a experiência, ele avisa, na conversa por telefone com a repórter Sofia Patsch, qual é o bordão desse personagem: “O homem tem duas chances de ficar rico na vida. Uma quando nasce e outra quando casa”.

Ele se diverte menos, no entanto, quando o assunto muda para a situação política do País –aí, ele diz sentir-se “meio pasmo” com tudo o que está acontecendo. “Não temos controle de quanto somos manipulados, de como as informações não chegam até nós. A verdade é que muita coisa ainda vai acontecer, vamos ver os próximos dias”. Como tantos colegas, surpreendeu-se também com o que ocorreu com o Ministério da Cultura, primeiro fechado e depois reaberto pelo governo. “Tinha achado um retrocesso (o fechamento), claro. Mas se for pensar friamente, a cultura não iria ter menos importância por não ter um ministério. Seja ministério, seja secretaria, o que importa é a cultura ser eficiente”. Confira a seguir os melhores momentos da conversa.

Como artista, como vê a decisão de fechar e reabrir o Ministério da Cultura pelo governo Michel Temer?
Tinha achado um retrocesso, claro. Mas, se formos pensar friamente, a cultura não vai ter menos importância para quem é esclarecido, para quem gosta, quem consome, quem faz, só por não ter um ministério. Mas esse ministério, agora, tem que ser representativo. O que importa é produzir, estimular o fomento, garantir o orçamento. Ajudar outros Estados que não sejam os polos Rio e São Paulo, pensar na diversidade que o Brasil tem. São tantas culturas ao mesmo tempo… Seja ministério, seja secretaria, o que importa é a cultura ser eficiente.

O que achou do protesto dos atores do filme Aquarius, que afirmaram em Cannes que o País sofreu um golpe?
Acho que cada um tem o direito de se expressar como quiser. Apoio a democracia, a liberdade de expressão. Achei válido. A vida é deles.

Mas você concorda com a tese de que houve um golpe no País?
São tantas interpretações. Fico meio pasmo com isso. Parece aquela coisa de pênalti, a torcida a favor acha que é e a contrária acha que não. Não temos controle sobre o quanto somos manipulados, o quanto as informações não chegam até nós. A verdade é que muita coisa ainda vai acontecer, vamos ver os próximo dias.

A novela Haja Coração é uma releitura de Sassaricando — na qual seu personagem, Aparício Varela, foi interpretado por Paula Autran. Inspirou-se nele para compor o personagem?
Me lembro pouco do Paulo Autran como Aparício, mas me lembro de que ele era muito engraçado. O trabalho do Paulo sempre chamou a atenção, era raro ele fazer TV, um ator daquela grandeza.

Está feliz em viver um papel que já foi interpretado por ele?
Com certeza, o Paulo foi um dos nossos atores mais importantes. É bom compartilhar personagens, textos, situações que esses grandes nomes viveram. Pra mim é um privilégio, uma honra, acho que faz parte da profissão.

E como vai ser essa nova versão da novela?
O Daniel Ortiz está fazendo outra, com personagens novos, textos atualizados. O Aparício será contemporâneo. Ele é um homem frustrado, porque jogou seus sonhos de adolescência para debaixo do tapete para se casar com Teodora.

E deu o golpe do baú nela…
O bordão dele é: o homem tem duas chances de ficar rico na vida, uma quando nasce e outra quando casa (risos). Como ele não teve a primeira, resolveu aproveitar a segunda. E isso deixou nele uma frustração muito grande.

Está gostando do personagem?
Muito. Apesar de ser uma comédia, é um personagem completamente diverso, que me faz ir pra áreas da criação em que eu não estava circulando.

Gosta de fazer comédias?
O gênero tem uma influência muito grande na minha carreira. Nasci em 1966, tenho 50 anos. Então, passei minha infância e adolescência vendo muita TV, eram os tempos áureos da televisão. Dos gênios da comédia, Oscarito, Grande Otelo, Chico Anysio, Jô Soares, tenho muita influência deles no meu trabalho.

Aos 50, como tem encarado essa passagem dos anos?
Acho que primeiro você lida com esse passar do tempo ainda com motivação, esperança, com tesão, pique, com querer fazer alguma coisa legal, pôr em xeque várias coisas e realizar amores, família, filhos, sei lá. Acho que essa disposição muda muito pouco com a idade. Sempre acordamos para ir em busca de algo novo. Mas com a idade você acorda com a coluna mais quebrada (risos).

A fama de galã o incomodou em algum momento da carreira?
Não. Essa fama pegou pelos meus papéis com o estereótipo do galã latino, brasileiro. Uma malícia. Uma certa malandragenzinha, né? Mas isso não me incomoda, não.

Além da novela, tem alguma peça nova a caminho?
Acabei de fazer uma peça no Cemitério de Automóveis, com Mario Bortolotto, que foi sensacional. Ele é um cara que eu admiro muito, gosto dos textos dele. Mas não estou com peça nova, só a novela.

Muitos atores conseguem fazer novela e teatro ao mesmo tempo. Você é um deles?
Junto fica mais complicado, principalmente no começo, em que é tudo muito intenso. Prefiro fazer uma coisa só.

Você atua no teatro, cinema e televisão. Se sente mais à vontade em algum deles?
Não, acho que cada personagem me dá uma oportunidade de descobrir coisas novas de mim mesmo, do meu ofício. Não sabemos o que está por vir, e isso é uma das coisas maravilhosas da minha profissão, o acaso.

Quando você era casado com a Julia Lemmertz, vocês atuavam muito juntos, inclusive como marido e mulher. Era um pedido especial?
Não, era uma coincidência, vamos dizer assim. Nos conhecemos através de um trabalho. A Julia foi me assistir em Hamlet, ainda na fase de ensaios. A atriz que ia atuar comigo saiu, ai o (diretor) Zé Celso (Correia) convidou a Julia pra fazer a peça comigo. Daí começamos a receber convites. O Arnaldo Jabor nos convidou para fazer Eu Sei Que Vou Te Amar. Depois veio o filme Um Copo de Cólera, do Aluizio Abranches, lembrado até hoje.

Achava melhor contracenar com Julia do que com outras?
Ah, eu sempre fui muito admirador da Julia. Ela começou muito nova, aí tem essa coisa da Lilian também, você fala, pô, elas são mãe e filha, tal. Quando conheci a Julia ela já era uma pessoa que eu admirava, ainda mais que era da minha geração. Enfim, contracenar com a Julia sempre foi um estímulo muito grande para mim, uma responsabilidade prazerosa. Adoro essa geração de mulheres, a Malu Mader, Débora Bloch, Fernanda Torres, a Julia, atrizes que começaram muito novas, geralmente filhas de atores, mas que tiveram carreira de sucesso e completamente independentes.