‘Sei bem o que meu filho vai sentir na OIimpíada. E não quero interferir’

‘Sei bem o que meu filho vai sentir na OIimpíada. E não quero interferir’

Sonia Racy

08 Agosto 2016 | 00h35

FOTO ESTEVAM AVELLAR/GLOBO

FOTO ESTEVAM AVELLAR/GLOBO

Prata em Atlanta, Hortência, a maior cestinha do basquete feminino do País,
conta como é ser mãe de um atleta
e dá a receita: “Não basta o DNA.
Você nasce com um dom e o aprimora’

Hortência está vivendo, nesta Olimpíada, sensações inusitadas. Já curtiu, na abertura de sexta-feira, a missão de receber a tocha de Guga, diante de um Maracanã lotado e feliz, e levá-la até o maratonista Wanderlei Cordeiro, no “grand finale” do evento. Agora, viverá outro desafio – como mãe de atleta. Seu filho mais velho, João Victor Marcari Oliva, está competindo no hipismo, na modalidade adestramento por equipes. Sobre essa troca de papéis, a medalhista olímpica se diz tranquila: “Já vivi essa relação com meus pais e sei até que ponto um pai e uma mãe podem atrapalhar a carreira de um atleta”. E é por ter aprendido isso que ela prefere não interferir muito na carreira do filho. “Prefiro nem conhecer profundamente a modalidade para não sofrer e também não cobrar muito dele”. Destaque na galeria dos grandes ídolos do basquete brasileiro, e a maior cestinha da história da seleção feminina, Hortência se cobrava muito quando era atleta. “Queria ser a melhor. Sou muito competitiva”, contou à repórter Sofia Patsch, durante almoço em um restaurante do Itaim.

Se o esporte está no DNA da família Marcari Oliva, as noitadas também estão. Seu filho caçula, Antonio, também monta, mas é nas carrapetas que ele se sente em casa. “O Antonio tem o esporte no DNA, porque ele é bom, só que tem também o DNA festeiro do pai, que sempre viveu na noite. Então, ele é DJ”. Como comentarista da Globo, ela se diz otimista com a Olimpíada. “Acho que vai ser um sucesso. Não sei em relação à equipe brasileira, mas estou botando bastante fé”. Sobre as modalidades em que o País pode faturar alguma medalha, ela cita o basquete masculino.

Hortência é uma mulher de opiniões fortes. Nos anos 1980 ela quebrou paradigmas ao ser a primeira atleta a posar nua para uma revista. “Tive três motivos para aceitar o convite, um deles foi para quebrar um tabu da época, de que mulher com corpo musculoso era sinônimo de mulher macho”. Já hoje, a ex-jogadora considera que tudo mudou e as mulheres podem ter o corpo que quiserem. “A mulher está deixando de ser submissa para sair para o mundo. Só que esse processo leva um determinado tempo para se igualar”. A seguir, os melhores momentos da entrevista.

Seu filho mais velho, João Victor Oliva, vai competir no hipismo, na modalidade adestramento em equipe. Como encara essa troca de papéis?

Acho que estou encarando de uma maneira muito tranquila, porque já vivi tudo isso. Experimentei essa relação com meus pais e sei até que ponto um pai ou uma mãe pode atrapalhar a carreira de um atleta.

Seus pais atrapalharam sua carreira esportiva?
Meus pais nunca me atrapalharam – eles sempre me acompanharam de longe. Mas vi muitos pais de amigas e amigos atrapalhar, e muito, a ponto de eles ficarem no meio do caminho por pressão dos pais, por uma estratégia diferente, enfim. Então procuro não interferir muito. Fico orgulhosa? Claro. E fico feliz por saber o que o meu filho vai sentir quando entrar em uma Olimpíada.

Você guarda na memória como viveu a situação, no passado.
Exatamente. E não vejo a hora de ele sentir essa emoção. Ele vai pirar. A emoção de entrar em uma vila olímpica, ver tudo aquilo, aquele deslumbramento. É muito legal. Então já sabendo disso preparei uma minipalestra para ele, de ex-atleta para atleta, não de mãe para filho, alertei sobre tudo de bom e de ruim que ele pode encontrar nessa disputa.

Consegue separar o papel de mãe nessa hora?
Sim, acho muito importante, para não prejudicá-lo. Inclusive, prefiro não conhecer profundamente a modalidade que ele pratica, para não sofrer e também não ficar cobrando.

Você se cobrava muito?
Muito. Sou muito detalhista.

Vê muitas características suas nas atitudes esportivas dele?
Muitas! Ele é muito parecido comigo. E eu gostaria que ele fosse perfeccionista… Falo muito para ele sobre ser detalhista. Não interfiro na parte técnica e tática, mesmo porque quem interfere nisso é o técnico dele, mas posso ajudá-lo com o entorno. Sei as pressões que ele vai passar, a cobrança, os medos, os anseios, as expectativas.

Porque ele escolheu o hipismo e não o basquete?
Porque o pai tem haras e ele cresceu no lombo de um cavalo. Acho bom isso, imagine a cobrança que ele ia sofrer se tivesse escolhido jogar basquete.

Você sempre incentivou seus filhos a seguirem carreira nos esportes? O seu filho caçula, Antonio, também monta, não?
Sempre utilizei o esporte como ferramenta para me ajudar a educar meus filhos. Como você vai ensinar seu filho a ganhar? Como ensiná-lo também a perder? Eu ensinava o João Vitor e o Antonio desde pequenos nas cartas, deixava eles ganharem uma partida e depois fazia perderem umas três, quatro, e eles ficavam bravos… Aí eu deixava ganhar de novo. O esporte ensina muita coisa.

Ser atleta está no DNA?
Acho que você nasce com um determinado dom e depois aprimora esse dom. Não basta apenas ter o DNA. O Antonio, meu caçula, tem o esporte no DNA, porque ele é bom, só que ele também herdou o DNA festeiro do pai, que sempre viveu na noite, teve boate, restaurante. Então, ele é DJ.

Como era a relação de uma atleta profissional com o rei da noite paulistana?
Quando você sabe o que quer, nada vai tirá-la do caminho. Imagine eu, com 29 anos casando com o rei na noite, que só vivia em festas, baladas, badalações. E os meus maiores títulos conquistei depois de casada. Nada me tirou o foco, nem o marido na noitada.

Está otimista com relação à Olimpíada do Rio?
Estou! Acho que vai ser um sucesso. Não sei em relação à equipe brasileira, mas estou botando bastante fé.

Em que modalidades você acha que o Brasil tem chances de ganhar?
No futebol feminino e masculino, vôlei masculino e feminino. Atletismo, a Fabiana Murer tem chance, na ginástica o Zanetti tem chance, o Diego Hypólito correndo por fora. No iatismo, vela tem chance com a família Grael. Vôlei de praia sempre tem. Tênis é difícil. A seleção masculina de basquete tem chance.

Porque os americanos e chineses acabam levando sempre a melhor na competição?
Os americanos porque focam muito no ensino, né? O esporte na escola, coisa que falta em nosso País. Nossa aula de educação física não é nada estimulante, o professor de educação física não tem nenhum incentivo, aliás nenhum professor. As crianças não respeitam seus mestres. Você vê a tocha olímpica, não é uma simples tocha, aquele fogo tem um significado muito grande. Ali você está carregando os valores olímpicos: respeito, admiração, garra, luta, determinação, sacrifício, suor, tudo isso que um atleta tem de conhecer e praticar.

Que legado a Olimpíada pode deixar para o País?
Existe uma coisa chamada comprometimento. Se eu vestir a camisa do meu País, tenho que respeitar o que estou vestindo, respeitar essas cores e essa marca chamada Brasil. Não gosto, inclusive, que o meu filho amarre a jaqueta da seleção brasileira no bumbum. Acho uma falta de respeito. Aquilo é a sua bandeira, entende?

Você já declarou que, independentemente do esporte, o que mais a motivava era a competição. Vê isso como uma característica dos atletas em geral?
Existem atletas e atletas. Tem atleta que só pelo fato de estar em uma Olimpíada já se dá por satisfeito. E tem o atleta que quer ganhar.

E você queria ganhar.
Eu queria ser a melhor. Sou muito competitiva e gosto de estar do lado de pessoas que também são.

O exame antidoping ainda gera muitas polêmicas, como a recente exclusão dos atletas da Rússia. Acha que é responsabilidade do atleta estar informado das substâncias que pode consumir?
A falta de orientação, de informação é muito grande. Por exemplo, meu filho estava com febre lá na Alemanha e me ligou. Fiquei com o meu coração apertado porque não podia falar para ele tomar nada. E aí? Vai morrer de febre? O atleta é atleta o tempo todo. A qualquer momento um cara pode aparecer na casa dele e colher sua urina. E sim, acho que você é responsável pelo o que coloca para dentro.

As atletas sofrem discriminação perante os atletas até hoje? O que mudou da sua época para cá?
Olha, não acho que é a mulher atleta. É a mulher em geral. Sinto que a mulher abriu as portas do mundo. Ela resolveu parar de ser aquela mulher submissa, que ficava em casa cuidando dos filhos, para sair para o mundo. Só que leva um determinado tempo para isso se igualar. Hoje na Olimpíada, principalmente no time do Brasil, considero que está bem equilibrado, é 50-50. Na minha época, houve três motivos que me fizeram posar nua. O primeiro foi o dinheiro, que foi muito bacana na época; o segundo foi o desafio de ser a primeira atleta a posar para uma revista masculina e o terceiro foi porque naquela época ter um corpo musculoso era sinônimo de mulher macho, que não gostava de homem, e eu quis quebrar esse tabu. Hoje em dia toda a mulher quer malhar para ficar com o corpo durinho, musculoso. A mulher hoje se liberou e cada uma é o que quer ser.

Você sofreu muito assédio na época que jogava?
Olha, sou uma pessoa muito clara, se você me assediar finjo que não entendi. Dou uma de louca. Claro que já fui assediada, toda mulher já foi assediada, mas não me atingiu, não me deixou mal, não me traumatizou absolutamente nada, porque é aquilo que eu te falei: uma pessoa para chegar num determinado patamar no qual eu cheguei não pode ser fraca.

Foi difícil abandonar a carreira de atleta?
Me considero uma pessoa privilegiada. Porque assim, imagina o que é para um atleta se despedir. No auge da sua carreira você tem que parar porque seu corpo não aguenta mais. No meu caso, parei para viver outro sonho, tão importante quanto competir, que era o de ser mãe. Então uma coisa compensou a outra.

O que herdou dos seus tempos de atleta?
Faço ginástica todo dia.

Sente dores daquela época?
Muitas, na lombar, tem determinados exercícios que eu não posso fazer porque pega minha coluna. Não posso correr na rua que trava a minha panturrilha. Mas eu vou adaptando e não paro.

Você virou empresária, agora é comentarista da Globo, dá palestras motivacionais. Que conselhos você pode dar para os atletas se aposentarem sem depressão?
Você não pode deixar para pensar no que quer fazer quando já está no fim da carreira. Essa transição tem que ser feita antes de parar. Hoje tem a internet, que na minha época não tinha, facilita muito, há um tempo atrás fiz um curso online do Comitê Olímpico Brasileiro, que é do COI chamado CAGE: Curso Avançado de Gestão Esportiva.

Depois de se despedir nunca mais pisou nas quadras?
Não. Só piso numa quadra quando tenho que fazer uma matéria. Mas jogar, treinar? Não, nem pensar.