‘Se nem Jesus nem Buda agradaram todo mundo, vou eu querer agradar?’

‘Se nem Jesus nem Buda agradaram todo mundo, vou eu querer agradar?’

Sonia Racy

12 de agosto de 2013 | 01h00

Foto: Denise Andrade/Estadão

A cantora se despede do Brasil, já com data de volta: setembro, para se apresentar no Rock in Rio. Em fase mais falante, revela: “Quando era criança, queria ser homem”.

Mallu Magalhães se mudou para Portugal. Ela e Marcelo Camelo estão morando, há uma semana, em Lisboa. “Estávamos afim de trocar de ares, mas não queria ser muito radical”. Lá, ela pretende levar uma vida parecida com a que levava no Brasil – em que tinha Bilhete Único, andava de metrô, passeava de bicicleta e abominava o celular. Na bagagem, também levou a vontade de continuar correndo, meditando e fazendo balé.

A viagem para a capital lusitana foi tranquila. Bem diferente da que fez há 15 dias do Rio a São Paulo, onde veio tocar no Maní e conversar com a coluna. A cantora desmaiou em pleno saguão do aeroporto Santos Dumont, depois de ficar um dia inteiro esperando – por causa do mau tempo – o voo para a capital paulista. “Tenho uma síndrome que me faz desmaiar em situações de estresse.” Foi a primeira vez que ela falou sobre a doença – conhecida como Síndrome do Vaso Vagal – que afeta seu sistema circulatório, mas que não a impede de levar uma vida normal. Com alguns ajustes, é claro: “Ando com meias compressoras e uma plaquinha pendurada na corrente do meu pescoço com o endereço e o telefone de casa”.

Em meio à mudança de vida, Mallu acompanha – mesmo que à distância – a finalização do filme Tim Maia, no qual interpreta Nara Leão, sua estreia como atriz. “Só aceitei o papel porque não falo nada, só canto”, brinca. O longa chega às telonas em 2014. Ate lá, a cantora, que faz 21 anos no final do mês, está com a agenda cheia. É uma das atrações do Rock in Rio e também se prepara para a turnê de Pitanga, seu terceiro álbum, nos Estados Unidos. E não são as únicas novidades. Sempre reservada, ela agora quer mais exposição. “Tinha medo e insegurança. Hoje, quero mais é falar.” Com a palavra, pois, Mallu Magalhães.

Por que vocês decidiram ir para Portugal?

Ah, deu uma vontade de mudar…

De ares?

O Marcelo tem família lá e já íamos muito para Portugal fazer shows. É um país legal para viver, é parecido com o Brasil em alguns aspectos. Não queria ser muito radical na mudança.

O quanto o Marcelo Camelo mudou a sua vida?

Mudou muito. Naturalmente, como meu marido, ele muda muito a minha vida. Esteve ao meu lado nos meus piores e melhores momentos. E espero que fiquemos assim até velhinhos, né? A gente se ama muito.

E na sua carreira? Ele influenciou?

Influenciou muito, também. Muita gente fala: “Nossa, Mallu, depois que você começou a namorar o Marcelo, está diferente”. Acho um ótimo sinal. É sinal de que realmente existe um relacionamento.

Uma troca…

É. Existe uma mistura. Ninguém vive sozinho, ninguém é uma ilha. Não gosto de cultivar o egoísmo e me misturo muito com o Marcelo. Nos princípios que realmente importam, somos iguais. Ou complementares. Ou perfeitamente opostos (risos). Mas, é claro, temos muitas opiniões divergentes também. Estamos em momentos diferentes da carreira. Ele tem uma carreira que já foi estabelecida, já é um grande artista. Eu não. Ainda estou construindo meu espaço. Ele pode se dar o direito de ser reservado, porque sua produção e sua presença já são grandes. Não há tanta necessidade de exposição. No meu caso, não. Ainda preciso dela.

A diferença de idade entre vocês atrapalha?

Não. Acho que super complementa. Tenho uma inocência e uma loucura muito jovem, de uma pessoa que quer aceitar tudo, quer tentar tudo. E ele me passa a experiência de uma pessoa de 35 anos.

Pensam em ter filhos?

Quero ter muitos. Mas desisti de ter agora. Achava que ia ter com 20 e poucos anos. Mas agora acho melhor esperar até mais perto dos 30.

Você vai fazer 21 anos no fim do mês, mas parece mais madura.

Tive, muito cedo, experiências com coisas que as pessoas só vivem quando são mais velhas. Como sustentar uma casa, um casamento, uma carreira… e com questões existenciais também. Posso dizer que sempre fui uma criança com questões de uma velhinha. Mas ainda sou muito imatura em relação ao meu diálogo pessoal.

Como assim?

Sou muito ruim de argumentar, por exemplo. Se o cara do guichê do aeroporto fala “seu voo foi cancelado”, tenho muita dificuldade de debater, de encontrar uma solução. Só me dá vontade de chorar.

É por isso que você se mantém mais reservada?

As pessoas acham que sou esnobe! (risos)

Tem até uma fama de não gostar de falar muito.

Exatamente. Estava até conversando com o meu empresário um dia desses. Precisamos dar algum jeito, preciso ir mais para a televisão, preciso falar com as pessoas.

Para tirar a fama de esnobe?

E para construir a fama certa. Para atingir pessoas que não viriam até a minha música. Sinto que estou num momento diferente. Quero mostrar: eu falo, galera! (risos)

Foi difícil, para você, ficar famosa muito cedo?

Depende muito da relação que você tem com a fama. Para mim, a fama não existe.

Pode-se dizer que é a sua maneira de se proteger?

Eu me sentia hiperexposta no começo da carreira. A diferença, agora, é que quero me expor. Antes, tinha medo, ficava até assustada. Lembro-me daquelas minhas clássicas aparições – terríveis – na internet. Parecia que eu tinha tomado alguma coisa muito louca. Não falava lé com cré na televisão. E por quê? Porque não estava entendendo nada do que estava acontecendo. Queria me divertir, mas não tinha a menor compreensão, não tinha o menor preparo, não tinha ambição de fazer daquilo a minha vida. Não pensei: “Ah, quero ser famosa, aparecer na televisão”. Não! Naquela época, eu gostava mesmo era de comer doce, tomar milk-shake, brincar de Lego. Tocava por acaso, entende?

A música mudou muito a sua adolescência?

A música foi uma salvação. Não vejo outra possibilidade de realização na minha vida – apesar de achar que a realização é algo tão egoísta…

Egoísta em que sentido?

É estranho realizar algo para si mesmo sendo que no mundo tem tantas pessoas precisando de ajuda, da minha ajuda…

Você estourou no YouTube muito jovem, com 15 anos. Nunca teve vontade de fazer faculdade?

Tive de fazer uma escolha, não houve jeito. Acho que qualquer adolescente de 15 anos ia preferir a opção de cantar e viajar pelo mundo ganhando uma graninha com seus amigos e fazendo o que gosta. Quem que vai querer estudar nessas condições? Não sou louca, né? Fui uma adolescente normal. Achava a minha vida muito mais legal do que a de quem estava na escola.

E como ficou a escola?

Quando comecei a cantar, a escola foi ladeira abaixo. Fiquei pingando de colégio em colégio, comecei a estudar à distância e terminei o colegial pelo correio. Mas, sinceramente, não me lembro de nada.

Sente que foi irresponsável?

Sempre fui uma pessoa normal. Nunca me envolvi com drogas, por exemplo. E acho isso superimportante, porque com droga a gente não tem controle. Meu negócio sempre foi me divertir, essa é que é a verdade. Gosto de ver as pessoas felizes, gosto da felicidade. Acho a tristeza um tremendo saco. Claro que tenho os meus momentos de fossa, de depressão, mas quero sair logo deles. Acho até que é por isso que esses momentos se tornam tão intensos.

E como sai deles?

Acredito no equilíbrio. Se tem um ponto no meio da linha da vida é porque existem dois extremos equidistantes e proporcionais. Quando você vai muito fundo na tristeza, pode também ir muito longe na euforia. E isso não é bom.

Você vai estrear como atriz encarando o papel da Nara Leão no cinema. Como é isso?

Só foi possível porque o papel se resumia à única coisa que acho que me garanto: cantar (risos). Atuar é mais desafiador. Já havia surgido outros convites e sempre neguei logo de cara. Justamente por ser algo que eu simplesmente não sei fazer.

O que foi mais difícil de trazer da Nara Leão?

A personalidade da Nara é extremamente diversa. Ela era muito engajada em questões sociais e humanas, foi porta-voz de muitas causas. Era uma mulher muito forte e, ao mesmo tempo, delicada. Adoro a voz dela. É precisa e, ao mesmo tempo, tem muita emoção. É uma fusão admirável.

Você também se emociona quando canta?

Muito. Sou muito emotiva. Estou tentando profissionalizar minha emoção. Tenho necessidade de expressar o que sinto. Quando era criança, me expressava com violência. Batia nos colegas, brigava com os professores. Com o passar dos anos, percebi que era uma pessoa de paz, mas que precisava extravasar minhas emoções. Acabei encontrando isso na música.

E o que a Nara te trouxe?

Acho que ela me fez ver que eu podia ser mulher e forte ao mesmo tempo. Quando era criança, queria ser homem. Achava que coisa de mulher não valia a pena, ficar penteando cabelo, vestindo saia. Queria ser o Mogli. Minha mãe fazia eu comer espinafre, porque falava que o Batman comia. Talvez… Mas o que eu gostava era da liberdade que a nossa cultura dá para os homens. Eles são vistos sempre como fortes, felizes, vigorosos. Mas, hoje, simplesmente amo ser mulher.

No palco, você se solta e fica até sensual. A sensualidade está no seu dia a dia?

Essa pergunta deve ser feita para o Marcelo. Mas acredito que sou, acho que está funcionando. (risos)

Como é a sua relação com o seu corpo?

No início da minha carreira, quando comecei a ganhar algum dinheiro, eu me descuidei muito: chegava a jantar cheetos e comer bala na sobremesa… Já no começo da minha vida adulta, passei a viajar bastante e acabava esquecendo de comer. Perdi muito peso, mas não me preocupava com isso. As pessoas falavam: “Nossa, como você está linda, magérrima!”. Pensava que estava tudo bem, até que vieram os problemas de saúde e tive de começar a me alimentar melhor.

E hoje?

Hoje posso dizer que sei apreciar um bom prato.

Como lida com a fé?

Sou um pouquinho de cada coisa. O Robert Anton Wilson é um grande ídolo religioso para mim. Gosto muito do Buda, gosto muito de Jesus. E gosto muito também do Elvis. /SOFIA PATSCH

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