“Se imposto sobre livro for aprovado, o mercado livreiro será quase extinto”, diz Marcus Telles

“Se imposto sobre livro for aprovado, o mercado livreiro será quase extinto”, diz Marcus Telles

Sonia Racy

03 de setembro de 2020 | 00h46

MARCUS TELLES – FOTO: DIVULGAÇÃO

Marcus Telles, sócio da rede de livrarias Leitura e um dos diretores da Câmara Brasileira do Livro, segurou bem “as pontas” de seu negócio durante a pandemia. Teve que dispensar 10% de sua equipe de 1800 funcionários mas espera recontratá-los após a normalização da situação. Com 73 lojas reabertas, avisa que pretende abrir ainda outras seis até o fim do ano. Mesmo com as livrarias funcionando, o empresário teme pela sobrevivência de grande parte do setor livreiro. Por quê? Pela possível aprovação de taxação de 12% sobre livro – previsto no projeto da reforma tributária. Abaixo, a entrevista com Telles.

Quais as consequências do imposto de 12% para o setor?
Hoje uma livraria com resultados acima da média consegue lucro entre 4% e 4,5% do preço. Mas a boa parte delas já traz problemas de venda mesmo antes da pandemia. Se o imposto for adotado, o custo do livro tende a subir. Pelo cálculo de editoras, ele pode aumentar em até 20%. É um impacto enorme e a gente não acredita que o Congresso esteja enxergando isso. Quem deliberadamente iria querer quase acabar com o ramo, né? Se isso for aprovado, o mercado livreiro será quase extinto. Não é à toa que muitos países isentam o livro de cobrança de impostos.

Qual seria o retorno do governo federal com a taxação, seria significativo?
Não. Acredito que faltou fazer um estudo do impacto por o setor ser muito pequeno. Grande parte do que o mercado editorial vende – cerca de 30% – é para o próprio governo federal. Faz parte do sistema de compras do Programa Nacional do Livro Didático que distribui obras gratuitamente para alunos. Portanto, esta arrecadação será perdida porque ela é paga, indiretamente, pelo próprio governo. Outros 18% do total de livros vendidos são obras religiosas. Muitas vezes, para a população mais humilde, a Bíblia é um dos únicos livros com que essas pessoas têm contato. O que significa que também serão prejudicadas com o aumento do preço.

Livreiros reclamam da dificuldade de competir com gigantes internacionais da venda online. O imposto vai piorar a atual situação?
Sim. Muitas dessas grandes plataformas não pagam impostos lá fora. Compram livro com preço de custo, acrescentam uns R$ 3 no valor e dão frete grátis. Tornam a concorrência desleal, é quase um dumping.

O que acha da atual e forte campanha contra a taxação?
Praticamente todas editoras, autores e artistas entraram nisso. Na Câmara e Senado, deputados e senadores demonstraram estar com a gente, temos apoio. É um ramo essencial para a sociedade. Afinal, não estamos falando só de cultura, mas também de educação.

/MARCELA PAES

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