‘Se acredito em fim de ciclo? Sim, mas também em reciclagem’

‘Se acredito em fim de ciclo? Sim, mas também em reciclagem’

Sonia Racy

09 de dezembro de 2013 | 01h30

Foto: Paulo Giandalia/Estadão

Preparando-se para temporada de estudos na Europa, Tite, agora ex-técnico do Corinthians, fala sobre Bom Senso F.C., família unida, os ventos da mudança e seleção brasileira.

O responsável direto pelas maiores conquistas da centenária história do Corinthians não teve um ano fácil – apesar dos títulos paulista e da Recopa. Culpa, em parte, de uma cultura futebolística que privilegia a troca de peças à de processos.

Não importa. Adenor Leonardo Bachi, o Tite, vai aproveitar o fim do ciclo de três anos à frente do Timão para uma reciclagem profissional e (por que não?) pessoal. Aos 52 anos, está se preparando para temporada na Europa, onde fará um curso da Uefa. “E quero ficar mais tempo com a família”, completa.

Ainda emocionado com a despedida que a fiel torcida lhe proporcionou em seu último jogo no comando do time no Pacaembu – palco de algumas das maiores alegrias da carreira –, ele falou à coluna em sua casa, ao lado da mulher, Rose.

Aqui no Brasil se fala muito em ciclo. Acredita que seu ciclo havia mesmo terminado no Corinthians?
Acredito em ciclo e também em reciclar. Tu pode manter um ciclo, ou prolongar um ciclo, se conseguir se reciclar. Esse é o grande segredo, buscar constantemente uma renovação. Faço isso comigo mesmo. Às vezes, uma mudança na forma do discurso, na abordagem dos jogadores. Parar de falar com alguns deles para que possam refletir – “o que será que o homem tá pensando agora” (risos). Essas reciclagens são fundamentais.

Vai se reciclar agora?
Eu digo, com toda a naturalidade: só consegui chegar a esse patamar profissional, porque tenho uma família extraordinária. Tenho uma esposa e filhos que aprenderam a conviver e a entender toda essa trajetória – que é muito bonita, rende mídia, reconhecimento, mas que também tolhe, porque não te dá folga. Um dia, eu falei para a minha filha, Gabriele: “Fiquei muito tempo longe de ti”. E ela respondeu: “Só fisicamente, mas eu te sentia sempre muito perto”. Aquilo diminuiu um pouco a dor que eu estava sentindo. Agora vou poder ficar com eles… Ah, e vou ter tempo para conversar com o Zagallo e o (Carlos) Bianchi (técnico do Boca Jrs.). Eu me aproximei muito do Bianchi nos últimos tempos. Depois do título da Libertadores, ele veio falar comigo: “Você criou o melhor time da América do Sul”. Aquilo estava acima do jogo, sabe? Logo após a final do mundial, conversamos também. Quero aprender com eles. Tenho essa necessidade.

Algum curso no horizonte?
Figueira da Foz, em Portugal, um curso da Uefa. É um projeto que eu desejo muito. São 30 dias em regime integral. Será no começo de 2013. A gente está só aguardando para saber a data certa. A Rose vai comigo.

Já está imaginando os próximos passos como treinador?
Recebi convites dos Emirados Árabes e da China. Com os Emirados nem iniciei conversa. Era o time que o Maradona treina (o Al-Wasl Dubai). Quanto ao convite chinês, pedi para só falar depois de encerrar com o Corinthians. Cheguei à conclusão de que não era o momento.

Mandarim não é fácil…
Não é, né, Rose? (ela balança a cabeça, concordando) E outra coisa: não adianta ir pra lá só pelo dinheiro, sem estar integrado, e, depois de cinco, seis meses, dar as costas e ir embora. Não é do meu perfil.

Acha que a cobrança foi demasiada depois de ser campeão do mundo? Afinal, não dá para ter esse tipo de conquista como parâmetro...
Claro, perfeito! Não pode. É o topo da montanha, o pico. E não é só do Corinthians que não se pode cobrar isso. Nenhum time consegue manter esse ritmo. Nem Barcelona, nem Real, nem Bayern…

Em algum momento você temeu que o título mundial mudasse alguma coisa na sua vida ou o seu jeito caseiro de ser?
Nesse particular, minha maior mentora, minha “auxiliar técnica”, é a Rose. Nós fomos criados de uma certa forma… Eu não vou nem quero mudar o meu jeito de agir por causa de título conquistado, não tem cabimento. E eu cobro isso de atleta também, de comissão técnica. Porque, quando tu ganha um título como esse, tu fica bonito. Ou não fica?

Você parece sempre muito tranquilo na relação com atletas, dirigentes, jornalistas. Como administra isso? É difícil?
Mas técnico de futebol é uma raça muito difícil (risos). Dirigente também, atleta também. E jornalista… Tenho uma filosofia: minhas questões eu resolvo pessoalmente. Com todos. Sabe por quê? Porque tu não precisa ecoar o problema. Dá para trabalhar com objetivos diferentes, respeitando os limites de cada um.

O quanto a saída do Paulinho fez diferença na queda de rendimento do Corinthians este ano?
Paulinho é diferente…

Um craque.
É, Paulinho é um craque. Talvez para falar ele não seja craque. Mas, no seu comportamento, nas suas atitudes, no seu exemplo dentro do clube. É um jogador educado, mas que não pede licença pra jogar, pra se impor. (pensa um pouco) Acho que ele não vai ficar chateado se eu contar isso pra ti: o Paulinho estreou na seleção brasileira com muita expectativa, como não poderia deixar de ser. Na véspera do segundo jogo dele pelo Brasil, eu o chamei num canto e falei: “Parabéns pela convocação, mas agora eu vou te passar a seguinte mensagem: a estreia já passou, o Paulinho tem de mostrar a cara do Paulinho, tem de ser o Paulinho do Corinthians, que se infiltra, que entra pela área, que chuta a gol, que pode até tomar um cartão amarelo numa disputa um pouco mais forte, mesmo que seja para mostrar que está lá, que o espaço é teu.

Qual foi o momento, no ano passado, em que o time passou de postulante ao título da Libertadores a franco favorito?
Duas equipes tinham cara de campeãs, alma de campeãs na Libertadores de 2012: Corinthians e Vasco. Quando a gente passou pelo Vasco, o grupo ficou muito fortalecido. Sem falar na vitória sobre o Santos, na Vila Belmiro. Eu não podia falar isso publicamente na época, mas, depois que eliminamos Vasco e Santos, eu disse aqui em casa: “Vamos ser campeões”. Porque não acreditava no Boca Jrs.

Você já defendeu publicamente um calendário mais inteligente para o futebol brasileiro. O que acha do Bom Senso F.C.?
Gosto muito e dou meu total apoio. Falei isso para o Paulo André (jogador do Corinthians, um dos líderes do movimento). É preciso melhorar o futebol brasileiro. Sou professor de Educação Física, sei o que é isso. É impossível recuperar um jogador, fisicamente, com menos de 72 horas de intervalo entre um jogo e outro. Depois começa a estourar músculo, joelho, ligamento. A precisão de um passe não acontece. Se o jogador está cansado, ele perde o timing: a cabeça pensa o movimento e o corpo não consegue executar. E se tu perde o timing, já era. Isso é científico, é fato. Este ano, quando a gente voltou do jogo contra o Tijuana, pela Libertadores, no dia seguinte eu acordei, em casa, perguntando: “Que hora é essa? Cochilei? Tem jogo? É agora? É de noite?”. Isso acontece com todo mundo que vive no futebol. É preciso tempo, para poder trabalhar tranquilo, para desestressar. Que bom que os atletas estão tomando consciência disso.

Ano que vem tem eleição para presidente da CBF. Vislumbra uma mudança?
Deixa eu te dar um paralelo: depois que o Mano Menezes saiu da seleção, a gente ouviu muita gente defendendo que era preciso chamar o Guardiola, houve uma campanha, inclusive por parte da imprensa. Eu fiquei pensando: em vez de mudar a mentalidade, querem trocar uma peça lá na ponta. Mas tem de ser o contrário disso, percebe? A ideia é mudar a mentalidade, para que o futebol seja mais organizado, evolua. Não é um nome, é um processo. O futebol brasileiro precisa ser melhorado. E tem como, viu? Tem, sim.

Ficou chateado por não ter sido convidado para a seleção após a saída do Mano?
Mas tu sabe se eu não fui convidado? Até hoje tenho dúvidas. Só duas pessoas sabem se o meu nome foi colocado na mesa: Mário Gobbi, presidente do Corinthians, e José Maria Marin, presidente da CBF. Uma coisa é certa: assim que a Copa acabar, uns cinco nomes vão vir à tona para substituir o Felipão (caso ele saia). E um deles será o meu, com certeza. /DANIEL JAPIASSU

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