‘Se a cidade não é democrática, carnaval também não será’, diz Emicida

‘Se a cidade não é democrática, carnaval também não será’, diz Emicida

Marcela Paes

15 de fevereiro de 2020 | 00h40

Emicida. Foto: Julia Rodrigues

 

 

A ideia de rappers no carnaval pode parecer estranha para alguns, mas não para Emicida e Evandro Fióti. Acostumados ao ambiente de escolas de samba desde crianças, os irmãos estreiam na folia paulistana no dia 23, com o bloco #QuilomboLab. “Toda a minha trajetória é baseada na construção de pontes. Gêneros como axé e funk são frutos de uma mesma árvore na qual o rap também está presente”, diz Emicida. Leia abaixo a entrevista.

Como surgiu a ideia para a criação do bloco?
Temos uma relação bastante próxima do samba e do carnaval. O Fióti tocou durante anos na bateria da Acadêmicos do Tucuruvi. Quando crianças, a nossa mãe também nos levava para os ensaios no Morro da Casa Verde e eu me lembro de dormir dentro de alguns instrumentos de percussão, tipo os surdões.

Você, pessoalmente, gosta de carnaval? Dos ritmos que costumam tocar como funk, axé?
Tenho minhas críticas à indústria faz, mas isso não quer dizer que meu amor pelo carnaval enquanto cultura tenha diminuído. Ter um bloco é uma forma de afirmar valores e lutar contra o esvaziamento que a indústria do entretenimento sem vínculo com as raízes dessa cultura gera. Sobre gostar de funk e axé… Toda a minha trajetória é baseada na construção de pontes. Esses gêneros são frutos de uma mesma árvore na qual o rap também está presente. Essa pergunta não faz muito sentido direcionada a mim. Ela tem a ver com o estereótipo que se tem de um rapper.

Você enxerga o carnaval de SP como democrático?
O mérito pela ideia de uma São Paulo mais democrática é da gestão do Haddad. Com acertos e erros, a ideia deu frutos e, hoje, o carnaval da cidade supera outros grandes do país. Apesar de a ideia de uma cidade democrática ter sido ventilada, não significa que a tenhamos de fato. Se a cidade não é democrática no resto do ano, também não será no carnaval. As relações de desigualdade e opressão se adaptam ao clima festivo e, às vezes, ficam até mais evidentes. Para quem experimenta o carnaval com a pele clara em Pinheiros, é uma coisa; para quem experimenta ele de pele escura nos redutos legítimos do samba, é outra.

Como adaptar o rap ao espírito do carnaval?
Isso também está mais próximo de um estereótipo que a imprensa gosta de alimentar. Existem centenas de raps festivos e com ótimas letras, além de grandes composições de gêneros mais populares, vamos dizer assim, com letras incríveis. Não se pausa o pensamento para se divertir, as pessoas se conectam com aquilo que conversa com elas. O que fazemos é nos divertir apresentando referências que o carnaval não traz, porque apenas mira em satisfazer o comércio. Acredito que a alegria seja mais verdadeira, inclusive.

Você recentemente se tornou conselheiro do mandato da Leci Brandão. Como vai ser isso?
Tive um almoço incrível com a Leci. Falamos sobre música e muitas outras coisas, política inclusive. Sou eleitor dela e um grande fã. Ela disse que gostaria de estar mais próxima e eu concordo, devemos trocar mais. No dia seguinte, acabei sendo surpreendido por este anúncio oficial em que eu era conselheiro do mandato. Não fiquei bravo, óbvio, tô com ela até o final. Mas achei um pouco precipitado por parte do time de comunicação postar nossa foto como anúncio oficial. Estou pra somar em tudo com gente que amo e acredito, mas não quero vínculos oficiais com política nesse momento da minha vida.

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