“São muitos os desafios pela frente”

“São muitos os desafios pela frente”

Sonia Racy

27 de outubro de 2014 | 01h20

Foto: Arquivo pessoal

O que Dilma terá de fazer para recolocar o Brasil nos trilhos? Para responder à questão, esta coluna convidou um dos mais respeitados economistas brasileiros, professor José Alexandre Scheinkman, ex-universidades de Chicago e Princeton – nesta última, se tornou professor emérito – e atual integrante da Universidade Columbia. Scheinkman, aliás, já foi sondado para integrar vários governos, inclusive o de Lula, mas jamais quis deixar a vida acadêmica.

“Há, frequentemente, excessos em uma direção ou na direção contrária. Nem o Brasil era a maravilha apregoada em 2010, nem está, hoje, à beira do colapso. A presidente, reeleita, tem uma tarefa difícil pela frente, mas o caminho para o desenvolvimento ainda está aberto”, diz ele. E complementa: “O Brasil teve, em sua história recente, ótimos ministros da Fazenda, como FHC, Pedro Malan e Antônio Palocci. Destes, só o Malan era economista, mas mesmo ele se cercou de profissionais de grande competência, mostrando que o mais importante é escutar as pessoas certas”.

A seguir, os melhores momentos da conversa.

Quais as primeiras medidas econômicas a serem adotadas pela presidente reeleita?
Ela vai se defrontar com quatro problemas sérios no curto prazo. Primeiro: retornar a uma política fiscal mais transparente e equilibrada – incluo nisso o aumento na transparência dos subsídios dados por bancos públicos. Por causa da nossa alta carga tributária e poupança pública quase nula, o retorno ao equilíbrio fiscal depende, principalmente, de cortes em despesas correntes e subsídios.

Qual o segundo desafio?
Começar o desmonte dos subsídios setoriais e controles de preços, que distorcem a alocação de recursos na economia, tornando-a menos eficiente. Sempre existiram, mas foram agravadas nos últimos oito anos. Um marciano que viesse por aqui concluiria que a política de incentivo à compra de carros aliada ao controle de preço da gasolina foi produto de um governo que almejava ampliar a poluição ambiental e destruir a indústria do etanol.

E em terceiro?
Diminuir gargalos da infraestrutura. Isso passa por uma gestão pública mais eficiente, a criação de um sistema regulatório que atraia o capital privado para investimentos e a agilização do processo de licenças.

Qual o quarto desafio?
Nomear uma diretoria adequada para o BC. A melhoria do padrão fiscal, por si só, tornaria mais fácil a tarefa do banco, mas, ainda assim, precisamos de uma política monetária que controle a inflação sem que o governo precise tomar medidas de controle de preços.
E no médio e longo prazos? Precisamos de uma agenda visando o aumento da produtividade. O produto por trabalhador no Brasil, comparado ao produto por trabalhador nos EUA, está num patamar abaixo de onde estava em 1980. Enquanto isso, Coreia do Sul, Índia, Taiwan e China diminuíram, e muito, a distância em relação aos EUA.

Temos condições para tanto?
O Brasil tem condições de gerar um produto por trabalhador cada vez mais próximo do produto por trabalhador dos países avançados. Essa agenda de produtividade requer, além do aumento da taxa de investimento e da melhoria na educação, voltar às reformas microeconômicas, em particular uma racionalização tributária que traga simplificação para todos – ao invés do sistema atual, que simplifica apenas para as empresas menores e menos eficientes. É preciso também integrar a economia brasileira à economia mundial, aproveitando nossas vantagens comparativas, ao invés de continuar a prover proteção crescente a setores escolhidos. Outro ponto é criar uma política nacional para a produção de pesquisa e desenvolvimento tecnológico. Foi estabelecendo laboratórios de pesquisa e desenvolvimento tecnológicos e subsidiando a pesquisa nas melhores universidades que EUA, Coreia, Israel e Finlândia se tornaram líderes em setores de alta tecnologia.

Como avalia o andar da carruagem do dragão da inflação?
O Brasil tem uma inflação mais alta do que seria desejável, mas não será muito difícil para o BC trazê-la para o centro da meta. Basta o governo fazer seu dever de casa fiscal e evitar pronunciamentos sobre taxa de juros.

Dilma fala muito em crise externa. Até que ponto a deterioração da economia se deve à mudança do ambiente lá fora?
A economia mundial não é a razão principal para nosso desempenho medíocre. Estamos crescendo menos do que Chile, Colômbia, Peru, Coreia, Taiwan, China, Índia e mesmo economias maduras, como Grã-Bretanha e EUA.

Existe falta de demanda do setor industrial ou ela foi substituída por importações? A produtividade do Brasil é um grande problema?
Sim, o Brasil é um país onde se investe pouco e a população é pouco educada. Mas um problema adicional é que, mesmo se tivéssemos a mesma educação e o mesmo capital dos países ricos, teríamos uma produção per capita muito mais baixa, porque somos pouco produtivos. Pior ainda: esse hiato de produtividade em relação aos países avançados continua a aumentar. Mas essa queda de produtividade não aconteceu em todos os setores. O crescimento da produtividade da nossa agricultura superou, em muito, o da agricultura americana.

Por quê?
Há pelo menos duas razões: o papel da Embrapa, que gerou as tecnologias que são conhecidas no mundo inteiro como “agricultura tropical”; e o fato de que a agricultura brasileira tem de competir com a agricultura do resto do mundo sem a proteção que setores da nossa indústria desfrutam.

Programas sociais, como Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida, terão continuidade. No que podem melhorar?
O sucesso do Bolsa Família deve ser medido pelo número de famílias que consigam deixar o programa. Para isso, é preciso criar mecanismos para que os beneficiários possam aumentar sua capacidade de gerar renda. Obrigar as famílias a manter os filhos na escola e ajudá-las a cuidarem da saúde das crianças foi um bom começo. Agora, temos de aumentar as oportunidades para os jovens oriundos dessas famílias beneficiadas.

Tendências: