‘Saí do armário pela segunda vez com o HIV’, diz Alberto Pereira Jr.

‘Saí do armário pela segunda vez com o HIV’, diz Alberto Pereira Jr.

Sonia Racy

07 de junho de 2021 | 00h00

Alberto Pereira Jr. Crédito: Denise Andrade07

Apresentador do programa Trace Trends fala como convive publicamente com o vírus

Alberto Pereira Junior é paulistano, nascido em uma família de classe média da Vila Carrão, na zona leste de São Paulo. É negro, homossexual, sagitariano, jornalista, artista, ativista social, roteirista, produtor e fundador dos blocos de carnaval Bixa Preta Você É Linda e Domingo Ela Não Vai – este dedicado ao axé music. Desde 2009, convive com o fato de ser soropositivo. “Essas características formam quem sou. Mas isoladamente não devem me definir, porque não sou nenhuma delas, apenas”, destaca. “Sou a soma disso tudo e muito, muito, muito mais”, frisou à repórter Sofia Patsch em entrevista, semana passada, via FaceTime.

Em junho, comemora-se o Mês do Orgulho LGBTQIA+. E ontem foi celebrada, de forma online, a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, evento que Pereira Junior frequenta desde 2007. Esse ano, o tema foi: HIV – AIDS: Ame+, Cuide+, Viva+.

Como um dos apresentadores do evento, o ativista social comemora o fato da comunidade LGBTQIA+ ter se “reapropriado” de um tema que a assombra há anos. “O HIV é uma questão de todos seres humanos, qualquer um pode contrair o vírus e desenvolver a Aids se não se cuidar. Não se restringe à nossa comunidade”.

Pereira Junior se prepara para estrear, a partir do dia 23, no Globoplay e Multishow, como apresentador do programa Trace Trends, da multiplataforma de cultura afro urbana Trace Brasil – onde ocupada o cargo de head de produção e conteúdo. Confira os melhores momentos da conversa:

Como foi descobrir ser soropositivo?
Descobri que estava com HIV em 2009, tinha 22 para 23 anos. Na época, estava em crescimento profissional, trabalhei por quase sete anos em um grande jornal, fui colunista, fiz coluna social, site. Sempre digo que sou um negro periférico que furou algumas bolhas. Cursei faculdade de comunicação no Mackenzie e depois fiz pós-graduação na FGV. Sempre fui quase o único preto nos espaços, seja na faculdade, seja no colégio, as pessoas negras estavam no meu entorno, mas percebia que eram quase todas trabalhando e servindo.

E quando foi que entendeu a dimensão disso tudo?
Foi algo que fui percebendo só ao longo do tempo, e fui identificando o motivo depois, muito tempo depois. Aí somou a minha homossexualidade. Então, eu era diferente duas vezes, negro e gay. Por muito tempo guardei muitas coisas pra mim, era muito reservado, tinha uma casca dura. Me normatizei (viver como a sociedade espera de um homem hétero) por muito tempo, antes de dar espaço aos meus desejos.

Como foi a questão da descoberta com sua família e sua saúde?
Tenho acesso a plano de saúde, mas temos o tratamento gratuito no Brasil, precisamos lembrar que é um acesso, estão tentando deixar cada vez mais precário, mas ele é universal, todo mundo tem direito. E tem que continuar a ser assim. Ter condições de me tratar no sistema privado e ter informação. No meu caso, sou indetectável: minha carga viral é tão baixa e controlada, que eu não transmito o HIV. Isso tudo me colocou numa situação confortável. Minha família sempre foi muito calorosa, dividi a doença com eles desde o começo. Estava mais preocupado com o meu crescimento profissional e seguir em frente.

Essa postura também era uma forma de se proteger?
É claro que isso também era uma proteção, porque ainda hoje, 40 anos depois da epidemia ter começado, vemos os estigmas que sofre quem vive com HIV. A gente ainda lembra daquela capa do Cazuza quando a gente fala de AIDS. Aquela imagem, a imagem de um tempo em que a ciência estava descobrindo o que era essa enfermidade, não havia tratamento. É isso que ficou na mente das pessoas.

Quando decidiu contar ao mundo que era soropositivo?
Foi em 2019, através de uma performance, depois de frequentar um workshop sobre estigma e produção artística contemporânea em relação ao tema HIV/Aids, no Itaú Cultural. Convivia com o vírus há dez anos, mas só nessa época me dei conta que nunca tinha dado voz a isso, como dava ao fato de ser negro e homossexual. Foi então que sai do armário pela segunda vez.

E como era essa performance?
Vesti essa camiseta que estou usando na foto dessa entrevista, na qual estão escritas minhas descrições: Alberto, bicha, preta, signo sagitário, indetectável e brasileiro. A performance se chama Por favor, Toque-Me. Sentei em um banco de uma praça, com uma placa ao lado revelando meu status HIV positivo e convidei o público a ressignificar a imagem preconcebida de um corpo positivo. No começo fiquei com medo. Depois de um tempo sem ninguém me tocar, uma senhora parou, leu o que estava escrito na placa e me deu um sorriso acolhedor. Se aproximou e me tocou. Aí percebi que estava no caminho certo.

Ainda criticam muito a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo classificando o evento como “carnaval fora de época”. O que tem a dizer sobre isso?
Frequento a parada desde 2007 e é importante as pessoas terem a dimensão de que o fervo (azaração, agitação) também é luta. Estar na rua marchando, desfilando, dançando, beijando e amando também é luta. Nossos corpos LGBTQIA+ são alvo de muitos preconceitos e precisamos nos normatizar e não ser exatamente como somos, não viver a nossa “gaysisse” plenamente. A sociedade nos aparta. A parada, para nós, é o momento de defender existir do jeito que queremos. Coloridos, variados, diversos, alegres e também gritando e protestando por um mundo melhor. É um momento de catarse dos que são LGBTQIA+, de mostrar que também somos humanos.

É o segundo ano que a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo aconteceu online, por causa da pandemia. Esse formato funciona para a causa?
Mesmo online tentamos levar essa dimensão de fervo e luta para as pessoas, além de muitos shows e bate papos. Este ano, pela primeira vez, nos apropriamos de um tema que foi muito usado contra nós, o HIV/Aids, que é uma questão de todos, qualquer ser humano pode contrair o vírus do HIV e desenvolver a Aids se não cuidar. Então não é uma doença exclusiva da comunidade LGBTQIA+, mas por muitos anos e até hoje, esse estigma faz com que pareça que a doença só acomete a nós. Quando a gente se reapropria desse tema e o coloca na linha de frente da discussão, estamos querendo tratar dessa questão em uma dimensão mais humana.

O que mudou na parada desde que começou a frequentar o evento, em 2007, até hoje?
Muita coisa. Vi e senti a luta e adesão de outras letras, formando hoje o que é a LGBTQIA+. Principalmente a letra T, dos transexuais e transgêneros ganhando mais protagonismo. Acho que ouve uma despolitização do evento de 2007 até 2014, época que vivíamos um governo progressista, de mudanças sociais. Pudemos viver o acontecimento de forma mais festiva e isso fez a parada crescer mais e mais. Em 2018, com a eleição do Bolsonaro, além da festa, tivemos que rever a questão política por trás do evento.

As grandes marcas estão olhando mais e mais para o público LGBTQIA+. Isso também se reflete no evento?
Com certeza, percebi ao longo desses últimos anos, muitas marcas grandes apoiando de fato e trazendo celebridades para a parada. Mas não só isso, de alguma maneira a nossa luta começou a furar bolhas, perpassar o mês do Orgulho LGBTQIA+ e entrar no calendário o ano todo. Ainda é pouco, precisamos furar esses marcos, precisamos que nossas pautas sejam valorizadas o ano inteiro. Só assim a transformação virá. Já flui com maior naturalidade, mas temos que continuar lutando.

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