‘Minha formação é de guerrilheiro’, diz estilista

‘Minha formação é de guerrilheiro’, diz estilista

Sonia Racy

25 de junho de 2018 | 00h22


FOTO SERGIO CADDAH / FOTOSITE

Habituado a levantar temas polêmicos no mundo
da moda, Ronaldo Fraga diz que “estamos
atravessando
uma tormenta” e “o que as pessoas querem
vestir é o reflexo de uma época”
 

Ronaldo Fraga não se contenta em fazer um desfile para entreter as pessoas e vender suas roupas. O estilista mineiro tem arrancado todo tipo de emoção do público em suas últimas participações na SPFW. Em 2015 levou a plateia às lágrimas ao tratar do tema “amor”. Em 2016 ousou duas vezes: em um dos desfiles colocou na passarela cinco refugiados. Em outro, convidou apenas mulheres transexuais para desfilar. Em 2017 foi a vez idosos, deficientes físicos e descendentes de índios. Finalmente, este ano, Fraga escolheu trazer ao mundo da moda uma memória: a tragédia de Mariana.

Esses temas, que podem parecer herméticos ou engajados demais para fashionistas, são naturais para o designer. “A moda é um vetor extremamente diverso. Pode ser entendida de vários ângulos diferentes, como um vetor econômico, cultural, antropofágico, até um vetor político. Mas, o que une cada um desses pontos é a moda como documento de um tempo”, explica em entrevista por telefone à repórter Marilia Neustein. “O que as pessoas querem vestir é o reflexo de uma época”. Indagado se esses temas têm espaço em um momento de polarização política e social, Fraga acredita não saberia trabalhar de outra maneira: “Minha formação é de guerrilheiro. As armas que eu tenho são o meu ofício. E aí vem o meu desafio, porque tem que ser bonito, bem feito, ter qualidade, colocar desejo, mas se tiver ali um desconfortozinho do nosso tempo, isso é benefício”. A seguir, os melhores trechos da entrevista.

Seus últimos desfiles causaram bastante debate, o que não é comum em eventos de moda. Por que trazer temas que dizem respeito à política, à cidadania, para as passarelas? Acredita que o público compreende?
Acho que tem muitos aspectos. A moda é um vetor extremamente diverso. Pode ser entendida de vários ângulos, como um vetor econômico, cultural, antropofágico, e até um vetor político. Mas, o que une cada um desses pontos é a moda como documento de um tempo. A moda é o desejo de um tempo, é aquilo que as pessoas querem. A forma como querem morar, se relacionar, o que querem comer. O que as pessoas querem vestir é o reflexo de uma época.

É isso o que mais o fascina?
Sim. É possível levar tudo para uma coleção de moda: desde modelo mais hermético, mais leve, até um mais espinhento. Eu concordo que esses temas que eu tenho escolhido, seja a crise dos refugiados ou a questão da transfobia, não são coisas que, necessariamente, ajudariam a vender roupa. Existe muito risco. É andar no fio de uma navalha, mas eu acredito que a moda é algo maior que a roupa, é um vetor de comunicação mais forte do que uma roupa.

Em um dos seus desfiles você abordou a tragédia de Mariana, da qual pouca gente fala três anos depois. Se a moda é um retrato do seu tempo, acredita que o brasileiro não tem memória?
O Brasil é esquecido pelo Brasil o tempo inteiro. Somos um país desmemoriado, onde tudo vira o capítulo de uma novela que passou. E Mariana não tem sido diferente. Quando optei em levar esse tema pro desfile, eu não queria simplesmente reforçar a tragédia pela tragédia, isso foi feito à exaustão. A imagem que fica da tragédia de Mariana é a imagem aérea, da área da terra soterrada. Mas pouco se falou das histórias particulares, ou de estimular um caminho à frente. Tanto que quando resolvi trabalhar com esse grupo de bordadeiras de Barra Longa, me chamou a atenção saber que essa atividade estava em vias de extinção. E isso, muito antes da tragédia…

‘O BRASIL É ESQUECIDO
PELO BRASIL
O TEMPO INTEIRO’

Existe um abandono?
Sim. Quando vejo que esse saber que chegou naquela região no século XVIII e que hoje, 300 anos depois, é muito da identidade da alma desse lugar, pego esse ponto que já estava em vias de esquecimento. É como se eu olhasse uma fagulha num palheiro e falasse assim: não, eu vou soprar essa fagulha porque eu preciso dessa fogueira. Acho que essa fogueira pode salvar e sinalizar outro caminho. Que é o da autoestima, do pertencimento. Muito mais do que geração de emprego e renda. A construção de memória… acho que é pouco feita no Brasil.

Acha então que a moda poderia ter esse papel de construção de memória coletiva?
Desde o início. Acho que a moda tem esse poder porque é o design aplicado de forma rápida. Gera uma mídia espontânea absurda e as pessoas levam para o seu dia a dia. É mudar de armas, é falar assim: “olha, eu acho que a arma que a gente vinha usando, seja de denúncia, seja de renúncia, seja de debate, está desgastada no País”. Eu sugiro a gente mudar de armas, falar de outras, falar das mesmas coisas, protestar pelas mesmas causas, mas usando outras armas.

Um dos seus desfiles, que teve grande repercussão, foi sobre o amor. Em tempos polarizados, como ficam os afetos?
Acho que vivemos tempos áridos. Sim, são tempos áridos, de transição. O século XXI ainda não se desenhou e há uma sensação de que voltamos 100 casas atrás. Então, nessa história das relações amorosas, das relações humanas, estamos vivendo questões medievais.

Em que sentido?
São tempos fluidos, líquidos, “do cada um por si e Deus por todos”. Mas, ao mesmo tempo, todos tomando conta do desejo do outro. Falar de amor hoje já é uma forma de transgressão. E que gerou a coleção sobre transfobias no Brasil. É importante lembrar que vivemos em um País que mais mata LGBTs no mundo. Um País que manda matar para calar a voz do outro. E a gente vive na ilusão de que isso acontece só nos confins do Pará. Isso acontece com a Marielle no Rio, por exemplo. Então, não consigo ficar parado tentando falar da florzinha da estação. Agora, é óbvio, você pode falar “ah, Ronaldo, mas as pessoas no fundo só querem se sentir bonitas, comprar uma roupa bem feita”. Aí eu digo: “Tá, mas já tem tanta gente fazendo isso”. Minha formação é de guerrilheiro. As armas que eu tenho são o meu ofício. E aí vem o meu desafio, porque tem que ser bonito, bem feito, ter qualidade, colocar desejo. Mas se tiver ali um desconfortozinho do nosso tempo, isso é benefício.

Como vê uma certa guinada ao conservadorismo que está acontecendo não apenas no Brasil, mas em todo o mundo?
A gente está falando de política, de história, de antropofagia. Acho que, de certa forma, demos um passo à frente. Como Zuzu Angel deu. O dia em que uma estilista conhecida, como a costureira dona Zuzu, denunciou, através de um desfile de moda, a tortura nos porões da ditadura, coisa que nenhum intelectual tinha conseguido fazer, foi de um impacto enorme. Pelo menos pra moda brasileira. Acho que em toda área as pessoas devem tentar fazer isso. Agora, é fácil? É óbvio que não. Você corre o risco de resvalar pela briga partidária… e acho que não é isso. Brigar por questão de partido hoje no Brasil é uma briga míope.

‘A MODA TEM UM VETOR  ECONÔMICO,
CULTURAL, ANTROPOFÁGICO,
ATÉ UM VETOR POLÍTICO’

Falando de moda, stricto sensu, o que acha que há de mais interessante em termos de criação nessa área?
Tem muita coisa bacana. Mas não está só na passarela ou na mão do designer. Está em um jeito de vestir de uma geração. Vivemos em uma época em que o que interessa não é o que eu faço, mas é por quê eu faço. As pessoas hoje em dia querem saber de onde vem a roupa que elas estão vestindo. Elas não vestem mais aquela roupa só porque é barata e que vem lá da Ásia com trabalho escravo, sabe? A moda não inventa o tempo, ela é o reflexo desse tempo no retrovisor. Então, tem um movimento de rua, um desejo de representatividade no mundo inteiro… e vemos a moda caminhando nesse lugar. Não tenho essa visão pessimista e derrotista de que está tudo escuro e não tem luz no final do túnel. Não, estamos atravessando uma tormenta para a definição de uma época.

Em uma entrevista você reclamou que as pessoas não valorizam o artesanato brasileiro. Que é mais reconhecido internacionalmente do que aqui. Qual seria a razão disso?
Já escutei comentários ridículos sustentando que a renda brasileira tem que andar muito para chegar a uma renda holandesa, a uma renda italiana. Eu achei ridículo porque não estamos discutindo se é bonito ou se é feio, bem feito ou não, estamos dizendo que o feito à mão de determinado lugar vai sempre falar da alma da formação desse povo. Essa formação se constrói a partir do que é feito com as mãos: comida, artesanato, bordado, etc. Até pouco tempo o artesanato era algo que ficava na área de serviço, era sinônimo de decoração em casa de tia de mau gosto. Hoje foi pra capa de revista de decoração. Mas ainda é muito lento, porque o Brasil vive o fenômeno de uma elite cada vez pior: a elite dos blindex verde, dos prédios espelhados. Ela tem um gosto inóspito, onde o artesanato sempre vai ser visto como algo de pobre para pobre.

 

 

Tendências: