Renato Aragão quer ir ao espaço

Renato Aragão quer ir ao espaço

Sonia Racy

05 de abril de 2010 | 08h37

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O humorista comemora os 50 anos de Didi com estreia de novo programa e diz: “Nunca estive tão atribulado”.

Aos 75 anos, Renato Aragão sonha ir ao espaço. “Mais jovem” desde o nascimento de Lívian, 11 anos, o humorista malha com personal trainer, não come carne vermelha e calça All Star. Recebe a coluna em sua mansão, no Rio – de onde se vê a casa de Xuxa – para falar de As Aventuras de Didi, que estreou ontem, na Globo. A conversa é acompanhada por sua mulher e empresária, Lílian, que coordena o trânsito de bandejas com bolos e tortas. Atenta, ela “entrega” o jogo quando Renato, avesso a polêmicas, tenta escapar. Na parede da sala climatizada, acima do piano, há um quadro de 1991, com imagem de quando ele escalou o Cristo Redentor e beijou-Lhe a mão.

Lembra-se muito da escalada ao Cristo Redentor? Nem me lembro disso aí… Foi uma coisa minha mesmo, sem exibicionismo, quis fazer e ninguém conseguiu me segurar. Foi loucura, não faria de novo, muito arriscado.

E que loucura faria hoje? (Lílian responde: “Ele me pediu para colocá-lo na fila para ir ao espaço. Sabe aquele carro voador? Então, ele quer ir.” Renato desconversa.) É, muita gente quer me mandar pro espaço. Mas já fui com As Aventuras de Didi.

Que tal o novo programa? Muito diferente da Turma do Didi. Agora são episódios e não quadros. Novo elenco, histórias passadas em 2100, em outro planeta. Brincamos de Avatar, Jetsons, Star Wars.

O que faz para manter o Didi há 50 anos na TV? Não é só ralar quando se tem uma oportunidade. É manter eterna vigilância depois do sucesso. Muitos ficam no caminho porque estouram e se acomodam. Daí os outros passam por cima. Hoje estreio o programa semanal, faço o Criança Esperança, especiais de fim de ano. Nunca foi tão atribulado.

Chico Anysio, por exemplo, queixou-se de falta de espaço. Ele é muito talentoso e deve ter seu espaço na TV, sim. Fizeram um especial e foi sucesso. Mas não quero entrar na história do Chico.

Como é lidar com novatos? Sempre gostei. Já botei modelo, BBB, é ótimo. Mas precisa de talento para se segurar. E sofro porque é difícil encaminhá-los. Tem que escrever texto pequeno, fácil, e ter muita paciência.

Apareceu em SP um movimento com humoristas propondo o fim do politicamente correto… Isso não vão conseguir, não. As coisas avançaram muito. Eu não poderia fazer Os Trapalhões hoje. A gente se sacaneava: “Ô, Paraíba”, “Ô, Negão”, “Negão é teu passado”… Não pode falar isso hoje. Naquela época, nunca ninguém se magoou. Nem negro, nordestino, gordo, feio, gay. Hoje tem que respeitar.

Mas era desrespeito antes? Não, mas hoje eles estão ganhando espaço. A sociedade se desenvolveu. Hoje, se soltar demais, sei lá, agride sem saber.

Acha que as imagens de Mussum “tomando mé” foram nocivas à educação das crianças? Não. E você sabe por quê? Porque ele era verdadeiro. Ninguém dizia: “O Mussum tá falando isso e agora meu filho quer beber”. Sabiam que era errado. Mas ele tomava os “mé” e quem sofria era ele, coitado. Acho mais perigoso fazer propaganda com mocinhas bonitas levantando copo de bebida do que o Mussum com cachaça.

Saudades dos Trapalhões? Éramos uma família. Não vejo os programas por não aguentar de saudade. Me dói ver um quarteto tão unido não existir mais. Ainda não aceito a morte deles.

Mussum e Zacarias morreram com cerca de 50 anos. Jovens, né? Cada um escolhe o seu caminho. Sofro ao ver um bolo desse e não comer (diz, fitando um de coco). Ver as pessoas com drinque e não beber. Não como carne nem gordura. Faço ginástica, jogo futebol. É questão de sobrevivência. E preciso do corpo para trabalhar.

Passados 16 anos da morte de Mussum, o que sente ao ver camiseta dele com a palavra “Obamis”? Só vi a “Forevis”. É legal, mas deveriam pagar direitos à família.

Como é trabalhar com o Dedé depois de anos de rompimento? Maravilhoso. O destino bota um para um lado, outro para o outro. Ele disse: “Quero ir trabalhar com você”. Respondi: “Vem, pode vir”, de braços abertos. Era o que o povo queria.

O Didi não era o tipo galã, mas, nos filmes, você fez par romântico com Xuxa, Luma de Oliveira… (Risos)Houve muitas, mesmo. Mas o Didi é sonhador, romântico. Não importa que seja feio, baixinho – porém compacto e com acessórios. Mas, chegava na hora, os galãs levavam a mocinha e ele ficava chupando o dedo.

Por falar em filme, está satisfeito com as bilheterias de hoje? Hoje há um controle muito grande sobre as bilheterias. Antes, não. Meus filmes podem ter tido muito mais espectadores do que se tem notícia. E, olha, vi Avatar e quase desisto de ser cineasta. Um take daqueles é o preço de um filme meu.

Continua religioso? Sim, sou católico, rezo muito. Falo: “Deus, sei que nem mereço tudo isso…” – daí vem a chantagenzinha: “…mas tenho que viver muito para agradecer. E com muita saúde, viu, vai segurando a minha barra mais um pouquinho.” Não quero viver muito sem poder fazer as coisas. Quero o suficiente para continuar fazendo o que faço.

“Ele” ou “ela” para presidente? Não sei, viu? Quando o Lula foi eleito fiquei preocupado, mas tá dando conta do recado. Acho o Lula uma pessoa honesta. Mas não escolhi o candidato.

O que você faz na sua folga? Adoro ficar em casa. Vejo TV e tenho meu clubinho aqui (com campo, piscina, mesas de pebolim, sinuca, carteado). Toda sexta, às 7 da noite, tem futebol das crianças e depois dos adultos,

Em campo, é bom de bola? Olha, garanto meu lugar assim: o campo é meu, o time é meu e a bola é minha.

Por Débora Bergamasco