Regina Guerreiro: “a tendência está morta”

Regina Guerreiro: “a tendência está morta”

Redação

01 de setembro de 2008 | 20h06

Regina Guerreiro
Para a consultora de moda Regina Guerreiro, a essência da palavra está se perdendo com o consumo desenfreado

*por Doris Bicudo

Por trás das lentes dos óculos escuros de Regina Guerreiro já passaram muito mais estilos e tendências do que se pode imaginar. E como uma enciclopédia de moda, ela tem tudo catalogado: data por data, acontecimento por acontecimento. Temida por muitos e adorada por nem tantos assim, a editora – que um dia, acreditem, pensou em ser repórter policial – é capaz de ter análise pronta sobre um desfile antes mesmo de as luzes da sala se ascenderem. E pobre do estilista caso ela não aprove o que presenciou. Sagaz, não espera o tempo passar. “Não dá para ficar parada, a gente tem de atravessar a rua e ver o que está acontecendo do outro lado. Se reinventar sempre.”

Acredita na criatividade, nas parcerias, mas não chega a ter uma visão otimista do futuro fashion. “Essa pasteurização é questão econômica. Eu sinto um encolher em torno das coisas e não gosto disso. E esse problema não é privilégio nosso, acontece no mundo todo. Alguém poderia imaginar que o jogging usado para ginástica se transformaria em roupa de sair?” De seu lado, não espere encontrar Regina usando o sapato do momento ou com a bolsa-desejo da novíssima safra a tiracolo. Em Paris, prefere os brechós às lojas de grife. Mesmo assim, na noite do nosso encontro usava um blazer Lanvin. “Gostei, comprei e vou usar muitas vezes.” Entre ser chique ou ser moderna, prefere a segunda opção. No estilo? Não só. Também na forma como encara a vida.

Qual sua opinião sobre a venda do São Paulo Fashion Week para o Grupo InBrands?
O frisson em torno da compra do SPFW pelo grupo provocou um alarde sem propósito. O gira-gira cada vez mais acelerado do mundo vai apontando novos caminhos, mais inteligentes e mais pertinentes, para sobreviver em meio a tantas – e inevitáveis – turbulências. Mesmo que esse “blend” de marcas de moda mais Fashion Week seja de uma complexidade delicada, acho difícil antecipar as conseqüências. Sinceramente, só espero que elas sejam positivas.

Moda é desejo?
A palavra moda nunca foi tão usada. Tudo virou moda. O carro, a comida. Com isso, a essência ficou vazia. Faça a conta: 800 estilistas no mundo lançando uma coleção a cada temporada. O resultado? Oitocentas cabeças dando socos no ar. A tendência está morta. O que vale é o que a mulher está desejando, ou melhor, precisando. Na verdade, hoje em dia, as pessoas têm pouca chance de desejar…

Como se tornou uma expert no assunto?
Sempre gostei de escrever. Queria ter sido escritora, mas comecei a trabalhar com moda e quando dei por mim, não dava mais tempo, já tinha me tornado eu mesma. Mas não posso reclamar, consegui sobreviver e viver da moda. Tive muita sorte também nessa minha caminhada, que não pode ser chamada de morna.

E seu livro, quando sai?
Adoraria ter escrito, mas acho que vai ficar para outra encarnação. Precisa de um tempo que não tenho.

Quando editora, você ficou conhecida como a mulher do milímetro…
Sou perfeccionista, uma esteta por natureza. Um milímetro fora do lugar me incomoda. Não sou do tipo pratiquinha. Vou complicando tanto as coisas, que, às vezes, tenho vontade de bater em mim. Quando alguém vê uma página pronta, não tem idéia do trabalho que dá montar a harmonia das cores. Ninguém imagina o que existe entre o azul que abre um desfile e o preto que fecha. O espaço entre o bonito e feio é o de um papel de seda. A perfeição do trabalho não depende da platéia e sim do elenco.

Qual o seu signo?
Touro, com ascendente em Gêmeos.

E nessa trajetória, mais amigos ou inimigos?
Tenho poucos amigos, mas muito bons. Que me conhecem muito bem e sabem que eu sou uma pessoa mais depressiva do que alegre. Embora eu passe alegria, sou introspectiva. A grande loucura da minha vida foi nos anos 80. Passava noites e noites em estúdios. Ficava tanto tempo ao lado dos fotógrafos que ante um simples gesto era capaz de decifrar a personalidade deles. Acho que passei metade da minha vida brigando com uma echarpe.

Os estilistas te consideram dura nas críticas.
Na verdade, tenho senso de humor.

Quem é o grande nome brasileiro na moda?
Pergunta difícil. Ninguém é bom o tempo inteiro. Uma pessoa que é ótima em uma coleção pode balançar na outra. O problema da moda brasileira é que o industrial quer ser estilista e o estilista quer ser comercial. Somos um país colonizado e temos complexo disso. Temos uma divergência cultural, uma riqueza de contrastes, uma cafonice superlegal. O problema é quando tentamos ser chiques. Foi assim que Alexandre Herchcovitch mostrou seu talento: vestindo travestis. Hoje, é o grande nome da moda brasileira, que sabe ser estilista e comerciante. Tenho também muita esperança no Pedro Lourenço (filho de Glória Coelho e Reinaldo Lourenço). Ainda é um menino, mas sensibilidade e busca pelo perfeccionismo, ele, sem dúvida, tem.

E como a nossa moda é vista lá fora?
Em minha última viagem, vi na vitrine da Dior uma minissaia jeans com um top de lamê prateado. Pensei que estivesse em Copacabana, com aquelas mulheres perigosas. Os europeus querem da gente é essa coisa meio cafajeste. Esse maravilhoso mix de culturas. Infelizmente, não percebemos isso.

A francesa também pasteurizou?
Nossa! Parece uma revoada dos mesmos pássaros. Sinto tanta saudades de Paris de 30 anos atrás, quando cada pessoa era um personagem. Um tinha um pompom na lapela, outro uma pena enorme no chapéu.

Saint Laurent se inspirava em Matisse e Goya. Qual sua inspiração?
Dentro de mim. Tenho muitas cores, muitas luzes e muitas sombras.

Se pudesse voltar no tempo…
Teria vivido nos anos 30. Mas o fim dos anos 70 foi glorioso. Foi a explosão da rebeldia, da liberdade sexual, do legado hippie. Até Saint Laurent, na época, criou o hippie chic. Depois vieram os japoneses. Com eles, o começo da androginia, o luto da moda no preto total. Foram anos estupendos, de diversificação, de contrastes, de mudanças, de coragem. Foram tantas coisas percorridas, tantos curtos, tantos longos, tantos babados, tantas pregas, tantos plissados. Ficou provado que não é um babado mais para cima ou mais para baixo que vai mudar o futuro da gente. Por isso, hoje é um tédio.

Planos para o futuro?
Preciso dar mais espaço para o amor do que para o trabalho. Estou muito feliz, reencontrei uma pessoa. É uma coisa inacreditável o amor que existe entre nós.

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