Reflexão profunda

Sonia Racy

18 de dezembro de 2015 | 01h50

Quando recebeu o convite de Lúcia Murat para fazer o filme Em Três Atos, Nathalia Timberg só teve motivos para aceitar: pela admiração que a atriz tem pela diretora; por trabalhar com Andréa Beltrão; e, por fim, porque os textos a serem narrados eram de autoria de Simone de Beauvoir. Em cartaz há pouco mais de uma semana, o longa aborda – por meio do olhar da escritora francesa – a questão do envelhecimento. A atriz falou à coluna, por telefone, sobre o projeto. Abaixo, os melhores trechos da conversa.
Como aceitou o convite para esse papel?
Depois de ler o roteiro que Lucia me deu, fiquei encantada. Tenho muita admiração pelo trabalho dela e conseguimos fazer um filme que está mobilizando as pessoas. É muito interessante ver como o tema tem esse impacto, principalmente pelo tratamento que ela lhe deu.
O filme aborda a questão do envelhecimento das pessoas. Como a senhora vê hoje essa questão no Brasil?
Claro que depende do desenvolvimento social do país. Entretanto, o filme trata da questão de maneira bem mais universal do que social. O envelhecimento é universal. É interessante pensar como as pessoas vão enfrentando essa passagem com uma serenidade maior ou menor.
Acredita que falar sobre isso ainda é um tabu?
Há uma tendência de querer escamotear o lado mais dolorido – que é a perda de poder, o murchar de todas as condições físicas e, em muitos casos, também mentais. O envelhecimento é algo bastante duro, dependendo da capacidade de reação da pessoa. Mas, sim, claro, há uma tendência, de muita gente, a não falar sobre isso.
E como foi, para a senhora, trabalhar com os textos de Simone de Beauvoir?
Simone é uma recorrência na minha vida. Sou muito próxima de seus textos. É sempre muito instigante ler Simone, por sua clareza, sua forma de observar o ser humano. E a Lúcia foi muito feliz em procurar esse texto-depoimento e colocá-lo como fio condutor da história. Foi uma escolha pessoal, que transmite a sua própria maneira de pensar e sentir. Ela conseguiu fazer isso sem adoçar, mas com uma grande verdade poética.
O Enem chegou a usar Simone de Beauvoir em uma questão essa ano. Entende essa escolha como uma “revalorização” do feminismo?
Não gosto muito da palavra feminismo porque ela vem, às vezes, muito deturpada. Vejo que a mulher está se libertando, cada vez mais, dos tabus e das amarras da sociedade machista. Isso é curioso para mim, porque nunca me senti inferiorizada na minha condição de mulher. Somos seres humanos. Uma mulher é fisicamente diferente de um homem, claro. Mas isso não pode ser colocado em termos de inferioridade ou superioridade. / MARILIA NEUSTEIN.

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