‘Recorrer às nossas raízes é uma forma motivadora de viver’

‘Recorrer às nossas raízes é uma forma motivadora de viver’

Sonia Racy

25 de novembro de 2013 | 01h00

Foto: Arquivo pessoal

A fadista portuguesa, que se apresenta no Brasil em dezembro, fala sobre sua relação com a música brasileira e a recuperação do célebre estilo musical de seu país. 

Ela chegou onde muitas cantoras brasileiras sonham chegar. Carminho, ou Maria do Carmo de Carvalho Rebelo de Andrade, uma fadista portuguesa de 29 anos, conquistou a nata musical do Brasil. De Chico Buarque ganhou, além de elogios, a oportunidade de gravar um dueto da clássica Carolina. De Milton Nascimento, arrebatou uma amizade e o convite para celebrar seus cinquenta anos de carreira. E levou Caetano Veloso às lágrimas, na entrega do último Prêmio de Música Brasileira.

A explicação para tanta emoção está na ponta da língua da cantora: “Portugueses e brasileiros, ambos temos o mar à nossa frente – o que nos torna muito nostálgicos e profundos na forma de sentir. Assim como acontece com outros povos que têm o mar, os portos e as partidas. Influencia o sangue e nos torna muito cúmplices dessa nostalgia”.

Sua relação com o Brasil vem desde a infância, quando se perdia nos discos de Elis Regina e Tom Jobim. A admiração pela arte brasileira é descrita como avassaladora. “Porque tem uma forma muito particular nos brasileiros, que contam as tristezas de maneira alegre. O contrário dos fadistas, que contam as alegrias quase chorando. Nós temos esse contraste muito grande.”

Além do sucesso no Brasil, ela acumula, é claro, muitíssimos fãs também em Portugal – onde acredita existir uma vontade entre os jovens de querer recuperar o fado. “É um movimento de recorrer às raízes e ir à procura da nossa identidade – acaba por ser uma forma motivadora de viver.”

A seguir, os melhores momentos do bate-papo com a cantora, que se apresenta em São Paulo dias 16, 17 e 18 de dezembro, no Tom Jazz.
Você é filha de fadista e já afirmou que cantar fado é algo absolutamente natural.

Sim. Minha mãe é fadista e, desde sempre, música é algo muito natural em casa. O fado, que para outras famílias da minha geração poderia ser um estilo musical mais antigo, na minha casa sempre foi muito normal.

Sente que, por ser algo tão familiar e próximo, tem uma carga afetiva maior? 

Claro, é uma música cheia de memórias. Quando eu tinha 3 anos, por exemplo, meus pais viajaram para o Algarve, que fica no sul de Portugal, e nos levaram, a mim e aos meus três irmãos. Lá, não havia casas de fado e minha mãe sentia-se um bocadinho com vontade de cantar e de ouvir. Então, organizava as sessões de fado lá em nossa casa. Por isso, desde muito pequenina ouvia os instrumentos, as fadistas, as conversas e aquele ambiente todo. Fui educada nessa linguagem.

É verdade que todos os quatro irmãos cantam? Cantam juntos?

Sim. Nós viajávamos muito de carro, porque minha família é toda de Lisboa e minha mãe ensinava, antes, não só os fados, como cantigas populares portuguesas. Ensinava-nos a cantar no carro – para não discutirmos e para que não fosse uma viagem infernal. Era a forma de ela nos entreter: cantando. E, sim, até hoje eu e meus irmãos cantamos juntos e temos uma grande relação, também por causa da música.

Você é uma cantora que representa uma nova geração. Acha que hoje existe uma recuperação do fado por parte dos jovens?

Acho que sim. O fado está em uma boa fase. As coisas se renovam sempre, e esse movimento é um retrato da própria sociedade portuguesa. O fado é uma música social, que conta o que as pessoas estão a viver. Acho que houve uma vontade de voltar às raízes.

Por quê?

Estamos a viver um período de grandes crises, não só econômicas, mas de valores e de identidade. Está muito complicado viver. Acredito que esse movimento de recorrer às raízes e ir à procura da nossa identidade acaba por ser uma forma motivadora de se viver. Por isso começou a aparecer esse público novo. Tem a ver com o fato de as pessoas se identificarem agora com esse “surgimento” da cultura anterior, da nossa própria identidade. Veja, apareceram lojas que reformularam e deram uma nova roupagem às nossas tapeçarias…

Azulejos…

Aos nossos azulejos, à nossa cerâmica. E tudo isso está a tornar-se outra vez interessante e outra vez muito procurado. Acho que tem a ver com essa forma de recuperar a alma. O homem precisa da alma alimentada. Grande parte da nossa alma está na nossa história e na nossa identidade.

Falando de alma, muitos músicos falam de uma esfera da música que é sagrada. Você acredita nesse aspecto divino?

Sem dúvida alguma. É uma linguagem que é um verdadeiro dom. O próprio ato criativo é algo que os artistas, muitas vezes, não conseguem explicar. Não sabem de onde vem, não se sentem responsáveis por ele. Sentem que é algo mais forte, que nos supera e acaba por se impor.

Você sente isso também?

Sim e, na verdade, também não sei explicar.

Caetano Veloso chorou ao te ver cantar. Como você reagiu?

Esse fato de fazer chorar alguém quando nós cantamos é prova da divindade da arte. Veja só: não posso dominar os sentimentos ou a vida do outro. As razões que o levam a chorar ou a sentir-se emocionado, não sou eu que controlo. Por isso sinto-me muito orgulhosa por saber que a minha arte se identifica com a arte do Caetano ou vice-versa. E que ele se emocionou porque entendeu algo do que fiz. Isso é uma grande honra, porque eu o admiro muito. Além de ser bastante motivador.

Motivador como?

Motivador porque, provavelmente, o Caetano já tem muitos anos desta vida e de ouvir muitos cantores. Não sei até que ponto é fácil para ele, depois de tantos anos, emocionar-se sempre. E isso deixa-me muito orgulhosa.

E quem te faz chorar?

Eu choro várias vezes quando ouço certos fadistas nas casas de fados cá, em Lisboa. São pessoas desconhecidas do grande público, mas que vivem essa linguagem de uma forma tão profunda e tão verdadeira, como eu acredito que é a linguagem do fado. É como se fosse o estado mais puro daquilo em que eu acredito acontecer.

E no Brasil?

Emocionei-me muito ao ouvir a Nana Caymmi cantar. Ela é uma intérprete com quem eu me identifico. É onde eu gostaria de chegar.

Você já afirmou que a música brasileira é muito importante na sua vida…

É uma relação muito forte, desde pequena. Ouvia Elis Regina, Chico Buarque, Tom Jobim, que eu já disse ter sido uma grande influência para mim. De fato, a música brasileira é uma grande inspiração, é riquíssima. Em termos harmônicos e melódicos. E nós, em Portugal, conhecemos muito a cultura brasileira, os cantores, seus repertórios. Minha admiração pela música brasileira é uma relação avassaladora, porque é muito original, traz as raízes do samba, conta histórias… E tem uma forma assim muito particular dos brasileiros, que conta as tristezas de uma forma alegre – ao contrário dos fadistas, que contam as alegrias quase chorando. Nós temos esse contraste que é muito grande.

Refere-se ao contraste que também encontramos em muitos sambas que têm letras tristes, mas ritmo alegre?

Sim, todos dançam e todos cantam em tons maiores, enquanto que nós cantamos alegria em tons menores. É muito característico das personalidades, dos povos. Mas ambos temos o mar à nossa frente e isso nos torna muito nostálgicos e muito profundos na forma de sentir. Assim como outros povos, que têm o mar, portos e as partidas. Tudo isso influencia o sangue e torna-nos muito cúmplices dessa nostalgia.

E sua amizade com o Milton Nascimento? Como tem sido a parceria com ele?

Milton Nascimento é um departamento à parte. Tenho cantado no palco dele e ele tem, generosamente, aberto as portas do seu coração. É muito generoso. Sua musicalidade é muito complexa, uma escola para qualquer músico. E ele possui um mundo intuitivo impressionante. Tudo aquilo é inato nele, foi gerado desde criança, sem a formação inicial que se pode ter. Ele é fantástico. Um ser escolhido para perfumar o mundo.

E você costuma ouvir música pop também? 

Escuto. Gosto muito. Gosto muito de Coldplay, de U2, de muitas bandas que vão chegando através da rádio. Bandas que se reinventam, porque, muitas vezes, o pop é repetitivo. Há muitas bandas que procuram soluções que são realmente populares (risos), que acabam por agradar sempre. E então, por que fugir dessa solução? Não que esteja errado, mas, muitas vezes, torna-se…

Descartável? 

Não diria apenas descartável, mas também cansativa. Por isso gosto de procurar os reais inventores das novidades da música pop. Gosto muito dos anos 80 e 90. Minha banda favorita é Queen, só que já é rock sinfônico, mas tornou-se quase pop. O fato de eles serem tão brilhantes e tão próximos do povo e do público explica por que continuam a ser uma banda revolucionária nos dias de hoje.

Com a crise em Portugal, como é a situação para os artistas? Isso se reflete diretamente na vida deles?

Não temos ministro da Cultura, portanto, sentimos que a atenção que o país dá, ou pretende dar, não é prioritária aos artistas. Porém, ao mesmo tempo, sinto que os artistas portugueses são bastante corajosos.

Em que sentido?

Os músicos acabam por depender deles próprios e de criar suas próprias condições e de produzir. E, apesar de ser difícil, a cultura é, de fato, a lenha que faz arder o coração do povo. Mesmo sem nada, continuamos a ter a nossa alma, e ela precisa estar alimentada, não é? Primeiro o corpo, depois a alma. Temos muitos exemplos de pessoas que conseguem sobreviver ou deixaram-se morrer porque a alma não está feliz ou não está saudável – ou não está alimentada. /MARILIA NEUSTEIN

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: