‘Reconhecer minha casa e minhas coisas é essencial para poder criar’

‘Reconhecer minha casa e minhas coisas é essencial para poder criar’

Sonia Racy

03 de agosto de 2015 | 00h30

Foto: Marcos Arcoverde/Estadão

Artista plástica das mais prestigiadas do mundo, Beatriz Milhazes comemora o documentário ‘Arquitetura da Cor’,
sobre sua obra, e conta por que nunca quis viver fora do Brasil

Há vinte anos Beatriz Milhazes se deu conta de que poderia deixar de trabalhar como professora e viver apenas de seu trabalho como artista plástica. Deu mais do que certo. Atualmente, ela figura no ranking dos artistas mais reconhecidos e prestigiados do mundo. Em 2012, seu quadro Meu Limão foi vendido por US$ 2,1 milhões na tradicional casa de leilões Sotheby’s, de Nova York. Em 2013 fez uma megaexposição – com 60 obras – no Paço das Artes, no Rio. E agora ganha um documentário para chamar de seu: Arquitetura da Cor.

Dirigido por José Henrique Fonseca e Priscila Lopes, com produção da Zola e coprodução da GNT, o longa será assistido, pela primeira vez na telona, por Beatriz, nesta quarta-feira, no Itaú Cultural. Para ela, foi um enorme desafio abrir seu ateliê, mostrar seu processo de criação no que chama de “intimidade”. No entanto, reconhece a importância da preservação da memória artística. “Como convidada para um projeto desses, pude ver o quanto é difícil realizá-lo de maneira interessante e completa”, afirmou em entrevista à coluna, por telefone, do Rio.

Mesmo sendo muito requisitada internacionalmente, a artista nunca pensou em morar fora do Brasil. “Para mim, sempre foi muito importante o reconhecimento de onde é a minha casa. Preciso do meu ateliê, de um local reconhecível onde ficam as minhas coisas”, explica. “Isso é essencial para que eu possa criar.” Em grande momento de sua carreira e prestes a expor pela primeira vez suas esculturas, em Nova York, ela vê com bons olhos o mercado de arte no Brasil: “Há incentivos diferentes, interesse das galerias e o principal: uma profissionalização crescente”. Abaixo, os principais trechos da entrevista.

Como foi, para você, tornar-se tema de um documentário?

A ideia do José Henrique Fonseca (diretor) era fazer um filme sobre minha obra com foco no meu trabalho. Desde o início, o objetivo foi registrar o máximo possível dos meus momentos, em situações variadas para mostrar como a obra – ou eu, como artista – passeamos no tempo, no Brasil e fora.

O processo foi contínuo?

Não exatamente. Mas desde então foi sendo feito um registro de situações variadas que, em função do desenvolvimento do próprio documentário, se faziam proeminentes. Para mim foi muito desafiador porque tive que mostrar como é o processo no ateliê, eu com a minha roupa de trabalho… Isso me assustou um pouco, mas conversamos muito e o diálogo com o José Henrique foi sempre fácil.

“NUNCA TIVE APEGO
ÀS MINHAS OBRAS. 
GOSTO DE ME COMUNICAR”
.

Acredita que o registro de documentários é importante para se preservar a memória artística do País? Não acha que há, no momento atual, uma deficiência dessas iniciativas?

Sim. Temos uma carência enorme. Além disso, como convidada para um trabalho assim, pude perceber o quanto é difícil realizá-lo de maneira interessante, bem feita e completa. Há um nível de complexidade que realmente precisa de investimento. E o Brasil ainda não tem, para isso, uma estrutura fortalecida. Por isso, a história vai se perdendo e essa preservação acaba por virar um projeto pessoal do artista. Alguns, que têm condições, realizam essas ações. Mas os que não as têm acabam se perdendo dentro da história da arte brasileira. Isso é uma tristeza.

Como organiza sua obra? Com a projeção internacional que tem, de que forma monta uma estrutura de organização, catalogação, preservação?

Por motivos vários, inclusive a internacionalização, tenho requisições que são muito exigentes. Eu já tinha o registro fotográfico de boa parte do meu trabalho, mas com o livro que a editora Taschen vai lançar no ano que vem – que terá 400 imagens – tive que estruturar ainda mais. Hoje tenho um bom banco de dados e uma estrutura montada para que qualquer obra que surja – que estava desaparecida – seja fotografada e incluída no meu arquivo. Entretanto, não existe uma estrutura governamental ou privada que realmente ofereça isso de alguma maneira para os artistas.

É necessária uma política de preservação mais consistente?

Sim. Uma política e desenvolvimento de programas, independentemente de quem esteja na direção de uma determinada instituição. Não se pode querer que algo seja patrocinado ou que existam verbas para instituições nas quais não há uma programação, uma política clara, ou diretrizes que corram o risco de se perder a cada gestão. Mas é preciso admitir que já melhorou muito. Há muitas iniciativas que são mal divulgadas. Um grande trabalho de arquivo de arte latino-americana está sendo feito, por exemplo, em Miami pela Cisneros Fontanals Art Foundation. Eles estão desenvolvendo materiais para pesquisa de estudantes, curadores ou interessados.

Qual foi o momento da carreira em que você se deu conta de que poderia viver só de arte?

Fui professora entre 1986 e 1996, no Rio. No início da década de 1990 comecei minha carreira internacional e meu trabalho começou a ganhar mercado através da galeria Camargo Vilaça. Finalmente, em 1996 – lembro-me exatamente do ano – me dei conta de que poderia parar de dar aula e começar a viver só do que produzia como artista plástica.

E, mesmo com a projeção que conseguiu no exterior, você nunca quis morar fora do Brasil.

Isso nunca passou pela minha cabeça. Engraçado… olhando para trás, eu penso: por que não? Mas acho que sempre foi muito importante para mim ter o reconhecimento de onde é a minha casa. Preciso do meu ateliê, de um local onde ficam as minhas coisas. Isso é essencial para que eu possa criar. Em artes plásticas existe até um romantismo em relação a isso. Artistas, ao longo da história, foram retratados como meio nômades… (risos). E há muitos que vivem desse jeito, possuem um ateliê em cada lugar. Não é o meu perfil. As únicas coisas que eu produzo fora do Brasil são minhas serigrafias – há mais de 20 anos elas são feitas nos EUA. No mais, meus projetos em arquitetura, os desenhos, são feitos e desenvolvidos aqui. Mesmo que sejam executados fora.

Como reage ao ver suas obras sendo vendidas e viajando pelo mundo? Já teve algum momento de apego a elas?

É engraçado… Nunca tive muito apego. Gosto da ideia de poder me comunicar. Um projeto, para um artista plástico, é uma coisa tão solitária… Eu acredito que a maneira de me comunicar com o mundo real, vamos dizer assim, é mostrando minha obra e também vendendo a alguém que esteja interessado. De alguma forma isso equivale a dialogar, discutir. Entretanto, é curioso que, recentemente, esse interesse, em mim, começou a diminuir. Estou tendo maior dificuldade, às vezes, de me desapegar, não sei se é pela história, pela idade, talvez uma fase. Mas é bem curioso.

Trabalhando fundamentalmente com pinturas, como enxerga a arte no espaço público?

A pintura sempre foi, e continua sendo, o centro do meu trabalho. Mas é algo que exige que eu esteja com todas as minhas baterias acesas. Por isso, preciso parar de tempos em tempos para respirar. Aí tenho a sorte de poder usar outros meios criativos que se tornaram importantes, como os projetos para ambiente de prédios. A maior parte desses trabalhos que produzi foram para museus e instituições, mas também já fiz para outros lugares – e trocar de universo é interessante, porque as pessoas se comunicam. Elas não estão ali, necessariamente, na expectativa de ver uma exposição de arte, mas são colocadas nessa situação. O espectador começa a lidar ativamente com aquele trabalho. E faz três anos, agora, que comecei a desenvolver escultura mesmo. E que vou mostrar pela primeira vez em Nova York, em outubro.

Com a internet, ficou muito fácil reproduzir e copiar obras. Recentemente uma artista colombiana acusou a grife Dolce & Gabbana de plágio. Como vê a questão dos direitos autorais?

A utilização de imagens criadas por um artista, sem autorização de quem detém o direito intelectual de propriedade, geralmente o artista, tem sido uma questão da vida contemporânea. Contudo, é muito complexa. Esse uso tem muitas variantes e modalidades e está relacionado à evolução do mundo digital e ao acesso a essas imagens na internet. Cada caso é um caso e deve ser averiguado como tal. O sucesso do artista pode atrair este tipo de interesse e, portanto, devemos acompanhar o que surgir e aprender a lidar com isso da melhor maneira possível. É sempre bom se aconselhar com um advogado para saber a melhor maneira de agir.

Com a presença que tem nos mercados internacionais de arte, como vê o atual momento do Brasil? Como artista e cidadã?

O mercado de arte vive um bom momento no Brasil. Existem incentivos diferentes, interesse das galerias e o principal: uma profissionalização crescente que faz com que o mercado fique cada vez mais forte e possa desenvolver um mundo mais rico e interessante para os artistas brasileiros. Além disso, sou do grupo dos otimistas. Acho que a tendência é sempre crescer, se alargar. O Brasil é um país muito complexo. Há momentos em que pensamos que está melhor, depois achamos que estamos andando para trás – é um processo cansativo, que parece sempre se repetir no País. Como cidadã, eu creio que o Brasil vem avançando, progressivamente, de uns 20 anos para cá. Estamos vivenciando momentos tristes da nossa história com o conhecimento público da má conduta de políticos e empresários. Contudo, acredito que isto faça parte de um processo de amadurecimento e fortalecimento da democracia, de um Brasil que precisa entender que o Brasil somos todos nós. / MARILIA NEUSTEIN