Receitas para um 2020 leve e sereno

Sonia Racy

01 de janeiro de 2020 | 14h38

Depois de um 2019 tão polarizado na política, nas redes e nos
costumes, como fazer do novo ano um tempo calmo, tolerante e cheio
de bons momentos? Três especialistas de diferentes áreas
contam aqui como evitar a impaciência, a angústia e as disputas
que marcaram o ano que passou.

 

SATYANATHA, MONGE
“A diferença entre conversa e discussão
é que, na primeira, as pessoas querem aprender.
Na segunda, apenas convencer.”

O ano de 2019 foi bem intenso. E 2020 não promete ser diferente. Que dica você dá para enfrentar o ano com leveza?
A leveza nasce da coerência interna, mesmo nos tempos difíceis. O mundo nos empurra para sermos incoerentes: falamos de paz e semeamos a guerra; prezamos a saúde mas não nos cuidamos; temos fé mas não acreditamos; amamos e ainda assim ferimos. Para ter leveza é preciso não perder de vista o todo. Porque mesmo em tempos difíceis há o que é bom. Olhar para dentro e diminuir essas incoerências internas requer coragem — e então traz uma leveza inabalável.

A polarização atual pode aumentar a ansiedade? Como diminuir a angústia?
Nunca estivemos tão polarizados porque desaprendemos a ouvir. A angústia nasce da desconexão, de nos sentirmos permanentemente atacados, de não sermos ajudados por quase ninguém. Eu, monge, não consigo diminuir essa angústia apenas com uma mudança de vista e com argumentos da vã filosofia. É o silêncio que cura o barulho, é o invisível que dá significado ao visível.

O que fazer para não entrar em discussões nas redes sociais?
Para não entrar em discussões, não entre em discussões. A diferença entre conversa e discussão é que na primeira as pessoas querem aprender; na segunda, apenas convencer. Quando alguém genuinamente quer novas informações e pontos de vista, conversamos. Mas quando a outra parte só quer convencer, fica evidente uma cegueira voluntária.

Como encarar os desafios sem se desrespeitar e nem desrespeitar o outro?
Vencer os desafios sem respeito é uma derrota. Respeito não é fazer o que o outro desejava — isso é apaziguamento. Respeito é fazer o que traz um bem à outra pessoa e a você.

Qual é a sua dica para 2020?
Medite sempre. Não porque precisa, mas porque você merece. Assim irá estar na sua melhor companhia — em sua melhor versão.

VANESSA HAIGH, MEDIADORA

“Dificilmente alguém escuta quando é atacado.
Pense em soluções que levem em conta aquilo que vai
de fato satisfazer todo mundo”

O ano de 2019 foi bem intenso. E 2020 não promete ser diferente. Que dica você dá para enfrentar o ano com leveza?
Ter clareza daquilo que é importante pra você – de verdade – ajuda a escapar da armadilha de entrar em brigas desnecessárias. O que é importante para você? Por quê? O que isto representa para você? O que você faz aproxima ou afasta do que é importante?

A polarização atual pode contribuir para o aumento da ansiedade? Como podemos diminuir a angústia?
Neste ambiente ninguém se ouve. É difícil, mas enxergar “a humanidade no monstro” e lembrar que o outro também está lutando por algo que é muito importante para ele nos ajuda a sair do ciclo de pensar com medo e então passamos a olhar para soluções. Outra boa armadilha para evitar é o jogo de descobrir de quem é a culpa. Geralmente esta é uma conversa que tem poucas chances de ser produtiva. Foque a energia no que se quer construir daqui para frente.

O que fazer para não entrar em discussões nas redes sociais?
Lembre que dificilmente alguém escuta quando é atacado. Leu algo que lhe fez ferver o sangue? Avalie se a sua resposta constrói algo ou é só mais briga. Se a intenção é agredir, pense se é essa de fato a contribuição que você quer dar.

Como encarar os desafios coletivos e individuais, sem se desrespeitar nem desrespeitar o outro?
Entre nas situações – seja uma conversa difícil com alguém, seja uma interação do cotidiano – com uma atitude positiva, que revele um desejo de cooperar, de achar uma solução que funcione para todo mundo.

Qual é a sua dica para 2020?
Saia de dentro do seu umbigo e as suas chances de ser ouvido serão maiores. Quer ser ouvido? Ouça antes. Quer falar? Deixe falarem antes. Descubra o que o outro realmente quer. Pense em soluções que levem em conta aquilo que vai realmente satisfazer todo mundo. Se for bom só pra um lado, dificilmente vai funcionar bem.

VALERI GUAJARARDO, PSICÓLOGA
Para os desafios coletivos precisamos todos
estar abertos ao diálogo e assumir que não há
uma verdade absoluta sobre nada.”

Que dica você dá para enfrentar o ano com leveza?
Acredito que é importante olhar para si, encontrar sentido em cada papel que você exerce no seu dia a dia e compreender o porquê de cada escolha feita. Ao observar e sustentar nossas escolhas estamos cuidando para que as exigências cotidianas não nos atropelem e, assim, podemos ter mais clareza e leveza para encarar a própria vida.

A polarização atual pode contribuir para o aumento da ansiedade? Como diminuir a angústia?
Com certeza a polarização atual contribui para o aumento da angústia e da ansiedade, ao trazer à tona conflitos que antes passavam despercebidos. Trate de ficar fora desse jogo de polarização – no qual ninguém escuta o outro e só predominam afirmações imperativas – ele é uma grande perda de tempo. Para diminuir a angústia precisamos considerar a individualidade e lembrar que cada sujeito tem sua opinião. Ou seja, que nós somos diferentes uns dos outros.

O que fazer para não entrar em discussões nas redes sociais?
Refletir sobre a verdadeira importância da discussão é fundamental para evitar conflitos desnecessários. Cabem as perguntas: O que você pretende ao entrar em discussões nas redes sociais? Onde você quer gastar seu tempo? Em uma discussão enriquecedora ou impor sua verdade? Vale a pena?

Como encarar os desafios coletivos e individuais, sem se desrespeitar e nem desrespeitar o outro?
Acredito que para encarar os desafios individuais é preciso se responsabilizar pelas próprias escolhas. É importante cuidar para que tais escolhas não se tornem imperativos da cultura e, assim, conseguirmos legitimar nossos desejos. Para os desafios coletivos precisamos estar abertos ao diálogo e assumir que não há uma verdade absoluta sobre nada.

Qual é a sua dica para 2020?
Cuidar da mente para lidar melhor com o estresse, com as tomadas de decisões. E ver como nos conectamos ao outro.

 

 

 

 

 

 

 

 

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