‘Recebo de 3 a 4 ameaças de morte por semana’, diz Marcelo D2

‘Recebo de 3 a 4 ameaças de morte por semana’, diz Marcelo D2

Sonia Racy

04 de fevereiro de 2019 | 00h15

Marcelo D2 / Foto: Denise Andrade

Vocalista do Planet Hemp virou influencer no Twitter durante as eleições

Marcelo D2 nunca fugiu de polêmicas nem se preocupou com a opinião dos outros sobre ele ou suas músicas. No entanto, durante a última campanha eleitoral, o vocalista do Planet Hemp ocupou outro lugar além do palco: as redes sociais. Com tom assertivo, o compositor quase dobrou seu número de seguidores no Twitter, hoje em torno dos 900 mil. Para D2, o papel do artista pode se misturar com engajamentos sociais e políticos. “Eu realmente queria participar um pouco mais ativamente do momento político do País, sabe? Acho que estamos caminhando por lugares perigosos. Nunca votei no Lula, mas em 2006 lhe escrevi uma carta cobrando ele sobre seu papel e acho que o meu papel como artista, o lugar onde eu mais me sinto bem, é esse: o da mobilização social para fazer arte. E a internet é boa pra isso”, revelou o cantor à repórter Marilia Neustein, em entrevista por telefone, direto do Rio de Janeiro.

Como todo influenciador digital, D2 também é vítima dos haters. O músico afirma sofrer de 3 a 4 ameaças de morte por semana. Mesmo assim, não se deixa intimidar: “Eu não tenho medo. Vou citar o Marcelo Yuka: “paz sem voz não é paz, é medo”. Entretanto, o músico diz se preocupar com os efeitos do discurso de ódio, muitos deles centrados nos artistas, espalhados nas redes sociais: “Vamos ter que lidar com uma onda ‘reaça’ que vai tentar desfazer os professores, intelectuais, os artistas – todo mundo que tem alguma cabeça pensante e que possa dizer o quanto é absurdo o que está acontecendo”.
Abaixo os principais trechos da entrevista.

“Amar é para os fortes” é o título do seu disco. Você afirmou que acha que é a frase que mais cabe para o momento. Por quê?
É uma frase que eu ouvi e achei bem interessante, porque estamos passando por um momento que parece o caos. As pessoas estão se alimentando muito desse caos. E não é só no Brasil, mas no mundo inteiro. A política está se alimentando disso: quanto mais odioso for o político, mais votos parece que ele tem. Está tudo muito triste, então acho que esse título caiu bem. Ainda mais que é meu décimo disco. Eu queria fazer algo relevante e fechar esse ciclo com algo que contasse uma história, que fosse especial.

É um projeto multimídia, né?
Sim. Escolhemos fazer assim. Com clipe, com exposição. Começamos no Rio, vamos para São Paulo e seguiremos em frente nesse projeto.

E como é que tem sido a resposta do disco?
Cara, eu estou achando ótimo, porque ganhamos alguns prêmios importantes. Por exemplo, o APCA de melhor artista no ano passado. Tenho a sensação de que é um disco mais maduro, porque quis fazer algo realmente à frente da minha carreira.

Tem muita gente que fica insegura de falar de amor. Você pôs o amor no título do seu CD. Qual a sua reflexão sobre essa palavra, já que você disse que o momento é de ódio?
O Marcelo Yuka (ex-integrante da banda O Rappa) costumava dizer que o contrário de amor não é o ódio, mas o medo. A palavra amor fica um pouco piegas, às vezes. Eu também acho. Mas perdi um pouco do medo de falar de amor e fui atrás disso. Você não precisa ser um cara bobinho para amar, entendeu? Acho que nesse caso do disco, então, o que estou falando é do amor ao próximo. Amor ao ser humano. Amar, estar próximo de você, proteger quem você ama.

Muitas das músicas do Planet Hemp têm um caráter politizado. Você está bem ativo no Twitter onde seu número de seguidores cresceu bastante. Como é que tem sido essa sua relação com o mundo digital?
O Chico Buarque uma vez falou uma parada interessante. Que, antes da internet, os artistas achavam que todo mundo os amava, aí depois, é aquela coisa… (risos). Eu realmente queria participar um pouco mais ativamente do momento político do País, sabe? Acho que estamos caminhando por lugares perigosos. Nunca votei no Lula, mas em 2006 lhe escrevi uma carta cobrando e acho que o meu papel como artista, o lugar onde eu mais me sinto bem, é esse: o da mobilização social para fazer arte. E a internet é boa pra isso.

Você acompanha os projetos que carregam suas bandeiras como a legalização das drogas e o desarmamento?
Olha, a ilegalidade das drogas é um absurdo. Essa violência que a ilegalidade das drogas causa, especialmente nas periferias, não tem cabimento. Ainda mais no Brasil, onde são mortas cerca de 30 mil pessoas por ano. E, no lugar de legalizar tomamos totalmente a contramão da história: armamos a população. Nesse aspecto acho que é preciso olhar os países que legalizaram as drogas e diminuíram a violência.

No debate político recente o artista ficou marginalizado por setores da direita que questionam o uso de leis de incentivo, por exemplo. Como vê isso?
Acho que faz parte dessa política reacionária diminuir a arte, os intelectuais, os artistas e a história. Botar tudo isso para baixo e usar um pouco da ignorância para nivelar tudo por baixo é a estratégia deles. Estou acostumado com isso. Tenho 25 anos de carreira e, durante todo esse tempo fui marginalizado. Fui preso no governo do PT e, mesmo assim, continuei lutando. Ao mesmo tempo, o Brasil é um país muito rico para quem faz arte. Agora vamos ter que lidar com uma onda reaça que vai tentar desfazer os professores, intelectuais, artistas, todo mundo que tem alguma cabeça pensante e que possa dizer o quanto é absurdo o que está acontecendo.

No seu processo de ocupar esse espaço digital no Twitter, você teve medo de receber alguma ameaça?
Cara, sou ameaçado todos os dias. Recebo de 3 a 4 ameaças de morte por semana, tá ligado? Mas tem muito falácia de internet também. Eu não tenho medo. Vou citar o Marcelo Yuka de novo: “paz sem voz não é paz, é medo”.

Do que você tem medo?
Meu maior medo é da mediocridade que está tomando o País. Parece que os idiotas, por serem muitos, estão ocupando
o poder. E o Bolsonaro, com sua família e todos os aliados, está se alimentando disso. Essa eleição deu voz para uma coisa terrível, violenta, cheio de preconceito homofóbico, racista, xenofóbico. Tudo de pior do que o ser humano vem tentando se livrar dentro da sociedade… Parece que agora isso está ganhando espaço. Esse é o meu maior medo.

A palavra de ordem da eleição foi segurança pública, um problema evidente do Rio de Janeiro. Como vê essa questão?
Eu concordo que a gente tem que olhar para a segurança pública, mas não acho que isso seja a coisa mais importante do mundo, não. Acho que a coisa mais importante do mundo, principalmente no Brasil, é educação.

E agora, aos 51 anos, com seu 10º disco, você fez algum tipo de balanço?
Pra caramba. Teve momento de intensa reflexão. Esse foi o meu achado: dizer que eu achei alguma coisa. Demorei muito para encontrar algo que realmente fosse relevante, que me inserisse no mundo. Eu me lembro de que, quando comecei a escrever as letras para o Planet Hemp, tinha uma sensação de que o mundo também era meu. Sou muito grato pelas pessoas que passaram pela minha vida. Estou começando a ficar mais velho e mais agradecido. Ao mesmo tempo, com mais vontade de criar.

Durante passagem pelo Uruguai, você encontrou o ex-presidente José Mujica. Como foi?
Vou ao Uruguai cerca de duas vezes por ano tocar. Em uma dessas passagens conheci o segurança pessoal dele e pedi para que ele me apresentasse. O encontro foi incrível, porque eu fui querendo falar sobre a legalização da maconha, perguntar como conseguiu legalizar e ainda assim fazer o país inteiro consumir menos. Só que esse acabou sendo um papo secundário, porque o Mujica é um humanista.

Sobre o que mais vocês falaram, além da legalização?
Sobre cuidar do outro. Quando perguntei sobre a legalização da maconha, ele falou para não me preocupar com as leis, mas me preocupar com o próximo. Mudar a cabeça do próximo, tentar convencer as pessoas da importância daquilo. Depois, a lei, no decorrer, vai acabar mudando. Foi assim que ele fez no Uruguai. Acho o legado dele naquele país impressionante. O povo uruguaio é muito consciente desse papel deles enquanto sociedade.

De alguma forma o título do seu disco é um pouco isso também, né?
Sim, tem tudo a ver com o Mujica, com o meu encontro com ele. Tem muita relação com você acreditar que realmente pode fazer um futuro melhor. E também de acreditar que a gente consegue mudar as coisas. Fiquei com essa sensação de que só o tempo é capaz de mostrar o quanto um lado é certo e o outro não é.

Você é um pesquisador dos ritmos musicais. Acha que essa sinergia nos ritmos brasileiros tem um caráter espiritual?
Não sou nem um pouco religioso, mas acredito nessa força, sim. Carregamos muita história dos nossos ancestrais. Eu acho que está tudo dentro daqui. Isso tem muito a ver com a minha música, com o que eu escrevo, com o que eu falo e com meu último disco.

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