Racismo em questão

Racismo em questão

Sonia Racy

30 Julho 2016 | 01h40

EXCLUSIVO DIRETO DA FONTE

A advogada americana Deborah Peterson Small fez rasante pelo Brasil esta semana. Diretora para assuntos legais da New York Civil Liberties Union e fundadora da Break the Chains – ONG que questiona o encarceramento da população negra americana –,ela deu palestras e visitou comunidades em SP, RJ e Salvador. Deborah conversou com a coluna, durante sua passagem pela cidade. Abaixo, trechos da entrevista.

Quais as suas impressões ao visitar as três cidades?
Os assuntos relacionados à violência, em especial, me chocaram. Nas favelas do Rio foi impressionante ver a ação da polícia comunitária. As UPPs deveriam representar um avanço, mas o que vi, por exemplo, foi um carro de polícia, fazendo sua ronda regular, com um policial segurando uma arma para fora da janela e o dedo no gatilho. Apontando para todos. Isso não pode ser considerado uma polícia comunitária. Porque passa uma mensagem perigosa.

Qual mensagem?
A de que todos os membros daquela comunidade são suspeitos em potencial. Ou criminosos.

Os EUA vivem um momento de tensão racial relacionada à violência da polícia. Acredita que um movimento como o Black Lives Matter poderia acontecer no Brasil?
Boa pergunta. O movimento foi organizado em parte como resposta à violência policial contra a população negra. Nos EUA a maioria dos policiais é de brancos, mas no Brasil a maioria é de negros. Isso dá uma diferença de perspectiva no conflito.

De que maneira?
O que acaba acontecendo aqui é algo que eu poderia chamar de “autogenocídio”. Nos EUA temos policiais brancos matando negros. Aqui são policiais negros matando negros. Então, para um movimento se desenvolver no Brasil seria necessário pensar o papel dos policiais negros nesse contexto. E, acima de tudo, refletir sobre o conceito de “solidariedade negra” que ocorre aqui, basicamente, em volta da cultura e da religião. É necessário aumentar o espaço de consciência negra.

O que achou sobre o discurso de Michelle Obama na Convenção do Partido Democrata?
Ela sempre faz bons discursos. O maior legado deixado por Michelle Obama será o de ter falado sobre nutrição. Porque as crianças negras não têm uma boa dieta – elas comem muito açúcar e muito sal. Isso impede a concentração e atrapalha no aprendizado. Então, acredito que esse tenha sido um grande movimento de inclusão e de educação./ MARILIA NEUSTEIN