“Hoje está todo mundo mal sexualmente”, reflete rabino Bonder ao lançar livro sobre cabala e sexo

“Hoje está todo mundo mal sexualmente”, reflete rabino Bonder ao lançar livro sobre cabala e sexo

Sonia Racy

29 de março de 2021 | 00h50

Nilton Bonder. Foto: Leo Martins

Rabino não ortodoxo em exercício há mais tempo em solo brasileiro, Nilton Bonder transcende as fronteiras do judaísmo. Com mais de um milhão de livros vendidos, consultado por Luciano Huck e outros famosos, lança, neste mês, Cabala e a Arte de Apropriação do Sexo, pela editora Rocco.

Bonder vê erotismo na genuína vontade de construir uma vida a dois – desde ter filhos, cachorros ou apenas momentos para constar em álbum de família – o que chama de nubilidade. “Há um desacolhimento no casamento, mas ele nunca perdeu o seu erotismo”, afirma, relativizando a sexualidade moderna e o estilo de vida que celebra a busca pelo prazer sexual. No livro, ele usa histórias e parábolas para ajudar as pessoas a se fazerem perguntas melhores e a se localizarem no xadrez de suas relações pessoais. “Já vi esse tabuleiro sendo jogado por muita gente.”

Para ele, hoje quem está no lugar de sair pelo mundo em busca de parceiros está mal. Quem está casado também vive situações exageradas, porque está preso em casa, com outra pessoa que tem hábitos, maneiras de ser diferentes. “Na pandemia, tudo fica exacerbado. Então, todo mundo está mal sexualmente”. Mas ele entende, porém, que “passar ao largo do sexo não atende a natureza”.

O rabino vê o sucesso da cabala como resultado da grande demanda das pessoas por significado profundo em suas vidas. “As pessoas estão preocupadas com libido e gênero, liberdade para o gênero e para libido. O nosso mundo não vive bem a sexualidade, apesar das pessoas transarem muito mais ou nem sei se transam. E existem tantas outras possibilidades de viver isso virtualmente, sozinho, dá menos trabalho, custa menos, tem menos chance de dar problema”.

Na congregação que lidera no Rio, onde homens e mulheres desempenham papéis semelhantes no serviço religioso, acumula a experiência de lidar com casais em todas as fases: os que vivem a epifania do sim que sela o enlace; os que passam pela crise de meia-idade; os já nos dissabores da separação e ainda aqueles que perderam o cônjuge após uma vida inteira. A seguir, os principais trechos da entrevista à repórter Paula Bonelli, por videoconferência.

Sexo tem a ver com religião? Como seria isso?

Tudo. Eu sei que a gente tem muito essa noção que vem do celibato, de que o sacerdote tem que ficar longe da sexualidade para poder ser uma pessoa espiritualizada, mas isso não tem nada a ver com a tradição judaica. O rabino é obrigado, literalmente, a ter uma vida sexual. A obrigatoriedade de satisfazer o seu parceiro é parte do vínculo do casamento. Claro que a conotação muitas vezes é ligada à maternidade, à procriação, não tanto nessa mentalidade moderna de sexo livre para aproveitar a vida. Mas está contemplado ali que é desumano ao ser humano não ter uma dimensão de sexualidade saudável.

Seria porque é próprio do humano não querer ficar só, procurando o sexo então com o fim de mitigar a solidão?

Um pedaço da sexualidade é isso. Eu estou tentando trazer alguns elementos que são bastante novos. A sexualidade tem quatro componentes: a libido, a intimidade, gênero e um quarto que é da ordem espiritual, a nubilidade, que seria traduzido como casamento, mas é mais profundo porque é um lugar onde você deseja construir alguma coisa permanente com o parceiro, onde você quer ancorar filhos, uma casa, um futuro, mais segurança de contar com alguém. Essas quatro dimensões são eróticas. O gênero é a escolha deliberada de quem é seu parceiro e que passa a fronteira do sexo binário. E a nubilidade é um elemento bastante novo de olhar, o desejo de se casar é erótico.

O modelo do casamento vive sendo questionado.

O gênero é questionado pelos mais conservadores. Os mais liberais questionam normalmente a nubilidade, dizendo que ninguém precisa mais disso, que são construções do passado, uma maneira de oprimir. Ou as pessoas que simplesmente querem dizer, “eu não quero ter filhos, quero viver, ser solteiro, essa é minha escolha”. O mundo hoje tem uma questão com a nubilidade. Tão grave no sentido oposto, de desacolhimento do casamento, mas a nubilidade nunca perdeu o seu erotismo.

O que acontece quando as pessoas se casam e não são núbeis?

Elas não estão tendo literalmente prazer em se entregar daquela maneira, em querer fazer essa aposta, não têm tesão nisso, vão começar a contrapor dizendo “caramba, por conta do casamento agora vou ter que conter a minha libido, vou ter que segurar outras coisas que eu gostava de fazer. Esse casamento terá muita dificuldade de sobreviver com o passar do tempo. A característica da nubilidade não é tanto o parceiro ser bonito, ser gostoso, tem prazer nos aspectos espirituais, mas é tão prazerosa do ponto de vista do gozo nos seus aspectos espirituais como é fisicamente a libido.

O casamento estaria então mais ligado à procriação, ao afeto ou ao prazer?

A sexualidade é a maneira pela qual a natureza faz você querer sexo. A natureza quer. Assim como a natureza quer que você tenha fome e coma, e fique vivo, a natureza quer que você goste de sexo, que sexo esteja presente.
Muitos estão preocupados, cansados, vivendo ao largo do sexo. As pessoas estão doentes?
Não, doentes não, a gente tem que cuidar, porque a sexualidade está ligada à mãe natureza. Ela é conectada com a alegria, com a ambição. Se não cuidar da sua sexualidade, você deprime.

Nessa sua reflexão, o prazer erótico não se limita ou não à relação sexual?

Existem casais que às vezes tem pouca sexualidade libidinal nesse lugar físico, então têm relações físicas uma vez por mês, semestre, na última década, mas muitos casais têm prazer erótico, excitação núbios. O indivíduo que transa toda noite, ele olha para esse casal e diz, “coitados deles”. Mas talvez eles tenham uma relação de sexualidade mais adequada e extremamente ativa, porque ali existem aspectos de intimidade muito mais ricos.

Existem diferentes maneiras de construir o desejo sexual?

Sim, vai construir pela ambição, o desejo de achar que um parceiro que seja esse sócio sexual da sua existência. Isso é recorrente. Tem pessoas que se rebelam, pensam não vou cair nessa armadilha.

O que acontece na pandemia com os dois desejos, o de estar junto e o sexual?

A pandemia é um momento grave, em que todo mundo ficou restrito, limitado, em carência total. Quem está nesse lugar de sair pelo mundo em busca de parceiros está mal. O lugar das nubilidades ficou muito exagerado. Os aspectos negativos, o fato de ter que morar com alguém que tem hábitos, tem maneiras de ser diferentes, e você tem que acomodar. Tudo isso fica exacerbado. Então todo mundo está mal sexualmente.

O casamento oferece uma identidade?

Dá uma identidade, dá raízes, e dá continuidade, ancestralidade. Porque pare para pensar o que vai acontecer com esse todo mundo dizendo “eu cuido de mim, tá muito bom, deixa comigo…” Não tem ancestralidade. Todo mundo nasce de alguém, mas não tem esse lugar que era das fotografias da vovó e do vovô. Quando tem filhos, dentro dessa construção, você entrega para eles uma riqueza de propósitos, tem ramificações por todas as áreas da vida. Há uma riqueza gigantesca nessas construções de nubilidade.

E o que você acha desse consumo da cabala hoje, o qual às vezes não é muito espiritual, é uma coisa meio da moda?

A cabala virou Coca-Cola, Pepsi-Cola, entendeu? Existe uma demanda real, não quero menosprezar essas experiências, mas existe uma demanda das pessoas por propósito, por significado nas suas vidas, até porque o individualismo empobreceu as pessoas e elas não se dão conta disso.

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