“QUERO VER OS MEUS FILHOS CRESCEREM”

“QUERO VER OS MEUS FILHOS CRESCEREM”

Sonia Racy

11 de junho de 2012 | 11h11

Giba fala sobre o fim de seu ciclo na seleção e o futuro fora das quadras

Nos últimos vinte anos, sempre que a seleção brasileira de vôlei precisa da bola de segurança, lá da linha dos três metros surge Gilberto Amauri de Godoy Filho, destroçando as defesas adversárias.

Prestes a participar de sua última Olimpíada, Giba (que guarda em casa um ouro e uma prata, conquistados em Atenas e Pequim) está tranquilo. Aos 35 anos, o camisa 7 do Brasil ainda se recupera de operação na tíbia – que lhe deu uma haste de titânio e o tirou das primeiras rodadas da Liga Mundial –, mas já tem tudo planejado: deixará a amarelinha para as novas gerações depois de mais um ouro em Londres, antes que seus filhos passem a chamá-lo de tio. “Fico muito tempo longe deles”, explica. “Quero vê-los crescer a partir de agora”. Nicoll tem 7 anos; Patrick, 3. São frutos do casamento com a também jogadora de vôlei Cristina Pirv, romena que ele conheceu quando ambos jogavam pelo Minas. “Mas só começamos a namorar quando fui para a Itália e nos encontramos outra vez”.

Curado, ainda bebê, de uma leucemia, Giba parece ter o DNA da vitória. São sete ouros na Liga Mundial, mais três em Campeonatos Mundiais e outros dois em Copas do Mundo – sem falar nos três títulos de MVP (melhor jogador). Este paranaense de Londrina pretende se dedicar, assim que pendurar as joelheiras, ao marketing esportivo. E também a seus projetos sociais em Curitiba. Mas, antes, cumprirá um ou dois anos de contrato com o Drean Bolivar, equipe argentina que tem tudo para ser sua última bola de segurança.

Por telefone, de Saquarema, onde treinava para voltar ao ataque, Giba conversou com a coluna. A seguir, os melhores momentos da entrevista:

Além desta na tíbia, houve alguma outra lesão importante na sua carreira?

Só entorse de tornozelo, que é algo comum em jogadores de vôlei. Esse problema que eu tive agora é o primeiro em 24 anos de vôlei e 20 de seleção. Sou um cara bem abençoado.

É verdade que você caiu de uma árvore quando criança e ficou um ano inteiro sem jogar?

Foi em Londrina. Coisa de moleque, estava brincando de esconde-esconde. Eu tinha 10 anos, o galho da árvore quebrou. Só que, por causa da queda, fiz um corte no braço que ia do cotovelo até o pulso. Eu já jogava fazia um ano no Canadá Country Club e fiquei outro ano inteiro me recuperando, sem poder jogar. Graças a Deus não afetou nenhum tendão, nenhum movimento.

Os torcedores veem você como o espírito da seleção há muito tempo. Vai mesmo parar após as Olimpíadas, independentemente da cor da medalha?

É um plano de carreira que eu fiz pra mim. E um plano de vida também. O dia a dia na seleção toma muito tempo. Antes que meus filhos comecem a me chamar de tio (risos), é melhor o pai voltar para casa.

Depois do ouro em 2004 e da prata em 2008, o que está projetando para 2012?

A gente sempre pensa em medalha de ouro, pensa em ser campeão. Acho que é o normal para uma equipe com tantos títulos, né? Se você fizer a conta, nos últimos onze anos, só não estivemos no pódio uma vez – infelizmente, foi logo na Liga Mundial de 2008, no Rio de Janeiro. Em 2008, trouxemos de Pequim uma prata que, para nós, é muito honrosa. É preciso lembrar a geração do Bernardinho, chamada de “geração de prata”, que era fantástica. A gente quer ser conhecido como “geração de dois ouros e uma prata”.

Como é na sua cabeça parar na Olimpíada que antecede os Jogos no Rio de Janeiro?

Não tenho dúvidas de que chegaria bem em 2016. Fisicamente, dá. Mas quero estar no Rio fazendo outras coisas ligadas ao vôlei. Por isso, venho estudando marketing esportivo, administração esportiva, que é o que eu gosto de fazer. Porque, imagina: são mais quatro anos, eu estaria perdendo quatro anos (que poderia dedicar a esse projeto profissional) e também tirando a vaga de um menino que está começando – gente como o Mauricio, o Lucarelli e o Thiago Alves, que jogam na minha posição e estarão no auge do vigor físico em 2016. É todo um conjunto de fatores que me levaram a tomar essa decisão. E um dos fatores mais importantes (eu falei brincando, mas é uma realidade) é que meus filhos estão crescendo e eu estou perdendo isso, não estou conseguindo acompanhar. Quero ser pai um pouco (risos).

O Patrick está aí com você?

Ele veio trabalhar comigo (risos). Está no maternal, então ainda pode perder alguns dias de aula. Mas a Nicoll ficou com a mãe. Estamos passando a semana dos meninos aqui em Saquarema (risos).

Depois de deixar a seleção, você vai para a Argentina, jogar no Drean Bolivar. Como é este teu contrato?

Assinei por um ano, com opção de mais um ano – tanto para o clube quanto para mim. Acho que vai ser muito bom, os argentinos gostam do vôlei brasileiro. Quando fui para lá fazer a coletiva de imprensa da minha apresentação, senti uma receptividade muito boa, senti que estavam felizes. Tenho certeza de que posso ajudar bastante.

Vai se mudar com a família?

Já estamos vendo casa, escola. Depois da Olimpíada, vamos todos para lá. No começo do ano que vem a gente já terá noção se ficaremos mais um ano. O importante é que a base da família estará junta.

Fora das quadras, já fez algum contato para a nova carreira como gestor/administrador?

Ainda não. Estou estudando bastante essa parte administrativa, até porque vai ser um novo mercado, completamente diferente do que fiz a minha vida inteira. Na verdade, é como o próprio voleibol: é preciso se preparar muito para poder entrar em quadra e jogar. Mas tenho certeza de que as portas estão abertas no COB, na CBV, nos lugares por onde passei e continuo passando. Fiz muitas amizades, incluindo o presidente (Carlos Arthur) Nuzman e o Ary Graça.

Nesses 20 anos de seleção brasileira, há algum momento que você considere especial?

Ah, não tem como eleger um só… Todos os momentos foram importantes. Até porque tudo na minha carreira aconteceu muito rápido. Em 1992, eu estava na seleção de base; em 1993, joguei o campeonato mundial infanto-juvenil – fomos campeões e eu fui eleito melhor jogador. Em 1994, joguei o campeonato sulamericano e, atuando pela Cocamar, a primeira SuperLiga. Tinha 16 anos. No ano seguinte, joguei o mundial juvenil e acabei como melhor jogador. Aí, fui direto para a seleção adulta. Enfim, foi tudo muito rápido.

Seu primeiro técnico foi o José Roberto Guimarães?

Isso, depois o Radamés Lattari, que lançou os moleques todos (risos). Com o Bernardinho é que a gente começou a ganhar títulos. Por isso eu digo que é difícil escolher um momento especial. Minha vida toda na seleção foi especial.

Bernardinho é tão nervoso fora da quadra quanto dentro?

Não é, não. Se fosse, ninguém aguentava ele (risos).

É um incentivo para ganhar em três sets?

Quanto mais rápido a gente ganha menos a gente ouve (risos).

Pensa em ser técnico?

Não, mas… nunca diga nunca, né? Meu objetivo, depois de parar, é me tornar gestor. Após 20 anos ajudando dentro da quadra, quero ajudar também fora da quadra, com toda a experiência que acumulei.

O Ricardinho está de volta à seleção. Como foi essa ausência de cinco anos? E o que esperar?

Olha, o que passou passou. Tudo que a gente decide na seleção, decide de portas fechadas. Acho que esse foi um dos segredos do sucesso nos últimos anos: essa união. Todos nós sofremos muito com o episódio na época, até pelo fato de ele ser um excelente jogador. Por outro lado, somos funcionários de uma “empresa”, que seguem ordens. Com certeza, sentimos muita falta dele nesse tempo todo. Eu conheço o Ricardo há 22 anos e fico muito feliz com a sua volta. É um cara experiente, um dos melhores levantadores do mundo.

Algum companheiro, nessas duas décadas, te dá saudade de jogar junto? Aalguém que tenha te influenciado?

Eu tenho uma admiração muito grande pelo Carlão, que era o capitão da seleção na geração de 1992, medalha de ouro em Barcelona. Tive o prazer de jogar com ele pelo Brasil e também dois anos em clubes – na Chapecó, em Santa Catarina, e no Olympikus, no Rio de Janeiro, entre 1996 e 1997. Era um ícone de garra e de força. Um cara em que eu me espelhei muito quando comecei a jogar.

Paralelamente à sua atuação pela seleção, você mantém projetos sociais. Como será depois que se aposentar?

Terei mais tempo para me dedicar, tanto ao Leões do Vôlei (que eu mantenho com o Emanuel, do vôlei de praia) quanto ao Instituto Giba 7. Eles ficam em Curitiba. A partir do ano que vem, pretendo colocar em prática uma série de ações do Instituto, voltadas à melhor idade e à formação de atletas. Já o Leões do Vôlei a gente começou em 2006. Temos um convênio com a Secretaria Municipal de Esportes e atendemos cerca de 700 crianças entre 6 e 14 anos. Eu e o Emanuel nos conhecemos em Curitiba, ainda garotos. Quando tivemos de decidir o que fazer no vôlei, ele correu para a praia e eu fui para a quadra.

Pensa em fazer algumas partidas na praia?

Não é a minha praia (risos).

Fora da quadra você sempre fez muitos comerciais, se tornou praticamente um galã. Pretende aumentar o portfólio?

(risos) Com certeza. O modelo americano de marketing é o ideal para o mundo esportivo, porque o atleta se torna um ídolo e essa imagem se transforma em um produto. Por isso, inclusive, sempre me preocupei muito com a minha imagem fora das quadras. E, ao longo da minha carreira, tive a sorte de trabalhar com grandes empresas. Nunca fui de fazer um monte de contratinhos – procurei sempre assinar contratos grandes. Já estou com o Banco do Brasil há oito anos, com a Olympikus há 14 e, agora, fiz uma parceria com a Technos, que inclui Dia dos Namorados e mais uma série de iniciativas. Um ponto fundamental é saber a quem você empresta sua imagem, porque não se trata só de valores financeiros, mas também de valores nos quais você acredita.

E TV? Já pensou em se tornar comentarista profissional?

Olha, não seria o meu foco principal. Mas já fui comentarista, a convite de algumas emissoras, e gostei. Tenho muitos amigos na TV, feitos ao longo dos anos. Enfim… é preciso ver o que vai acontecer depois que eu pendurar as joelheiras (risos). /DANIEL JAPIASSU

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.