‘Quero refazer o show no Rock in Rio’, diz Brown, prestes a estrear nona temporada de The Voice

‘Quero refazer o show no Rock in Rio’, diz Brown, prestes a estrear nona temporada de The Voice

Sonia Racy

13 de outubro de 2020 | 07h36

Carlinhos Brown. Foto: Vitor Polack/Globo

Carlinhos Brown faz pelo menos oito testes para detecção de covid-19 por mês. Um quando sai de Salvador e outro quando chega ao Rio, para gravar o The Voice Brasil, uma vez por semana. Esta é a nona edição do programa que volta ao ar no dia 15. Junto com os colegas Michel Teló, Iza e Lulu Santos, o músico tem novamente a missão de encontrar e (treinar) um novo grande talento da música brasileira. “A gente não está lidando com um programa de calouros, estamos lidando com pessoas exitosas. Vamos dizer assim, é a resistência do canto”, explica Brown. O cantor também avalia a experiência de rejeição que teve no Rock in Rio, em 2001, como ‘histórica’. Na ocasião, Brown foi atacado ostensivamente com garrafas e latas por fãs que, em sua maioria, aguardavam o show do grupo americano de rock Guns N’ Roses. “Eu achava que aquele show ia mudar a minha vida e de verdade mudou”, diz. Leia abaixo a entrevista.

O programa já está no ar há bastante tempo e tem bons números de audiência, mas nenhum ganhador fez um sucesso estrondoso depois da participação. Na sua opinião por que isso acontece?

Porque o público ainda não entendeu que o poder é dele. Ele acaba não seguindo o artista depois que passa pelo The Voice. Tem muita gente que imaginava, ‘ah, eu vou entrar no programa e no outro dia eu vou fazer muito sucesso, eu vou ficar rico’. Com certeza faz sucesso, quem cantava em casamento tá cantando em ainda mais casamentos!

Existe muita cobrança nesse sentido? 

O sucesso é muito cobrado no País. Só que cantor, compositor, músico e artista plástico dá igual jaca no morro do Rio. É tanto que neguinho passa e nem liga. Também não é uma responsabilidade do programa. A TV expõe mas as gravadoras têm que dar continuidade. Por que é que nunca teve uma turnê de participantes do The Voice?

Você já chegou a propor isso formalmente? Uma turnê? 

A gente às vezes fala, mas fala e fica en passant. Eu acho que a carreira passa por uma consistência analógica, não eventual. Ela precisa existir sempre. Acho que se desperdiça um pouco do potencial de um semifinalista, que poderia ser um grande sucesso. O público pode ter uma outra oportunidade de ouvir, eu acredito até que essas gravações poderiam inclusive ser ao vivo.

 Então existem falhas, de alguma forma? 

Com todo o respeito estou falando isso como opinião pessoal, peço licença aos meus líderes, que são pessoas de extrema qualidade. Acho que essa questão não é nem da televisão, isso deve ser de responsabilidade da companhia que fica responsável pelo artista.

O programa remete, de certa forma, aos festivais de música e programas de calouros transmitidos pela televisão nos anos 1960 e 1970. 

Sim, totalmente. Essa televisão espelhou várias gerações, sobretudo a minha, no modo como os jurados devem se portar… Eu me apaixonei pela televisão mas no meu bairro, na época, nem tinha luz, só tinha de fiação. Então, só tinha como ver os programas por um senhor chamado seu Joel, que era esposo da parteira, da mamãe do Carmo. Ele consertava vários aparelhos de TV e ligava todos virados para as janelas para as crianças do bairro assistirem. Isso pra mim foi de extrema importância porque eu nasci numa roça santeira, vamos dizer assim, uma roça espiritual, então nem tudo era possível, nem tudo era possível de se fazer.

O que é que te fez permanecer tanto tempo como técnico do programa?

Paixão pela música. Não existe emoção mais bonita do que você ver emoções derramadas ali, surpreendentes. Tem pessoas que escolhem mostrar algo musicalmente e terminam mostrando uma história pessoal que também é a história do outro… Essa é a emoção. Tem a emoção que não há diretor, não há credo que controle, não há Boninho que controle.

Você acha que, com todo esse tempo na televisão, o público em geral mudou a opinião que tinha sobre você? 

Não vou mentir não, mudou sim. Acho que mudou muito. Uma das coisas foi mostrar que um semianalfabeto pode ser um comunicador. De forma alguma isso me diminui, mas eu tive que aprender muita coisa. Eu tinha que ter aquele raciocínio para dizer o que estava na minha alma. Fui buscando ali minhas brincadeiras, minhas formas, respeitando os meus amigos… E de uma forma que fosse alegre, mas não histriônico, porque é um trabalho de equipe.

Você é super envolvido com o carnaval da Bahia. Na sua opinião qual vai ser o impacto do cancelamento para a população local? 

Qualquer que seja, seria algo ainda pior, em termos de irresponsabilidade, fazê-lo. Mas, claro, é um baque. Na hora certa, em que for seguro, vamos fazer um ‘aglomeraval’. Vai ser um carnaval com esse nome, ‘aglomeraval’. Celebrar respeitando a dor daqueles que perderam os seus. De certo modo é necessário olhar pra frente. Só que não agora. Temos que respeitar a OMS, o Butantan, o trabalho dos grandes médicos que temos. Só se a gente for burro para não perceber o que realmente é necessário. O que me estranha nisso tudo é que muita gente esteja fazendo seu carnaval particular por aí. Esse pessoal com máscara no queixo…

 Acha que algo vai mudar na música depois da pandemia? 

A verdade virá puramente como arte, é o que cada um tem. Assim como uma vacina segura pra covid-19 vai ser descoberta ao longo do tempo, qual será a música segura pra se ouvir? Qual é a melodia intencional? O que realmente eleva a alma e o que realmente alegra? O que realmente agrada na música popular brasileira é, de fato, o que é profundamente brasileiro ou aquilo que aproxima o Brasil das estéticas externas?

Olhando à luz da sociedade que temos hoje, como todos os avanços em questões sociais e de responsabilidade com o outro, como revê o episódio no Rock in Rio (em 2001), em que você foi vaiado e atacado pelo público com garrafas? 

Eu achava que aquele show ia mudar a minha vida e de verdade mudou. Eu entrei usando uma saia, usando um cocar e com uma música que dizia ‘a namorada tem namorada’. E eu tinha todo aquele sonho, de que estava no lugar certo e na hora certa. Acredito que isso estava na minha expiação, estava no meu caminho artístico de viver, senão também eu não seria quem sou. E jogaram muitas garrafas, mas nenhuma me feriu, em nenhum momento nenhuma das latas me feriu. E, por outro lado, as pessoas do público eram também crianças, eram adolescentes. Não sei se hoje seria diferente.

Acha que a questão da letra da música foi algo que influenciou nessa reação? 

Acho que sim. Eu já encontrei pessoas, que eu não vou revelar o nome, que me disseram ‘poxa, Carlinhos, eu joguei lata em você, mas depois assumi a minha sexualidade’. Isso tudo fez parte da minha construção como artista. Hoje, pra mudar isso, eu tenho a maior vontade de refazer aquele show no Rock in Rio./MARCELA PAES

 

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