“QUERO LEVAR A POESIA DE PESSOA E VINÍCIUS AO DIVINO”

“QUERO LEVAR A POESIA DE PESSOA E VINÍCIUS AO DIVINO”

Sonia Racy

05 de novembro de 2012 | 11h02

PAULO GIANDALIA/ESTADÃO

Alexandre Borges fala sobre seus próximos capítulos, o amor pela família e vaidade

Objeto de desejo das mulheres desde sempre, Alexandre Borges agora é também venerado pelos homens. Todos querem ser o Cadinho de Avenida Brasil, personagem que se casou, no último capítulo da trama de João Emanuel Carneiro, com três mulheres no Divino. “A paixão genuína dele por suas musas conquistou o público”, explica.

Aos 46 anos, este santista radicado há quase duas décadas no Rio de Janeiro está ainda mais apaixonado. Volta aos palcos paulistas dia 12, abrindo as comemorações do Ano Brasil-Portugal no Teatro do Sesi.

O novo projeto se chama Poema Bar e reúne poesias de Vinícius de Moraes e Fernando Pessoa. “Foi um presente que me dei”, diz Alexandre.

Em meio aos ensaios, o ator conversou com a coluna no mezanino do hotel Maksoud Plaza, em São Paulo.

Depois do Divino, para onde você pretende ir?

Vou retomar a peça Eu Te Amo, do Jabor, a partir de dezembro. Mas minha prioridade, agora, é o Poema Bar.

Como é o espetáculo?

Desenvolvi o projeto com o João Vasco, pianista português clássico, grande músico. Somos, ambos, movidos pela poesia do Fernando Pessoa e do Vinícius de Moraes. Estreamos em Lisboa, no ano passado, na Casa Fernando Pessoa. Depois, fomos para a Alemanha. No Brasil, a intenção é, principalmente, levar o show às comunidades carentes. Também em 2011 fizemos no Morro do Vidigal, no Rio. Foi um sucesso. Agora estamos retomando, já pensando em 2013, ano do centenário do Vinícius.

Você morou no Porto?

Foi um período de muitas mudanças, quando descobri Fernando Pessoa. A poesia dele me marcou muito. Foi em 1989, eu tinha 23 anos. Pessoa tem esse lado da poesia existencial, assim como Vinícius. Eles falam do dia a dia, dos porquês, das decepções, das nossas fraquezas, de fracassos e comemorações. E ambos têm aquela coisa meio boêmia, daí o nome do espetáculo.

Antes da parceria com o Sesi, quem pagava?

Eu (risos). Posso dizer que foi algo que eu me dei de presente. Porque é um trabalho que me dá muito prazer. A cada leitura, a cada novo poema que eu descubro, vou me sensibilizando, encontrando reflexos novos.

O término de um processo de meses em uma novela é um baque para o ator?

É um alívio. Mas eu não sofro muito, não. Faço a comparação com um avião de passageiros. O momento crítico é a decolagem. Se o voo foi tranquilo, se você curtiu a viagem, a hora da aterrissagem é muito prazerosa. O mais legal é ver o sucesso do trabalho, as grandes interpretações dos seus companheiros de set. O Miguel, meu filho, que tem 12 anos, dançava as músicas da novela… É bacana ver esse tipo de interação. Porque a TV aberta é uma massa muito grande de gente, né?

Quais as tuas influências?

Nossa, são tantas! Os grandes atores, Tarcísio Meira, Francisco Cuoco. Quando a Globo anunciava novela com eles era um delírio: “Lá vem o Tarcisião!”. Mas tem também os comediantes, Grande Otelo, Oscarito, Chico Anísio, Jerry Lewis. Aprendi e continuo aprendendo com todos eles.

Sua estreia na Globo foi na minissérie Incidente em Antares, em 1994. Na hora de contracenar com Fernanda Montenegro, Paulo Goulart, Gianfrancesco Guarnieri, o que passou pela cabeça?

Não posso gaguejar. Não posso errar a minha fala. Mas tive a sorte de ser escolhido para o trabalho por um gênio chamado Paulo José. E pelo Carlos Manga. Também já fazia teatro há mais de dez anos, havia trabalhado com o Zé Celso. Já tinha feito cinema – Mil e Uma, com a Susana Moraes. Agora, é claro que rola um flashback quando você dá de cara com essa turma. Acho que o fundamental quando você recebe um convite como esse é levar consigo tudo que há na bagagem. Naquela hora, por exemplo, eu tinha ao meu lado o Zé Celso, o Boi Voador, o curta-metragem que eu fiz na USP, tudo.

Você já trabalhou com muitos grandes autores e diretores de novelas. Está faltando quem?

Tive muita sorte, trabalhei com a Denise Saraceni, em Engraçadinha; depois fui fazer A Próxima Vítima, do Silvio de Abreu, direção do Jorge Fernando, com quem eu repeti a parceria no remake de Tititi. Com o Ricardo Waddington eu fiz Laços de Família. Também trabalhei com Manoel Carlos, Gilberto Braga… Com o Benedito Ruy Barbosa eu ainda não tive a chance e gostaria muito, sou fã dele. Os Imigrantes foi um marco para a minha geração.

Prefere drama ou comédia?

Na minha fantasia mais juvenil, acho que o drama romântico me pega mais. O sofrimento por amor (risos). Já a comédia tem uma coisa muito espontânea minha. Se, na primeira leitura, eu pego o humor do personagem… vira um moto-contínuo.

Quando você percebeu que Avenida Brasil poderia se tornar o sucesso que foi?

Na primeira semana no ar. Eu disse: “Caraca, que novela é essa?”. Por tudo: pela direção, pela produção, pelo elenco e… por causa daquela garotinha, a Mel Maia, que é maravilhosa. As pessoas se comoveram muito por causa dela, o que foi um combustível extra para a novela.

O teu personagem era um tanto perigoso. Ficou com medo de cair no ridículo ou no grosseiro?

Acho que o que pegou foi a transformação dele em símbolo do homem em busca de suas musas. Porque são amores genuínos. O cara é apaixonado o tempo todo: “Pelo amor de Deus, não me separem das minhas mulheres!”

Você também é um apaixonado em tempo integral?

Sou. Dou muito valor ao que eu passei, às amizades que eu tive, às novas amizades, a tudo que essa profissão me dá, à minha família – meu filho, a Júlia (Lemmertz, com quem é casado desde 1993), minha mãe. Ligo para saber a opinião da minha mãe…

E ela dá pitaco?

Muito! Fala muito! Eu tento nunca me esquecer do que já vivi, porque isso faz parte de quem eu sou. Sem apelos psicanalíticos, freudianos, mas meus pais se separaram quando eu era garoto, então passei a dar valor às pequenas conquistas.

Tem algum trabalho novo com a Júlia na pauta?

Temos muita vontade, até porque não trabalhamos juntos há algum tempo. Tenho muita admiração pela Júlia, desde antes do Hamlet do Zé Celso, que foi quando atuamos lado a lado pela primeira vez. A partir do momento em que o Miguel nasceu, em 2000, a gente mudou o rumo, porque achamos que, se pegássemos um mesmo trabalho, ambos estariam ausentes de casa em horários parecidos. E isso não ia ser legal.

Você foi sempre objeto do desejo das mulheres. Agora, é também dos homens, que querem ser o Cadinho. Como se mantém em forma?

O importante é você se sentir bem e fazer o que quer. “Ah, hoje não estou a fim de correr”; “Hoje vou ficar em casa comendo pipoca e vendo um filme com o Miguel”. O Rio é uma cidade que ajuda, né? Você cruza a rua e está na praia, fazendo exercício. E a Júlia se preocupa muito com alimentação, tem uma formação natural.

Continua no caratê?

Sim, já faz uns seis anos. Caratê Shotokan, com o sansei Inoki. É um momento que eu curto muito, porque tem a questão da concentração e da disciplina. E a figura do mestre, uma outra linguagem. Fora a parte física.

O mestre via a novela?

De vez em quando, depois de uma série de flexões, ele falava (imitando o jeito oriental): “Esse Cadinho é safado mesmo, né? Homem não presta!” O caratê acaba sendo uma válvula de escape.

Em que faixa você está?

Roxa. Faltam a marrom e a preta. Mas nunca vou chegar nelas. Acho até que a roxa eles me deram porque eu sou um cara fiel, que se esforça.

Considera-se vaidoso?

Tenho aqueles momentos em que acende a luz vermelha. Quando engordei, preciso tomar sol ou fazer uma limpeza de pele. Autoestima é uma coisa importante. Quando o homem se dá conta dessa imagem exterior, a autoestima ajuda a manter a saúde. Apesar de que o reflexo no espelho é influenciado pelo que você está sentindo.

O problema é que a vaidade é cara, não é?

Mas o brasileiro tem uma alegria que ajuda muito. /DANIEL JAPIASSU

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