‘Quero investir no etanol de milho nos EUA’

‘Quero investir no etanol de milho nos EUA’

Redação

12 de janeiro de 2009 | 06h00

Foto: Clayton de Souza/AE

Alheio às convenções do ramo, Rubens Ometto, o Binho, não perde o gosto por investir. Agora procura parceiro lá fora para entender o mundo do etanol americano

Se a controvertida reestruturação acionária da Cosan ou a perda na disputa pela Vale do Rosário não gerou maiores impactos em Rubens Ometto de Silveira Mello, controlador do grupo Cosan, tampouco a atual crise internacional gerará. É o que se pode deduzir da conversa-almoço que o empresário teve com a coluna, ao lado de seu fiel escudeiro Bob Coutinho.

Não está se sentindo um homem de sorte, por não ter adquirido a Vale do Rosário e ter hoje dinheiro em caixa? “Olha, a gente não vê as coisas assim. Eu queria mesmo é ter comprado”, rebate Ometto, para quem o verdadeiro empresário tem que ser corajoso. Nunca se contentar com o que já fez.

Calmo, direto nas respostas, Ometto não poupa concorrentes ou quem quer que seja. Em pleno período de crise mundial, acaba de voltar de negócios nos EUA. “Quero investir no etanol de milho. Com um parceiro local”, explica. Isto mesmo, milho. Para quê? “Para entender a logística e distribuição que pode ser padrão para o etanol de álcool”, explica, apostando no mercado americano. E, diferentemente de alguns de seus pares, não acredita no produto E-85 (mistura de 85% de etanol e 15% de gasolina), que engatinha naquele país. “É um mercado ainda pequeno. Só depois de ganharmos o mercado grande, que tem distribuição montada, é que poderemos olhar isso.”

E mais. Apesar de elogiar a Unica, associação do produtores de açúcar e álcool, por sua “fantástica” estratégia internacional, ele acha que a entidade tem que focar na rentabilidade do setor. “Neste momento, não é isso que vai fazer a gente ganhar dinheiro. Não adianta termos fama de rico e sermos pobres. Estamos em uma crise e a Unica tem que cuidar, agora, de preço e produção.” Aqui vão os principais trechos da conversa:

Como a Cosan se preparou para essa crise? A Cosan enxergou a crise vindo. Mas também tivemos muita sorte. Fizemos um lançamento de ações em Nova York e, quando a crise veio, estávamos com caixa alto e sem dívidas. Captamos mais de US$ 3 bilhões. E hoje temos US$ 1,2 bilhão no caixa.

Como vocês resistiram à tentação dos derivativos tóxicos?
Nós não jogamos. Sempre acreditamos que toda empresa é construída degrau a degrau, tijolo a tijolo. Não tem a grande jogada. A grande jogada é quando você vai escrever um livro e floreia e conta papo.

Esse mundo das ilusões financeiras acabou? Ah, acabou. Graças a Deus. Vejo o mundo novo com mais responsabilidades. Quando vejo a revolta dos americanos com esse dinheiro do bônus dos executivos, eles têm toda a razão. O sistema de remuneração que eles montaram, se o sujeito fazia uma bobagem, perdia o emprego. Se ganhasse, ganhava 10, 20 milhões de dólares. Então ele jogava. Foram eles que criaram esse sistema, que ia alavancando.

Por que o Brasil não importou esse modelo? Primeiro, porque o sistema financeiro brasileiro é muito mais controlado. E não deu tempo. Ia chegar lá. Você não sabe o que era contratar executivo do mercado financeiro.Ninguém queria. Eu tenho um rapaz que cuida da gestão de recursos familiares. Qualquer menininho recém-formado queria ganhar US$ 1,2 milhões por ano, e todo mundo atrás.

Como é o sistema habitual do Brasil? Você segue parâmetros em função da performance da pessoa e da empresa. Não chega a 10 salários a mais… E eu, como presidente da companhia, avalio a performance de cada um e passo uma bonificação, que não é estatutária, não é direto adquirido.

Até a crise, vocês sentiam falta de mão de obra especializada, de engenheiro e tal. E hoje em dia? Há muito concorrente em dificuldade. Todo mundo tirando o pé do acelerador, revendo os projetos de investimento. Pode sobrar gente no mercado.

É a época de ir às compras? Interessa investir em infraestrutura? Estou montando a maior empresa de logística da América do Sul, com transportes ferroviários, armazéns, os dois melhores terminais de açúcar de Santos. Nosso projeto de investimento é R$ 1,5 bi. Mandamos R$ 400 milhões para comprar terras.

Você teria condições de contratar um CEO e aproveitar a vida. Qual é o desafio que o move? E difícil explicar. Se você pega a foto de uma criança e depois vê ela mais velha, é a evolução, eu tenho isso no sangue. Eu gosto de empreender, de investir , trabalhar. Na Cosan eu fiz de tudo, desde cortar cana, esporte, nasci na usina, mas não sou agricultor, não gosto de andar a cavalo. Mas eu gosto de empreender, de fazer negócio. Hoje eu montei a Cosan com três presidentes. Pedro Misutani, que cuida da parte operacional, o Marcos Lucas, que cuida da logística e comercialização, o Paulo Diniz é o CEO. E ainda o Marcelo Corelte, na parte jurídica e societária, e o Bob Coutinho, que é o nosso intelectual.

Qual seria o critério se tivesse que escolher alguém para o seu lugar?
Em primeiro lugar, quero um cara ansioso. Quem não é ansioso não vai pra frente. E precisa ser vaidoso, se não for também não vai pra frente. Mas não pode ser uma vaidade fútil. Eu não sou falso, não – sou ambicioso e ansioso. O cara que quiser ocupar o meu lugar tem de ser assim também.

Qual o maior defeito em um executivo? Excesso de confiança. Todas as porradas que tomei na vida foram em momentos em que achei que era o dono da cocada preta. São épocas em que você acha que é deus. Você não pode achar que o seu adversário não joga, que ele não pensa e que ele não é tão competente quanto você.

O que é a morte para você? O fim de tudo. Mas eu não penso na morte, ainda que morra de medo de morrer. Eu já tive síndrome do pânico. Fiquei deprimido, comecei muito cedo, na escola, no grupo escolar. Eu acordava às 4 da manhã para fazer lição. Queria chegar à escola já sabendo o que ia ter.

Em termos empresariais, aonde você quer chegar? Não existe isso. No caminho, quando a gente está chegando lá, coisas melhores aparecem. Eu nunca imaginei que ia comprar a Esso.

Vocês vão vendê-la para a Shell? Besteira. A Cosan sempre teve um relacionamento próximo da Shell. Fizemos um contrato de cinco anos quando foi privatizada a comercialização de álcool. Ela se interessou em conhecer a produção, analisar um possível investimento minoritário na nossa usina.

E os seus próximos passos? A Cosan vai consolidar a Esso, tem espaço pra crescer, deve chegar em R$ 14 bilhões. Vai se tornar um dos maiores grupos em faturamento do Brasil. O time da Esso é de primeira linha.

O petróleo está despencando. O que vai acontecer com o álcool? A gasolina será mais barata?
São duas coisas: a Petrobrás, obedecendo ao governo, mantém o preço de petróleo sem essa volatilidade. O petróleo baixou, o câmbio subiu e isso amortiza um pouco. Eu acho que não vai mudar já porque esperam isso atingir um patamar e sedimentar. O álcool é competitivo em torno dos US$ 45 ou US$ 50. Ele ainda é competitivo nesse nível. O setor deixa muito dinheiro na mesa porque o preço médio do álcool, a paridade térmica, é de 65% ou 70% do preço da gasolina. O álcool é vendido a 60%. Portanto, existe ainda um colchão.

Vocês não temem que o preço caia para US$ 30? Isso é bobagem… Se ocorrer, vai gerar uma onda tão grande de consumo que vai provocar a busca de investimento na exportação de petróleo. Aí ele volta logo. Até ajuda em termos de mercado. O álcool já está sedimentado. Já nos EUA é diferente.O mercado de álcool americano é mandatório, eles têm que misturar. O consumo de álcool lá é de 600 milhões de litros, eles não têm tudo isso, a gente vai continuar exportando.

Você é um executivo online?
Não, se você fica online fica muito nervoso, sem estratégia de médio e longo prazo. Se eu pensasse no curto prazo não teria comprado a Esso.
Você tem algum plano pra 2009, de redução de custo? Sim, redução de custo, renegociando os investimentos.

Demissões não estão ainda no seu horizonte? Não, não estão. Mas o problema está vindo indiretamente com a mecanização agrícola – que, aos poucos, a gente está usando.

Você é um apaixonado pelo business do açúcar? Sou um apaixonado por business. O destino me colocou açúcar e álcool. E eu aproveitei. Comecei na Votorantim, poderia ter ficado lá. Gosto do garapão, mas o que me move é o empreendedorismo.

Qual é o seu prazer? Criar. Você nunca faz um negócio pensando só no que vai ganhar. Lógico que tem que dar um retorno para rentabilizar o negócio. Só houve uma vez na vida em que fiquei desesperado para ganhar dinheiro. Fiz bobagem. Toda vez que você faz um negócio para ganhar dinheiro, toma na cabeça.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.