‘Quero bons personagens, para crescer como atriz’

‘Quero bons personagens, para crescer como atriz’

Sonia Racy

10 de julho de 2017 | 00h13

Foto: Fabio Bartelt

Aos 30 anos, a sereia de A Força do Querer
conta como foi viver uma ‘digital influencer’ no cinema
e o que espera de uma possível carreira
nos EUA: lá ou aqui, ela quer papéis que a ajudem a evoluir

Isis Valverde se considera “meio hippie”, mas diz estar tomando gosto por moda. Segundo ela, todos os que a conhecem estão reparando no estilo que a atriz passou a adotar quando não está com a cauda de sereia que compõe a personagem Ritinha, protagonista de A Força do Querer. “Quando nos vestimos, estamos mostrando nossa personalidade”, explicou. “Não enxergo mais como futilidade”, afirmou em entrevista por telefone à repórter Sofia Patsch.

Ainda assim, Isis disse não chegar aos níveis da personagem Katrina, a glamourosa web celebridade que interpretou no longa Amor.com. “O ator faz um personagem e continua a vida real lá, sem glamour. Mas quando você é seu próprio personagem, tem que passar por cima de muita coisa”, refletiu sobre a profissão de ‘digital influencer’, durante break no ensaio de fotos que fazia para a Malwee, no Rio – marca da qual é garota propaganda.

Aos 30 anos, a atriz diz estar vivendo uma profunda fase de autoconhecimento. “A idade me trouxe muita segurança, mas muita insegurança também. Sinto que é um momento de andar para frente”. Quanto à profissão, Isis não tem dúvida de estar no caminho certo. “Nunca seria outra coisa a não ser atriz. Graças a Deus consegui sobreviver numa coisa que amo, e isso é raro”.

Recentemente ela assinou contrato com o agente hollywoodiano Brent Travers – o mesmo que cuida da carreira internacional de Wagner Moura – e não descarta papéis nos Estados Unidos. Mas o que ela quer mesmo é interpretar bons personagens, “seja em Los Angeles, no Rio ou na Bahia”. Confira trechos da conversa a seguir.

Você deu vida a Katrina, uma digital influencer no longa Amor.com. O que acha dessa ‘nova’ profissão’, a de influenciar as pessoas através das redes sociais?

É uma profissão meio ingrata, exige uma perfeição que não existe. Todos nós temos defeitos, dias em que a gente não está disposto. Ator é diferente, faz um personagem e a vida real continua lá, sem glamour. Mas quando você é seu próprio personagem, tem que passar por cima de muita coisa, estar ao lado de pessoas das quais você talvez nem goste. É complicado estar bem o tempo todo, sempre linda, viajando com cabelo pronto, maquiagem feita. Eu sou meio hippie, tenho preguiça, mas o filme me fez ficar mais próxima desse mundo da moda.

De que forma?

Quando nos vestimos estamos colocando nossa personalidade para fora, é a nossa assinatura. Me senti seduzida pela moda por ser uma forma de me expressar e não a enxergo mais como futilidade, como muitos ainda enxergam. Por isso mesmo considero a profissão dessas influencers até agressiva. As meninas passam, principalmente no início, por cima de muita crítica, muito julgamento, até por parte dos maridos e da família.

O filme a fez respeitar mais esse universo da moda então?

Me trouxe um gosto pela moda. Estou mudando meu estilo. Estou em um momento de revisitação, me preocupando mais em como vou me apresentar, em relação ao dia a dia mesmo. São mudanças que fiz para mim mesma. Todo mundo que me conhece está reparando.

Muitas colegas suas são atrizes e digital influencers. Encararia o desafio?

Adoro as redes sociais. Mas nunca passou pela minha cabeça. Não posso dizer que nunca seria. Nunca seria outra coisa a não ser atriz, porque amo minha profissão. Não trocaria por nada. Graças a Deus consegui sobreviver em uma coisa que amo, e isso é raro. E é uma profissão muito difícil também.

Atrizes estão sempre muito expostas. Como lida com haters?

Hoje até o porteiro tem hater. Isso não é mais só problema de quem é famoso. A sua vizinha vai ter gente que entra em seu Instagram e a xinga. Isso já tomou outro caminho, as pessoas já entenderam o que é, que tem essa máfia, essa galera que fica ali despejando ódio em cima de outros que nem conhecem direito. E faz parte desse mundo em que a gente está vivendo agora, uma segunda vida dentro de um celular, o que para mim também é muito novo. Sou da época do celular tijolo. Da época em que a internet fazia barulho para conectar. Tem que tomar cuidado e ficar atento, principalmente com essas crianças que estão vindo aí apaixonadas por esse aparelho que você lhes mostra quando elas estão chorando e elas riem. É sério! A parada é feia.

Você é uma atriz assediada e tudo que faz parte da sua vida pessoal interessa ao público, o que já lhe custou alguns contratempos. Como lida com esse lado da fama, dos paparazzi?

Tenho milhões de defeitos e isso faz parte. Lógico que às vezes fico mal-humorada em relação a algumas coisas, alguns lugares a que quero ir. Mas como eu falei: faz parte! E eu não posso lutar contra essa parte. É o reconhecimento do meu trabalho e não tem jeito. Então aprendi a separar o joio do trigo. Acho que o mais importante é saber separar a vida profissional da pessoal e saber seu limite.

E acha que as experiências que passou com o lado ‘ruim’ da fama já serviram de lição para aprender qual é o seu limite?

Eu estou aprendendo, a cada ano que passa a gente aprende mais, revê os valores e vai descobrindo até que ponto chega. Na vida vão mudando os dados e você vai mudando junto o seu ponto de vista. Graças a Deus, né? Já pensou, nascer e morrer com o mesmo ponto de vista?

Como se sente aos 30 anos?

É uma fase de autoconhecimento muito profunda, sabe? Você começa a entender melhor os seus quereres, os seus medos e assim se aceitar melhor. Acho que é um momento em que a mulher está no auge da sua beleza, feminina pra caramba e mais segura sobre o que quer. Me trouxe muita segurança, mas muita insegurança também. Sinto que é um momento de andar para frente e não retroceder.

Recentemente você fechou contrato com o agente Brent Travers, de Los Angeles, o mesmo do Wagner Moura. Pretende seguir carreira internacional?

Estou com o Brent, ele está com esses planos de eu ir para Los Angeles. Mas ele sabe que estou mirando bons personagens, seja aqui ou lá. Faltou em um lugar, vai ser em outro. Desde que eu tenha possibilidade de crescer como atriz. O ator é isso, esse desdobramento. Fazer a mesma coisa cansa. Quero abrir um leque bem largo, seja em Los Angeles, no Rio ou na Bahia, estou dentro.

Seu inglês é bom?

 Meu inglês é bom. Não tenho muito o sotaque americano. Me formei em inglês em NY, mas preciso voltar para lá e estudar mais um pouco.

O que acha dessa polêmica de as mulheres ainda pagarem menos que os homens na entrada das baladas?

 Não tô sabendo disso, não.

Essa semana o Ministério da Justiça decretou que é ilegal cobrar preços diferentes para homens e mulheres entrarem nos locais de entretenimento.

 Por causa do feminismo? A verdade é a seguinte: a mulher sai para a noite para dançar, já o homem sai para paquerar, para caçar, então acho justo eles pagarem mais que a gente (risos). Não, é brincadeira! Não vejo problema em pagarmos o mesmo que eles, sério. Tem igualdade de gêneros, de direitos, está tranquilo.

Se considera feminista?

Totalmente.

Já se sentiu inferiorizada por ser mulher alguma vez?

Muitas vezes. Sempre fui uma menina meio menino, pegava onda com os moleques, brincava só com homem e sempre me sentia desafiada. Eles diziam: “Você é mulher, não vai conseguir”. E eu ia lá e sempre conseguia. Gosto desse desafio.

Você está interpretando uma sereia na novela Força do Querer. De que maneira encara essa situação?

Acredito na energia da água. Sempre acreditei, desde novinha. Em todas as energias do planeta Terra, na verdade. As árvores, a mata, cada parte carrega uma energia e a água sempre foi a que mais me atraiu. Não sei por quê. Acho que tem que perguntar para o universo, né?

É verdade que você tem medo do mar?

Não. Tenho medo é das ondas e não do mar.

Por quê?

Quando tinha 12 anos o mar me levou. Tinha bastante onda e ele me carregou. Sabe quando você não consegue encostar o pé no chão? Aí me deu um desespero, a praia foi ficando longe, e eu fui sumindo ali. Comecei a pedir, rezar, falei pelo amor de Deus, não me leva não! E acabou que eu consegui voltar. Mas eu fiquei com essa coisa com as ondas.