“Quer me baixar? Me baixa, mas com dignidade. Em alta resolução”

“Quer me baixar? Me baixa, mas com dignidade. Em alta resolução”

Direto da Fonte

03 de junho de 2013 | 01h00

Tulipa Ruiz (Foto: Iara Morselli/Estadão)

Concorrente ao Prêmio da Música Brasileira e prestes a embarcar em turnê internacional, Tulipa Ruiz acredita que o download é o início da relação com o artista.

Não é novidade que Tulipa figura entre as cantoras mais queridas da atualidade. O público lota seus shows, e a crítica exalta esta paulistana que morou boa parte da vida em Minas Gerais: “São Paulo é uma cidade que permite muitas leituras. Sempre que viajo, sinto saudade daqui”, conta.

A cantora já quebrou o mito de que quem faz sucesso no primeiro trabalho não consegue se manter. Depois do premiadíssimo disco Efêmera, Tulipa colhe agora as loas de seu segundo “filho”, Tudo e Tanto. Concorre na categoria de melhor cantora de pop & rock no Prêmio da Música Brasileira, apoiado pela Vale, onde também emprestará sua voz à interpretação de Garota de Ipanema – dia 12, no Teatro Municipal do Rio.

No dia seguinte, parte para turnê internacional: Alemanha, Portugal, Itália e o mais esperado, o Festival de Montreux, na Suíça. Ali, toca na mesma noite de uma de suas maiores referências, Gal Costa – “feliz demais, com o coração na boca”.

Em meio à agenda agitada, a cantora recebeu a coluna em um restaurante no bairro de Higienópolis, onde vive. Contou que prepara também o lançamento de seu último disco em versão vinil. Sobre o tema da mudança dos formatos das mídias musicais, se define como um perfil “híbrido”: “Baixo disco, compro vinil, MP3 e CD”, revela. “O download é um início de relação com o artista.” Tão convicta é sobre o assunto que disponibiliza seus discos para o público na internet. “Prefiro concentrar toda a informação, para manter a qualidade. Quer me baixar? Me baixa, mas com dignidade. Em alta resolução”, explica, bem-humorada.

Abaixo, os melhores momentos da entrevista.

Do primeiro para o segundo disco, o que mudou?

Acho que, agora, estou mais segura – até por ter feito muitos shows. Na primeira vez em que saí do Brasil, por exemplo, para mim foi muito estranho. Ver que era uma representante da minha cultura, uma pequena embaixadora, que tinha de falar sobre cultura brasileira, sobre a situação atual do Brasil, samba, Tom Jobim, Bossa Nova. Essa responsabilidade, num primeiro momento, me deixou muito apavorada. Mas, aos poucos, você vai tirando de letra. E também entende que, em alguns lugares, eles enxergam a música brasileira como ‘world music’.

E a turnê internacional?

Estou animadíssima. Não conheço Berlim. E Montreux é um festival importantíssimo, que tem toda uma história. Meu pai, que toca comigo, está maluco para ir.

Você vai cantar na mesma noite da Gal, uma de suas maiores influências, em Montreux. Quer mandar algum recado para ela?

Estou feliz demais com esse convite. Afinal, é o grande e histórico Festival de Montreux! Tocarmos na mesma noite será, para mim, algo grandioso também, da maior importância. Meu recado é: “Gal, feliz demais e com o coração na boca”. Vai ser, com certeza, uma noite linda.

Você escolheu São Paulo para ser sua cidade. Não foi para o Rio, que é um caminho muito comum aos músicos. Acha que a cena musical paulistana está crescendo, está mais interessante?

Cresci ouvindo a música daqui. É uma referência muito forte para mim. Meu pai fazia música, meu irmão também. Daí, conheci as meninas que eram da DonaZica – a Anelis Assumpção, a Iara Rennó e a Andréia Dias. Acho a cena paulistana incrível.

Por falar em São Paulo, a Virada Cultural gerou grandes polêmicas este ano. Como artista, o que acha que eles podem melhorar na organização? Gostou da curadoria colegiada?

A Virada Cultural ocorre em São Paulo desde 2005 e vem melhorando cada vez mais sua estrutura. Está longe de ser o ideal, mas considero uma grande realização da Prefeitura. A ideia de termos 24 horas de programação cultural gratuita é incrível e deveria ser replicada durante todo o ano. Uma das maiores críticas foi a falta de segurança. Porém, foi o primeiro ano em que as atividades foram realizadas no centro, atraindo a população da cidade inteira. Isso significa mais de três milhões de pessoas nas ruas. Criou-se uma situação na qual havia pouca segurança, e a enorme desigualdade social que vivemos ficou evidenciada. Sobre a curadoria, acho válido. É um grupo de profissionais especializados, o que torna a seleção mais democrática. A programação foi bem diversificada, alternando grandes e novos nomes da música. Quanto à organização, achei que o atraso na divulgação dos artistas selecionados foi prejudicial para todos. Deveria ser mais formal, com uma lista de selecionados e suplentes. Afinal, trata-se de dinheiro público. Até a última hora, muitos artistas não sabiam se iam tocar na Virada ou não, inclusive eu. Alguns nomes foram divulgados  precipitadamente, por sites não oficiais, antes da seleção final.

Uma crítica da Virada também foi que a curadoria teria escolhido só uma “panelinha” de artistas. Você concorda? Aliás, acha que existem mesmo “panelinhas” no meio artístico?

Não concordo. Acredito que essa tal “panelinha” seja formada por nomes que estão presentes hoje na mídia ou já são queridos pelo público. A “panelinha” se renova constantemente. E há sempre gente nova com trabalho bom aparecendo por aí. O papel de uma curadoria é identificar esse panorama.

Acha que existe amor na cidade de São Paulo?

São Paulo é um lugar que permite várias leituras. Sempre que viajo sinto muita saudade daqui. Isso é amor.

Você sentiu um ‘boom’ depois que uma música sua entrou na novela Cheias de Charme?

Logo que a música começou a tocar na novela, fizemos um circuito nos CEUs de São Paulo. Acho que 70% das pessoas não me conheciam, mas todos foram ao show por causa da música da novela. O alcance é realmente enorme.

É um público que não necessariamente se identifica com você…

Exato. E esse jeito de entrar na casa das pessoas – que acompanham a vida dos personagens – é muito interessante. Eu entrei de um jeito diferenciado na casa da minha própria avó, que já conhecia minha música.

Como você encara a pirataria?

Tenho um pensamento meio desorganizado sobre isso. Eu baixo disco, compro vinil, MP3 e CD. Meu perfil pode ser considerado híbrido. Como público, se acho uma banda interessante, procuro o disco para baixar. Acho que o download é o início de uma relação com o artista. Se gosto, vou atrás do disco. E viro consumidora.

A internet democratiza?

Sim. Eu não abandonei o CD. Mas, por exemplo, tenho uma prima de 13 anos que só escuta música no YouTube. Ela nem baixa.

Está mudando.

Eu queria liberar o download do meu disco, só que o disco chegou antes de eu organizar meu site. E percebi que minhas músicas estavam sendo baixadas, com uma resolução horrível, em outros sites. Isso me deixou desesperada. A gente tem tanto cuidado para gravar um disco, escolher microfone… para o cara ouvir em baixa resolução? Por isso, preferi concentrar toda a informação, ficha técnica, o encarte do disco, tudo comigo. Quer me baixar? Me baixa, mas com dignidade. Em alta resolução. Acredito que o download impulsiona as vendas do disco. Não acho que quem baixou meu disco está me ferindo. Está é me conhecendo. É um “oi, tudo bem?”.

Tem algum repertório de outro artista que você gostaria de interpretar?

Em algum momento da minha vida, vou fazer um show bem intimista, cantando o disco Court and Spark, da Joni Mitchell. Nem que eu esteja muito velhinha (risos).

E agora, o que está ouvindo?

Estou em uma fase portuguesa, escutando algumas bandas de Portugal. E, desde o ano passado, venho escutando o disco do Gui Amabis, Trabalhos Carnívoros. E meus discos de cabeceira.

Quais são?

Vão ser para sempre. Joni Mitchell (Court and Spark e Blue); e tem um do Wings, banda do Paul McCartney, que se chama Wild Life, que eu amo, escuto sempre, direto. Ah, e qualquer mixtape que eu tenho de fazer – ou então discotecar em alguma festinha – está lá. Eu acho que sou a DJ mais repetitiva da face da Terra.

Lenine já afirmou que a música é um mistério. Concorda com ele? Que o processo é realmente misterioso?

Comecei a respeitar a música quando entendi que ela tinha alguma coisa com o sagrado, que eu deveria respeitar e “ritualizar” isso. O palco é um lugar de poder. Às vezes, quando não “ritualizo” tanto, fico com a consciência pesada. Descobri isso quando fazia uma série de shows no Grazie a Dio e minha avó virou e me disse: “Depois do show, Tulipa, você tem de ficar sozinha por uns três minutos. Respira um pouco. Tenha esse momento de silêncio com você”. Então, hoje em dia, minha relação com a música é muito mais de devota do que de praticante./MARILIA NEUSTEIN

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