‘Quem faz teatro no Brasil é um sobrevivente’, diz Jorge Takla

‘Quem faz teatro no Brasil é um sobrevivente’, diz Jorge Takla

Sonia Racy

23 de julho de 2019 | 08h30

Foto: Iara Morselli/Estadão

Jorge Takla dirige óperas há três décadas – e comemorou, no sábado, em grande estilo. Estreou o Rigoletto, de Giuseppe Verdi, no Theatro Municipal (fotos). Somando a atividade à experiência de 45 anos no mundo cultural, em especial no teatro, ele avisa: “Quem faz teatro no Brasil é sobrevivente”. Nesta conversa com a coluna, em sua casa nos Jardins, ele foi além. Num balanço em que destacou “uma lavagem cerebral que está minando a produção cultural”, concluiu: “A falta de cultura está no poder.”

Você está completando 30 anos de atividade comandando óperas. A receptividade do público para o gênero aumentou?

O cenário é muito diferente do que tínhamos quando comecei. E o que mudou? Foram as condições de se fazer ópera, impulsionadas por um público que se mostra cada vez mais ávido. Antigamente, o Municipal apresentava 10, 11 óperas por ano… O Theatro Municipal é um teatro de ópera, tem seus corpos estáveis, seu próprio balé, coro, duas orquestras – e todo esse elenco trabalhava o ano inteiro, diante de plateias lotadas. Hoje temos cada vez mais público e cada vez menos óperas.

A que atribui essa mudança?

A vários fatores. Não há mais dinheiro, os governantes não estão interessados nisso, aliás não estão interessados na cultura em geral. É uma realidade. Daí, quando aparece um Rigoletto, abre-se a bilheteria pra temporada e no dia seguinte os ingressos já estão esgotados. Tem noção do que é isso? Assim, em 24 horas, são vendidos mais de 10, 12 mil ingressos. Então cabe perguntar: “Se há um público que descobre esse teatro, essa música, os clássicos, e que se acha cada vez mais carente desses espetáculos, por que não se fazem mais?”

Como avalia, no atual momento, a cena cultural do País?

Tenho 45 anos de carreira no teatro, já dirigi e produzi mais de 120 espetáculos e acho que somos sobreviventes – quem faz teatro no Brasil é um sobrevivente. Antigamente, fazíamos uma peça de teatro e com dois meses de casa cheia se começava a ganhar dinheiro, estava todo mundo rico. Em nossos dias isso é totalmente inviável. Se você não tem patrocínio – ou seja, se não tem Lei Rouanet, que lhe permite captar patrocínio –, mesmo que consiga lotar 100% um teatro durante um ano você não ganha dinheiro, não paga o investimento. É totalmente inviável. E ainda tem gente que fala que os artistas são ladrões, estão mamando nas tetas do governo. Ainda tem isso…

No começo do mês, cinco ex-ministros da Cultura divulgaram um manifesto contra as políticas culturais do governo Bolsonaro. O grupo condena a “demonização” da classe artística e, sobretudo, o fim do Ministério da Cultura. Qual sua opinião sobre essa atitude?

Existe uma lavagem cerebral que acaba minando a produção cultural. A ignorância está no poder, a falta de cultura está no poder, o ódio está no poder. Os artistas estão sendo perseguidos, demonizados. Pintam por aí que todos os artistas são comunistas que vão comer as criancinhas. É horrível isso. Não existe classe mais sacrificada nesse País do que a classe artística./ SOFIA PATSCH

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