‘O coração também é afetado pelo coronavírus’, diz o médico Roberto Kalil

‘O coração também é afetado pelo coronavírus’, diz o médico Roberto Kalil

Sonia Racy

14 de dezembro de 2020 | 00h30

Roberto Kalil Filho. Foto: Iara Morselli

Ele enfrentou os sintomas mais graves da covid-19 logo no começo da pandemia, quando ainda não havia protocolos para tratar a doença – “admito que me senti mal como nunca antes”. E explica que uma gama de medicações ajudou a curá-lo.

Depois de 10 dias internado na unidade de terapia semi-intensiva do Hospital Sírio-Libanês e alguns dias em casa, em São Paulo, Roberto Kalil, que dirige a ala de cardiologia da instituição, estava de volta ao jaleco, à máscara e ao tratamento de seus pacientes. “Vivo medicina 24 horas por dia, minha determinação é ser médico”, resume o diretor clínico do Incor (Instituto do Coração, em São Paulo), aproveitando para avisar que a doença vai muito além da crise respiratória ou da febre alta (nos casos mais graves, como o dele): “O coração é muito atingido pelo coronavírus, cerca de 7% das mortes pela covid- 19 são causadas por miocardite. O que é isso? Trata-se do acometimento do coração pelo coronavírus”.

Para o Kalil, que tem entre seus pacientes mais famosos políticos de todos os matizes, o Brasil está fazendo um bom trabalho no combate ao coronavírus. Esse trabalho mostrou, inclusive, o quão importante é o SUS, que na sua opinião, necessita de maiores investimentos. “Muita gente que não conhece o sistema fala mal do atendimento, mas a verdade é que ele salvou milhões de vidas nos últimos meses.”

Se estamos preparados para a segunda onda da covid? “Ainda estamos na primeira, e precisamos nos manter firmes no reforço dos cuidados básicos e na manutenção do distanciamento social.” A seguir, os melhores momentos da conversa do cardiologista com a coluna.

Qual a sua percepção sobre a covid-19 neste momento?
As pessoas já falam em segunda onda, mas não saímos da primeira ainda. Estamos em uma fase de flexibilização, como todo mundo sabe, mas longe do fim da pandemia. Existem muitas pessoas infectadas, o número de mortes ainda é bastante alto. Então, todo cuidado tem de ser redobrado, com o uso de medidas protetivas: usar a máscara, lavar as mãos e manter o distanciamento social. O problema é que, com a flexibilização, as pessoas que estavam em casa começaram a sair.

Há algum tempo você disse que o SUS sairia mais forte dessa pandemia. Quais os efeitos do vírus no sistema?
O Sistema Único de Saúde foi responsável por salvar milhares de vidas. Ele atende mais de 100 milhões de pessoas, é muito bem estruturado. Claro que, quando o SUS foi criado, em 1988, a população era mais jovem, e a medicina não tinha a alta tecnologia que tem hoje. Agora, a população está mais idosa, e a medicina está mais cara. O SUS precisa de financiamento (está subfinanciado há décadas). O sistema necessita melhorias urgentes estruturais e valorização do seus profissionais. E isso custa dinheiro, simplesmente porque estamos tratando do maior sistema de saúde do mundo. Quero frisar que onde o SUS estava melhor aparelhado, tivemos menos mortes.

Acha que a fama de oferecer mau atendimento não condiz com a realidade?
Tenho certeza. Porque as catástrofes são muito mais comentadas do que as coisas boas. Isso faz parte, não é crítica nenhuma. Mas, o que aconteceu com a covid? As autoridades, a população, a mídia, todos viram o valor real do SUS na luta contra a pandemia.

E sobre a guerra das vacinas? É natural isso acontecer? No meio da pandemia, haver uma guerra política?
Eu não sou especialista nesse assunto, não sou imunologista, não sou infectologista nem sanitarista. O que sei sobre vacinas é o que a gente discute nos comitês dos hospitais e o que está na mídia. O que posso dizer é que a Anvisa é um órgão extremamente sério e responsável pela aprovação das vacinas ou de qualquer medicação. O Brasil tem vacinas que estão em fase final de testes. Qual é a melhor? Não sei. O que sei é que toda politização é ruim quando se trata de ciência. Mas no mundo inteiro foi assim. No mundo inteiro houve politização em relação ao novo coronavírus, em todos os aspectos.

Você é a favor que a vacina seja obrigatória?
Não. Até porque vai demorar até que a população inteira seja vacinada. Tem de ter as doses, tem de ter os insumos, algumas populações serão vacinadas primeiro. É assim que funciona. Um plano de imunização tem que ser aprovado conforme as necessidades da população.

Não seria o caso de fazer uma lei para obrigar as pessoas a se vacinarem?
Não, aí é questão de convencimento. As campanhas de vacinação têm de ser fortalecidas, e a covid chama a atenção para essas campanhas. Acho que as pessoas vão aderir mais às vacinas (de um modo geral) no pós-covid. Porque elas têm de se vacinar, sim, não apenas para evitar o coronavírus, mas outras doenças.

As pessoas estão deixando de cuidar da saúde por causa da pandemia?
Essa é uma pergunta importante, porque o isolamento social foi muito ruim nesse ponto, muitas pessoas deixaram de fazer seus tratamentos, deixaram de se cuidar, com medo de pegar covid. Isso levou a um aumento na incidência de morte súbita em casa, aumento de infartos, por exemplo. No mundo inteiro, não apenas aqui. Para se ter uma ideia, em março e abril, o pronto-socorro do Incor atendeu metade dos infartos que costuma atender. Onde essas pessoas infartaram? Em casa. Com a flexibilização, elas precisam voltar a procurar seus médicos, retomar os tratamentos. Já as pessoas que tiveram coronavírus nas formas mais graves, e se curaram, devem manter acompanhamento clínico geral e cardiológico também. Estudos chineses mostram que, três meses depois de se curarem, muitas pessoas eram acometidas de fibrose pulmonar. É preciso monitoramento constante nos primeiros meses pós-covid. Quer dizer, as pessoas têm de se cuidar sempre, mas precisam entender que a covid pode continuar agredindo o organismo, porque o vírus vai embora, mas as consequências dos processos inflamatórios que ele causa podem permanecer por um bom tempo.

Como cardiologista, o que você pode dizer dos efeitos da covid sobre o coração?
No começo, se achava que era uma síndrome respiratória que atingia somente os pulmões; hoje já há vários estudos mostrando que ela atinge diversos órgãos, incluindo o coração. Estudos publicados em outubro reunindo autópsias de vítimas da covid demonstram que, além da pneumonia e da insuficiência respiratória, quase 70% do coração dessas pessoas também foram comprometidos pelo vírus. Nos primeiros casos relatados, em Wuhan (epicentro da pandemia, na China), 7% das mortes foram causadas por miocardite, que é o acometimento do coração pelo vírus.

Como foi a sua experiência com a covid-19? O que aconteceu com você?
Peguei a covid em março, bem no começo da pandemia. Eu já tinha cuidado de vários pacientes com o coronavírus, e a gente nunca espera que vá ficar doente, óbvio. Então, em uma sexta-feira, comecei a sentir os sintomas. Sintomas normais, nada demais, me sentindo um pouco estranho, mas nada de muito importante. Fui ao hospital na segunda-feira seguinte e fiz o exame: meu pulmão já estava 50% comprometido pelo vírus.

Você não tinha febre?
Nada. Zero. Simplesmente um mal-estar. Nem dor no corpo eu sentia. Era um estado gripal, mas bem leve. Após o diagnóstico da covid, fui internado. E ainda bem que fiz o teste rapidamente, porque comecei a passar muito mal: veio a febre, veio a dor no corpo, veio a falta de ar. Fiquei em uma unidade semi-intensiva, quase tive de ser entubado. Os primeiros cinco dias de internação foram horríveis, porque fiz parte daqueles 5% de pessoas que apresentam os sintomas mais graves possíveis.

Que remédios foram usados? Na época você declarou ter tentado a cloroquina.
Usei corticoide, anticoagulante antibióticos e cloroquina. Na época, a OMS recomendava não usar anti-inflamatórios. Como foi muito no comecinho da pandemia, não sabíamos que protocolo seguir, que remédios seriam benéficos. Foi uma gama de medicações que me ajudaram, não algo específico.

O que mudou em você depois da infecção? Você é conhecido por ser um médico muito duro, autoritário, bem objetivo. No pós-covid, acha que ficou mais flexível?
Eu vivo a medicina 24 horas, minha vida é cuidar dos meus pacientes. Eu estou há 40 anos no Incor, um serviço público que é tudo para mim, eu “nasci” ali. Sei que ninguém é Deus, ninguém sabe tudo, mas, dentro do conhecimento e da experiência que você tem, precisa sempre propor o melhor para o paciente. Agora, eu sou duro, quer dizer, tenho de botar a fantasia de durão, porque dirijo uma instituição como o Incor, dirijo uma cardiologia como a do Hospital Sírio-Libanês, dirijo uma equipe grande de médicos. As pessoas acham que eu sou autoritário, acham que eu sou um dragão cuspindo fogo pelos corredores… bom, acho que é preciso ser um pouco assim para que as coisas andem.

Mas você não me respondeu: o que mudou na sua vida no pós-covid?
Olha, essa história de ‘ai, meu Deus, quase morri, quase fui para a UTI, estou mudado’… não aconteceu comigo, não. Meus amigos no Incor e no Sírio garantem que eu fiquei mais bonzinho. Bonzinho nada. Sou o cão chupando manga de sempre! (risos)

Se pudesse voltar atrás, teria escolhido alguma outra profissão?
De jeito nenhum. Eu faria tudo isso de novo sem pensar duas vezes. Eu amo a medicina, demorei três anos para entrar na faculdade, tive que prestar três vezes o vestibular, mas teria prestado trinta, se precisasse. A minha determinação sempre foi a de ser médico.
Amo o que faço.

 

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