Lázaro Ramos batalha por qualidade mas também quer ‘falar de política com poesia’

Lázaro Ramos batalha por qualidade mas também quer ‘falar de política com poesia’

Sonia Racy

02 de novembro de 2015 | 01h30

Foto: Iara Morselli/Estadão

Foto: Iara Morselli/Estadão

Com peça em cartaz, filme estreando e novo livro sábado, o ator e diretor baiano conta sua luta por qualidade e por mais negros na arte: ‘Talento existe em qualquer lugar’.

Sábado frio em São Paulo, faltam três horas para se abrirem as cortinas do Teatro Faap para mais uma noite de O Topo da Montanha. Vestindo jeans, jaqueta de couro e cachecol, Lázaro Ramos desce as escadarias, entra no camarim, pede um sanduíche e vai se preparando para ser, dali a pouco, Martin Luther King. “Essa peça é a realização de um sonho meu e da Taís (Araújo, sua mulher)”, conta o ator e diretor de 37 anos, completados ontem, nesta entrevista à repórter Marina Gama Cubas. Na peça, Taís é a camareira Camae, que instiga o pastor a liderar a luta dos negros americanos por direitos civis.

É um sonho vivido em alto ritmo. Além da peça, Lázaro prepara o lançamento, no sábado, em São Paulo, de seu segundo livro infantil, Caderno de Rimas do João (seu filho). No cinema, vive o violinista Laerte em Tudo Que Aprendemos Juntos – que tem apresentação especial amanhã, na Sala São Paulo, e estreia dia 3 de dezembro. E a agenda inclui, mais para a frente, um novo livro, que se chamará A Culpa é das Princesas, e dois filmes com o diretor Sérgio Machado – um deles sobre dois célebres boxeadores do Nordeste.

Esse turbilhão de ocupações não o afasta, porém, de uma preocupação essencial: a de se posicionar enquanto faz arte. “Quanto mais o tempo passa, mais eu tenho vontade de falar de política com poesia”. Ele admite que não e fácil: o público de hoje “criou uma grande empatia pela comédia” e fica complicado vender outros tipos de filmes.
P. S. – Procurado ontem, o ator preferiu não comentar, na entrevista, o episódio de racismo do sábado, envolvendo Taís Araújo.

Você lança no sábado o segundo livro infantil. Como lhe apareceu essa ideia de fazer poesia para crianças?
O Caderno de Rimas nasceu a partir de duas situações. Um amigo me contou que a filha lhe perguntou o que era “virgem”. Preocupado em dar uma explicação adequada à idade dela, ele respondeu que era alguém que nunca namorou, nunca deu beijo na boca. Quando ele olhou para frente, viu um vidro de azeite com o escrito “extra virgem” (risos). Ao mesmo tempo, comecei a explicar ao João, meu filho, algumas coisas em rima.

Mas o primeiro livro infantil foi escrito antes de se tornar pai. Como explica esse interesse, antes da paternidade?
Acho que é um jeito de olhar o mundo. Antes de pensar em uma coisa séria, me vem algo lúdico, uma piada e depois eu processo e falo. Mas o jeito como escrevo nunca foi focado para criança. Escrevo e vejo o que vai dar. Descobri que meu próximo livro será para mulheres de 30 anos. Chamará A Culpa É das Princesas e decidi escrevê-lo por causa da minha filha.

Como foi isso?
É que eu percebi, em uma loja de brinquedos, que no setor dos meninos os brinquedos ensinavam a ser guerreiro, lutador, corajoso, trabalhador, esportista. E o das meninas ensinava a ser sexy e dona de casa. Aí eu pensei: “Tá estranho!” Não são todas, mas existe uma categoria de princesa que diz que a mulher é uma incapaz, que precisa esperar um príncipe para salvá-la de algum perigo. Esse príncipe tem que ser bonito, perfeito, inteligente, forte, provedor, corajoso. E se ele não for tudo isso, ela tem o poder de transformar o sapo em príncipe. Um monte de mulher se apaixona por homem canalha pensando que vai transformá-lo em um homem bom. Ou por gay, pensando que vai transformá-lo em hétero. Mas esse livro é para o fim de 2016.

Acha que falar para mulheres de 30 o fará mudar o modo de se comunicar com sua filha?
A gente tem que se policiar porque a cultura é forte. Vez ou outra eu digo: “Minha princesa… Ai! Chamei de princesa!” (gargalhadas). E já está na gente. Mas é possível variar mais no chamado: meu amor, minha guerreira…

‘NA CRISE, MUITO 
PRODUTO CULTURAL É 
PRODUTO DE FUGA’
Por que não quis fazer O Topo de Montanha na primeira vez em que leu a peça?
Pedi a uma amiga uma tradução rápida da peça e ela fez no contexto do teatro americano, sem traduzir alguns momentos que são mais sensação do que palavra. Pensei que não dava para ser montado no Brasil porque o humor e o conteúdo são muito diferentes. Há trechos em que a tradução do (diplomata) Silvio (Albuquerque), por ele conhecer muito a história do Martin Luther King e ter morado em Washington, foi feita com sentimento. Nessa peça eu achei um jeito de fazer um tipo de teatro em que acredito muito.

Qual tipo de teatro?
Apesar de a comédia ser uma tônica forte do meu trabalho, todo mundo sabe que eu gosto de me posicionar com a minha arte. Esse texto tem algo muito especial que vai ao encontro do que eu quero fazer – que é ter um cuidado estético, uma linguagem teatral, uma luz que transporta o público a outro lugar. Quanto mais o tempo passa, mais eu tenho vontade de falar de questões políticas com poesia. Acho que tem uma eficiência, e essa peça é prova disso, que faz com que a mensagem fique muito mais poderosa.

Muitas vezes a questão racial é tratada de maneira mais forte…
A peça é um convite a entrar no assunto. Mostra como a gente pode discutir essas questões, como pode contribuir. Não estou falando contra outros estilos, acho que eles são necessários – até já os adotei, como na peça do Zumbi dos Palmares, uma das mais importantes na minha carreira no teatro, e que fazia uma associação direta entre os quilombos e as favelas. Mas acho que a gente pode se dar ao direito de, a cada fase do mundo, buscar ser o mais eficiente possível. E neste momento da minha vida e da minha carreira, eu sou eficiente nesse lugar.

É mais difícil a aceitação do público quando a carga dramática de uma obra é maior do que a cômica?
A gente está vivendo um momento do cenário nacional em que o público criou uma empatia grande pela comédia, o que eu acho bom. Sem dúvida é mais fácil você vender uma comédia. Os filmes, como Tudo Que Aprendemos Juntos, estão tendo uma grande dificuldade de atingir o seu público. Ele merece um grande público porque é um filme importantíssimo. Por ser um filme grande, bonito, bem feito, bem fotografado, bem atuado (gargalhada). Não falo só de mim, falo dos meninos todos. Mas o mercado não está entendendo como vender esse tipo de filme, que não é a comédia. O Tudo Que Aprendemos Juntos, se fosse no início da retomada (do cinema brasileiro), teria a mesma trajetória de Central do Brasil. Hoje, por exemplo, o Que Horas Ela Volta? é um filme muito bem comentado, indo para o Oscar. Uma obra que traz reflexão e atraiu 494 mil espectadores. Mas eu acho pouco. O fato é que, em períodos de crise, muitos produtos culturais – cuja procura não cessa – são produtos de fuga. Não nos fazem pensar nas crises, não cutucam para nos incomodar. Nem sei se é por causa da crise política, talvez seja uma crise de identidade. Passamos uma fase de crescimento em que as pessoas gastaram, gastaram e agora estão tendo que segurar a mão. Mas eu acho que é bacana se a gente consegue amadurecer e conclui que esse alívio pode vir tanto do sorriso como da lágrima. Tenho que oferecer o conforto que buscam, mas tirá-los um pouco da cadeira. O Topo da Montanha é isso. Tudo que Aprendemos Juntos é isso.

Por que acha que Tudo Que Aprendemos… diz muito a respeito do País?
Acho que esse filme revela um novo Brasil. Os meninos mostram muito isso. Tudo o que falam, pela maneira como se comportam… É uma nova geração querendo escrever uma outra coisa. O Kaique (Jesus, que faz o personagem Samuel), por exemplo, é um menino muito centrado, ele sabe das dificuldades que tem, mas sabe o que tem de fazer para alcançar seus sonhos. Não fica esperando um milagre. Vi cada um deles com seu plano, seu desejo e sua consciência do lugar do qual fazem parte.

‘NOS COMPARARAM 
A JAY-Z E BEYONCÉ E
ESQUECERAM A PROPOSTA’
Ao comentar Mister Brau, a imprensa britânica disse que a dramaturgia da TV brasileira é dominada por personagens brancos. A mudança é muito lenta?
Muda lentamente. O que replicou da reportagem do The Guardian no Brasil foi que compararam a mim e a Taís ao casal Jay-Z e Beyoncé e abandonaram o resto da discussão que foi proposta. Acho que o processo é lento e não só na TV. Há coletivos de teatro que se organizam para pensar outra estética teatral, com as heranças da negritude do Brasil. Quando você tem alguns cineastas – ainda são poucos – que percebem que a gente pode contar uma nova história e tentam fazer o projeto acontecer, acho bacana.

Os projetos “acontecerem” também depende de terem qualidade, não?
Vejo projetos de muita qualidade aí, mas não vejo os filmes serem concluídos. O público entendeu e prestigia Mister Brau. Por quê? Porque tem a mão do Maurício (Farias), que ofereceu beleza no jeito como nos vestiu, como criou o cenário, a música, na câmera de cada episódio. Fazemos entretenimento, mas com poesia e beleza. Claro que, pesares, eu tenho um monte. O que tenho a reclamar? Da quantidade de homicídio de jovem negro. Ainda há poucos diretores negros viabilizando projetos. Mas tem muita gente criando coisa de qualidade. Talento há em qualquer lugar, em qualquer origem, basta ser estimulado.

Acha que o sistema de cotas melhora as coisas?
Cota é importante nesse momento. Não deve ser eterna e não podemos esquecer que os mecanismos de educação, primeiro e segundo grau, públicos, sejam fortalecidos. Mas, a propósito, você nunca vai ver uma entrevista minha falando generalidades. Posso falar de mim. Tenho muito medo de artista que fica falando como especialista em coisas. Eu sou ator, diretor e escritor. Não sou antropólogo, nem sociólogo. Falo do meu ponto de vista como ator e da minha experiência de vida.

Você já se sente como o artista que sempre quis ser?
Há quatro anos, eu achei que ia parar de ser ator e seria só diretor. Porque tive oportunidade de fazer grandes personagens e fico muito insatisfeito quando conto uma história que já contei antes. Aí pensei: “Quer saber, eu vou parar. Vou dirigir, escrever, comprar uma avenida de casas no interior da Bahia e viver de aluguel”. Mas, com o nascimento do meu filho, me dei conta de que ele não ia saber o que eu fiz antes de ele nascer. Então eu disse: “Pô, quero mostrar uns negócios para ele. Fazer outras coisas”. Não achava que viria algo que me satisfizesse tanto depois de alguns projetos como Madame Satã, Cidade Baixa, O Homem que Copiava. Depois de Lado a Lado eu perguntei: “O que mais eu tenho para fazer?”. E de repente veio o Mister Brau. Eu não fazia teatro desde 2011 por não ver nenhuma peça com a qual me identificasse. E aí aconteceu O Topo da Montanha. A vida me surpreendeu.

Você e a Taís têm alguma tática para separar trabalho da vida pessoal, já que estão trabalhando juntos tanto no teatro como na TV?
Nunca pensamos nisso porque a gente se tocou que ia fazer junto a peça e a série quando na verdade já estávamos fazendo. Então não tinha muito o que conversar, não. Acaba o trabalho, acaba o assunto. Falamos de filho, vamos jantar, damos risada, falamos de outras coisas.

Além do livro para as mulheres de 30, quais os planos para o ano que vem?
Tenho dois projetos que incluem meus irmãozinhos Sérgio Machado e Wagner Moura. Tem um livro do qual o Sérgio comprou os direitos, pensamos em fazer no fim do ano que vem. E um documentário que estou produzindo com o Sérgio, sobre Reginaldo Holyfield e Luciano ‘Todo Duro’, dois lutadores do Nordeste, ainda em fase de edição.