‘Quanto mais arrependimentos, maior a angústia com a morte’, diz Irvin Yalom, que lança livro sobre luto

‘Quanto mais arrependimentos, maior a angústia com a morte’, diz Irvin Yalom, que lança livro sobre luto

Sonia Racy

08 de novembro de 2021 | 03h00

Irvin D. Yalom. Foto: Arquivo pessoal

Irvin D. Yalom. Foto: Arquivo pessoal

Aos 90 anos, o escritor e psiquiatra americano Irvin D. Yalom já ajudou muitos pacientes a lidar com o luto em seu consultório. Mas, recentemente, o professor emérito da Universidade de Stanford colocou sua própria experiência com o tema no papel, após perder a mulher, Marilyn.

Em Uma Questão de Vida e Morte – Amor, Perda e o que Realmente Importa no Final (Ed. Planeta), o responsável por best-sellers como Quando Nietzsche Chorou e A Cura de Schopenhauer faz uma mescla das memórias com a esposa – que conheceu ainda adolescente – com a sequência de sua vida após a morte da companheira.

“Não tenho crenças religiosas, sou ateu desde que consigo me lembrar e, ainda assim, pensar que eu estarei me juntando à Marilyn me traz conforto”, diz à repórter Marcela Paes. No dia 11, Yalom participa, remotamente, de evento da The School of Life em conversa com o filósofo e colunista do Estadão Daniel Barros. Leia abaixo a entrevista.

Como foi o processo de escrever o livro após a morte de sua mulher?
O livro é sobre a morte dela e a minha vida depois disso. Eu escrevi nos meses que se passaram após a morte dela e foi muito importante escrever, acho que me ajudou bastante a lidar com o luto. Quando ela morreu, eu sabia que o meu prognóstico psicológico não era muito bom, já que eu trabalhei com pessoas em luto por muitos anos e nunca tinha conhecido alguém que tivesse tido um relacionamento tão longo e profundo quanto eu tive com Marilyn. Sabia que as coisas não seriam fáceis.

Como o senhor está hoje?
Depois de passados quase dois anos, eu ainda não estou plenamente recuperado. Estou escrevendo outro livro, isso ajuda bastante. Eu tinha um retrato dela na parede do meu consultório e não tenho mais. No lugar está um retrato da minha filha. Eu constatei que sentia uma pontada no peito quando via o retrato dela. Também comecei sessões de terapia com uma terapeuta muito boa. Entrei em terapia pela quinta ou sexta vez na vida e tem me ajudado muito.

O senhor mencionou que está escrevendo outro livro. Ficar imerso no trabalho ajuda?
Bem, eu estou imerso na escrita o tempo todo. Há cerca de dois anos, cheguei à constatação de que a minha memória está se perdendo. As pessoas da minha idade simplesmente não conseguem se lembrar bem das coisas. Eu decidi parar de oferecer consultas regulares em que eu vejo o mesmo paciente no decorrer de semanas, meses ou anos. Agora eu ofereço consultas únicas e quando eu penso sobre essas consultas, em uma em cada dez, saio com algo que acho que daria uma boa crônica para ensinar um terapeuta jovem. É com isso que eu tenho me ocupado desde que ela morreu.

Acha que a pandemia da covid forçou pessoas a encarar a morte de maneira mais objetiva?
É difícil dizer. Muitas dessas pessoas que me veem para uma única consulta estão chegando com muita ansiedade em torno da morte. Essa ansiedade parece ter uma correlação entre os tipos de arrependimento que as pessoas podem ter sobre a maneira que viveram a vida. Em geral, eu constato que, quanto mais arrependimento uma pessoa tem, pela maneira que viveram – ou talvez pela maneira que não viveram – maior a angústia ao tratar de morte.

Sentiu algo assim após a morte de sua mulher?
Pessoalmente não vivenciei muita ansiedade desse tipo atualmente, embora já tenha passado por isso no passado. Quando a Marilyn morreu, eu senti muitas coisas, mas não senti terror da morte dessa maneira. Às vezes acho que, quando eu morrer, vou estar me juntando à Marilyn e sinto uma onda de conforto. Mas quando olho para essa afirmação, me parece um tanto absurda. Sou ateu desde que consigo me lembrar e, ainda assim, pensar dessa maneira me traz conforto. Isso me diz bastante sobre o que as religiões oferecem à humanidade desde o começo dos tempos. A ideia de que a vida não é o fim, de que haverá alguma forma de continuidade, e isso oferece algum tipo de conforto.

É possível dar conselhos sobre uma maneira melhor de lidar com luto?

Bom, para muitos, um terapeuta vai ajudar, já que você pode falar abertamente sobre as coisas que estão te assombrando. Acho que é bom permanecer em contato com o máximo de amigos e pessoas próximas. Meus filhos vêm me visitar com bastante frequência. Três dos meus quatro filhos moram perto de mim, a menos de uma hora de distância, e eles me visitam e passam um ou dois dias toda semana. E eu tenho a minha atividade de escrever, que é o que eu faço com a maior parte do meu tempo. Então eu estou gradualmente agindo para atravessar esse luto. Sinto que a depressão que me acompanhou por um período tenha se atenuado um pouco há uns três meses, então eu me sinto mais leve.

Mais e mais pessoas estão se voltando à Filosofia para lidar com facetas da vida. Concorda? Por quê?

Alguns dos maiores pensadores ponderavam sobre isso desde o início dos tempos. Eu estudei e fui treinado como médico no campo das Ciências, mas li muita filosofia e muitos romances. Escrevi um livro sobre Spinoza, um livro sobre Nietzsche, um livro sobre Schopenhauer… Porque eles eram pensadores com ideias profundas. E todos os pensadores do tipo que tratam da condição humana têm que analisar os nossos medos sobre a morte e o que nos acontecerá após isso. É difícil ser um humano e ter considerações profundas sem parar, em algum momento, para perguntar sobre a questão da morte. Todos lidamos com isso da maneira que nos ensinaram desde pequenos.

Por exemplo, os meus pais vinham de uma vila pequena na Rússia, não tinham dinheiro e nem educação, abriram uma mercearia pequena e escaparam da Europa logo antes de Hitler tomar tudo e vieram aos Estados Unidos. Me lembro que, quando eu estava me preparando para  o meu bar mitzvah, que ocorre quando você tem 13 anos – tem preces e discurso e eu estava preparando isso –, perguntei ao meu pai: “Você acreditava em Deus?”. Ele disse: “Depois de Hitler e do holocausto, como é possível crer em Deus?”. Essa foi a resposta dele a isso e eu acho que provavelmente tem sido a minha também.

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