‘Quando me apaixono de verdade, tenho vontade de sair correndo’

‘Quando me apaixono de verdade, tenho vontade de sair correndo’

Sonia Racy

09 Setembro 2013 | 01h00

 

Foto: Arquivo pessoal

Cleo Pires fala sobre relacionamentos, seu papel em O Tempo e o Vento, como lida com a sensualidade, a vontade de ter filhos, sua fé e a paixão pelas armas de fogo.

Cleo Pires estava de férias. Passou por Argentina, Cabo Verde e Califórnia. Em terras portenhas, comemorou o aniversário da mãe, Glória Pires; no país africano, participou de um projeto social que leva água às escolas; e, nos EUA, celebrou o Rosh Hashaná – apesar de não ser judia. O interesse pela viagem partiu de um grupo de Cabala, que começou a frequentar há três anos.

De volta ao Brasil, a atriz lança, quarta-feira, O Tempo e o Vento, filme de Jayme Monjardim – produzido pela Nexus – baseado no romance de Erico Verissimo. Ela será Ana Terra, papel que sua mãe interpretou em 1985 na minissérie da Globo. Mas, até aceitar o convite, confessa que sua relação com a personagem “sempre foi de repulsa”. E nada tem a ver com as cenas de nudez. “Não tenho pudor. Gosto de ficar pelada.” O incômodo, ela admite, vinha da infância. “Quando via minha mãe na TV, não gostava das cenas de estupros e das mortes dos índios.”

Da infância também vêm outros medos. A separação dos pais deixou marcas quando o assunto é relacionamento. “Amo me apaixonar. Mas, ao mesmo tempo, me dá muito medo. Tenho vontade de sair correndo!”, diz Cleo, que namora o também ator Rômulo Arantes Neto e já foi casada com João Vicente de Castro. Quanto à relação com o pai, o cantor Fábio Jr., está mais madura. “Meu pai não era presente, e o Orlando (Morais) me acolheu. Mas meu amor pelo Fábio é gigantesco.”

A seguir, os melhores momentos da conversa.

Teve medo de interpretar um papel que foi da sua mãe?

Minha relação com a personagem sempre foi de repulsa. Quando minha mãe viveu Ana Terra, não curti. Principalmente por causa das cenas de estupros e das mortes de índios. Quando o Jayme (Monjardim) me chamou para fazer o papel, minha primeira reação – muito impulsiva, por sinal – foi dizer: “Não, muito obrigada. Não tenho nada a ver com essa personagem”. Mas ele não desistiu. Ficou me catequizando durante meses. Mas só me convenci no dia em que o Murilo Rosa me abriu os olhos, me mostrou que eu estava com uma impressão equivocada da personagem. Ali me dei conta de que aquela repulsa era da infância, de uma proteção louca com a minha mãe. Só aí é que fui ler o roteiro – toda ávida para tirar essa impressão de mim. Acabei me encantando com a personagem.

Você se espelhou na interpretação da sua mãe?

Não gosto de buscar referências de coisas que já foram feitas. Quero sempre encontrar uma visão muito particular e trabalhar nela.

Teme as comparações?

Não! Entrei tanto na personagem, ela ficou tão minha, que nem pensei sobre isso, na verdade. E mais: tendo a não ler muito as críticas.

E as cenas de nudez? Como lida com elas?

Acho muito natural a sensualidade no ser humano, adoro coisas sensuais. Ainda mais quando estamos numa história sobre a terra. Acho a terra sensual, e a nudez é só uma manifestação disso – no caso da Ana Terra, não é nada tão importante. E gosto de ficar pelada (risos). Não tenho muito pudor.

Você é considerada uma das mulheres mais sensuais do País.

A sexualidade é a energia mais importante que temos, nascemos dela. Acho cada vez mais interessante usar a sensualidade a meu favor. Sabendo usá-la nos lugares e momentos certos.

Acha que isso restringe seu campo de atuação? De só fazer papéis de mulheres sensuais?

A sensualidade não está relacionada com beleza, mas, sim, com energia. Quando estou trabalhando, a sensualidade não é o foco. Não penso em ser sexy, é algo que vem naturalmente. Não tenho vergonha ou pudor de ser sexy. Pelo contrário, acho atraente.

Você se separou há pouco tempo. Pensa em se casar de novo?

Não sei. Às vezes, penso que sim. Mas é algo tão contraditório para mim. As relações afetivas me ensinam muito, preciso delas, simplesmente amo me apaixonar e pensar numa vida ao lado de outra pessoa. Mas, ao mesmo tempo, tudo isso me dá muito medo.

Medo?

É. Acredito que a paixão traz descobertas de você consigo mesma. Tudo vem à tona: inseguranças, defeitos… E isso é complicado para mim. Tenho vontade de sair correndo (risos). Principalmente porque não me encaixo em nenhuma relação de pessoas casadas que conheço. As pessoas, normalmente, fazem concessões e mentem para si mesmas. E tudo só para manter uma relação.

Já tentou descobrir de onde vem esse medo todo?

Minhas inseguranças e meus medos, principalmente quando a questão é me envolver mais profundamente com alguém, vêm da infância, dos meus pais. Não que eles tenham feito de propósito. Tenho consciência de que sempre me amaram e fizeram tudo que puderam fazer. Mas, quando criança, não racionalizava isso.

Essas questões da sua infância afetaram de alguma maneira a sua relação com o seu pai e com o seu padrasto?

Quando eu era pequena, meu pai não era presente, e o Orlando me acolheu. Ia às reuniões de pais, fazia tudo para eu me sentir amada, me sentir como filha, mesmo. Ele foi meu referencial de pai, mas meu amor pelo Fábio é gigante e é muito forte a vontade de que a gente possa estar cada vez mais próximo, se entendendo e se aceitando do jeito que cada um é. Estamos caminhando para que isso aconteça.

A relação com ele interfere na sua vontade de ter filhos?

Preciso ter filhos. Sou muito maternal. Quero ter a toda hora, mas vem um medo monstruoso, que acaba me paralisando. Tenho trabalhando para acabar com essa defesa e esse medo bobo. Mas não é tão simples.

Que papel têm a fé e a religião na sua vida?

Estudei espiritismo por muitos anos – o que foi muito bom para mim. E há três anos pratico a Cabala, que prega uma forma de ver a vida muito parecida com a que tenho. Antes de conhecer a Cabala, encontrava minha plenitude só no trabalho. Agora, também consigo encontrá-la em minha vida pessoal.

Você também viverá uma policial no cinema, né?

Sim. No filme Boletim de Ocorrência. Um papel com o qual sempre sonhei. Tanto que quase me convidei para interpretá-lo (risos). Fiquei sabendo do projeto do Tomás Portella e pedi para ele escrever uma personagem para mim. Sou louca por ação. Quando criança, meu sonho era ser policial, amo armas e todo esse universo.

É verdade que você já fez até aulas de tiros?

Quando mais nova, dava uns tiros com meu primo. Coisa de criança curiosa. Arma é algo bastante controverso. De um lado, a indústria de armamento para a guerra, que acho opressora e capitalista. Do outro, como esporte – que adoro. É um universo que me encanta muito. Mas é preciso ter bastante responsabilidade. Tenho porte de arma para praticar esporte – não para defesa pessoal./SOFIA PATSCH