Psicanalista Christian Dunker vai ganhar programa na TV aberta

Psicanalista Christian Dunker vai ganhar programa na TV aberta

Sonia Racy

21 de junho de 2020 | 00h33

CHRISTIAN DUNKER – FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Com 30 anos de experiência clínica, Christian Dunker, psicanalista paulista, vai ganhar um programa de TV. A emissora, ele ainda não pode revelar, mas conta que estreia acontecerá ainda durante a pandemia da covid-19. “Será sobre casais que se encontram, sobre o amor e eu serei o mediador”, adianta Dunker à coluna. Youtuber com quase 200 mil inscritos no seu canal, ele vive online, mas não se habituou às consultas por videochamadas. “Fico muito mais cansado e você perde o gestual, o suspiro do paciente”.

Autor de Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros, ele vê seu livro de 2015 muito atual neste 2020. “Vamos viver a lógica de condomínios, entre muros. Vai ser difícil se misturar”, explica. Professor titular da USP e vencedor do prêmio Jabuti de 2012 – de melhor livro em Psicologia e Psicanálise, Dunker lançou há pouco A arte da quarentena para principiantes (Boitempo). E agora, diz ele, “tem essa coisa louca pra acontecer”, brinca, referindo-se à estreia na TV. Dunker completou 54 anos mês passado, isolado em casa, no Planalto Paulista, com a mulher, Ana Cristina, e os filhos, Nathália e Mathias. Veja trechos da conversa:

Seu programa já tem nome, pode divulgar?
Não posso adiantar. Será numa emissora na TV aberta muito importante. A equipe quer acelerar, mas temos a quarentena, aí a gente emperra: como filma, como faz com figurante, com ator… Vai ser sobre casais que se encontram, sobre o amor…  E eu serei o mediador. Isso aí (o programa) é uma coisa muito louca que está para acontecer… E se eu deixei isso aí entrar na minha vida, eu não sei onde eu vou parar. (risos)

Na quarentena, casais estão se separando mais ou ficando mais unidos?
Olha, engraçado você perguntar. Eu diria que 50/50. A separação passou a ser uma decisão mais problemática porque não se sabe o fim da quarentena. Aí ficam em casa fazendo DRs sem fim. Mas teve uma paciente que se apaixonou de novo pelo marido, e me perguntou o que estava acontecendo. Eu disse: Síndrome de Estocolmo, apaixonada pelo algoz (risos). Em outros casos, na mesma proporção, tem gente que começou a se conhecer melhor e, de repente, veio a covid-19, e se viram morando juntos. Tipo um ‘blind living’ (como ‘blind date’).

Chegamos ao mês três de isolamento. Como fica a saúde mental?
Em regra, as pessoas estão incrementando sua quantidade de sofrimento conforme o tempo passa. Muitos ataques de pânico, gente com uma espécie de depressão zumbi, o dia não passa, o noticiário semelhante, sem previsão de fim, não sabe se precisa se sacrificar mais, e se pergunta “Eu aguento?”. E aí procuram práticas que reduzem o sofrimento, desde meditação às substâncias ilícitas. É um desafio brutal tanto pra quem tá sozinho em casa como pra quem tá com marido, esposa, filhos. Passaram a se questionar: por quê eu não transformo minha vida?

Começou a flexibilização no País, o que está achando dessa retomada?
Tivemos o primeiro estágio, o do medo. O segundo, o da angústia. O terceiro, o luto. Agora, chegamos ao estágio que chamo de cuidado – o objetivo, dos protocolos sanitários, e subjetivo, do emocional. As pessoas estão em carne viva, à flor da pele, muito sensíveis e irritadíssimas, mas, ao mesmo tempo, querendo se encontrar, se abraçar, se apaixonar, se encostar uns nos outros. Então você tem a receita pra um super encontro. E aí vamos entrar no estágio do risco, de assumir risco pra poder se encontrar. É uma situação assim: ‘Vamos? Vamos. Mas com cuidado’. Vamos ter que repactuar novas formas de encontro para garantir nossa segurança. Vai ser difícil essa palavra: misturar. Como nos misturar?

Como? Se ser gregário é da natureza humana…
Olha, eu estou vendo ressurgir na pandemia o que eu descrevi no livro de 2015 Mal-estar, sofrimento e sintoma, em que falo sobre a lógica de condomínio. Que é muito a lógica do Brasil, tem a ver com status, raça, autoridade. A gente provavelmente vai criar um condomínio sanitário. ‘Quem pode pagar, opa, vem! Vai ter muro, teste, festa. Mas é só nós. Churrasquinho de gente diferenciada’. A gente vai ter dificuldade com essa palavra mistura. Se misturar. Vamos ter dificuldade de nos tornarmos mais íntimos, mas por outro lado muita gente foi confrontada com a própria demanda. Tipo: “Ah, eu gosto de ficar só, na minha, tô de boa, sozinho(a) em casa”. Ah, é? Então agora toma. Agora ferrou, veio um vírus que te obrigada a ficar só.

Falando sobre o consultório online, como está sendo atender por videochamada?
A tela (do celular, do computador) causa uma distância enervante. Fico muito mais cansado, você perde um monte de referências – o gestual, o suspiro do paciente. E sabe que do outro lado tem gente desesperada. Tenho dito isso aos meus alunos (na faixa de 22 anos, cursando a disciplina de Atendimento clínico na USP). Eles estão sendo heróis, incríveis, se desdobrando sem contato físico, quando casos gravíssimos não param de surgir.

E como tem sido acompanhar os alunos de forma remota?
Nossa, sufoco. Mas tenho dito isso a eles: ‘Olha, vocês estão no Vietnã suturando sem anestesia’. Estão atendendo pessoas desesperadas e que a gente sabe que elas vão partir para o pior. Mas é isso, a gente precisa agir, é uma emergência.

O quê de pior você se depara na clinica médica?
Vejo as perdas mais difíceis, tragédias, acidentes, mortes, mas o mais difícil de você aguentar, na clínica, é o desperdício. Pessoas que eu penso: o que você está fazendo com sua vida meu caro? E o cara ali jogando pedrinha. Não toma decisões. E eu falo: cara, que perda de tempo. É uma miséria. E isso é o mais difícil de curar. Porque isso você não ensina pra pessoa. Ela que tem que agir.

Isso tudo está muito mais exaustivo pra você também?
Se eu tivesse duas horas de intervalo por dia eu aproveitaria muito mais, me divertiria. Consegui ver um filme (Sofia) e ver uma série (Fleabag). Também consegui ver Dear White People, mas não tenho disciplina para acompanhar séries longas. Fiquei ainda mais atarefado na pandemia. Eu vivo uma situação similar a que eu tive em Belo Monte (na tragédia em 2016, na construção da usina hidrelétrica), quando organizamos uma expedição de psicanalistas pra região de Altamira. Atendíamos 70 casos. Vivi ali uma dedicação clínica maior do que a que eu aguento.

E agora você também passou dos seus limites?
Sim, seguramente. Minha sensação é a de ultrapassar meu limite, mas tem que ir em frente, porque é uma situação de exceção. Hoje eu falo para os pacientes: olha, é uma emergência, isso não vai continuar depois da pandemia. É uma demanda muito grande. Foi muito duro para as pessoas aceitarem 90 dias de cárcere. Os casos que chegam são os mais variados – de depressão ao caso da pessoa que estava em negação com a doença até que perde um parente pra covid-19.

Como imagina as consultas pós-covid?
Essa é uma discussão que está acontecendo no consultório, entre nós profissionais. Acho que no consultório vamos começar a intercalar atendimento presencial com online. Não vou poder atender um paciente atrás do outro. Vamos ter que parar, higienizar, usar máscaras. Aliás, não me acostumei com elas ainda, e eu tenho umas bem boas.

E sua quarentena, como tem sido?
Aqui dentro, olha (mostra a biblioteca e abre uma porta que dá para a piscina). Mas sou um privilegiado, não me falta nada, tem sempre gente me ajudando. Por isso consigo fazer tantas coisas e não consigo dizer ‘não’ ao paciente. São 19h (da última quinta-feira, 18) e já fiz, deixe-me ver, umas três ou quatro lives – para o Sesc, a UFRJ, curso de escuta, atendi pacientes… Eu faço rápidas saídas, já fui almoçar com meus sogros, que têm mais de 80 anos. Agora não me adaptei às máscaras, e olha que tenho umas boas, mas o essencial é saber que você tem que usar pra proteger o outro. No caso da covid, o negacionismo vai até o tamanho da sua braçada – quando alguém próximo morre, aí a pessoa diz: opa, chegou em mim. Tive casos clínicos assim e não é uma coisa bonita de se ver.

O próprio presidente Bolsonaro tem um comportamento negacionista. Acha que a pandemia, a esta altura, já o fez cair na real?
Digamos que causou uma circunstância rara de realidade. Dizer as coisas que Bolsonaro diz diante da pandemia, é delirante. A covid-19 funcionou como vitamina-R, de realidade, pra esse pessoal.

Repercutiu muito um artigo seu, de 2015, no blog da Boitempo, em que você escreveu: “Bolsonaro deita aqui no meu divã”. Ele era deputado federal e, na Câmara, disse à colega Maria do Rosário “jamais estupraria você porque você não merece”. Cinco anos depois, sob a luz da psicanálise, Bolsonaro tem algum tipo de psicopatia ou é louco, como chegam a dizer?
Ele não é uma pessoa muito grave do ponto de vista clínico. Não é um cara que você diz: ‘Putz, que caso excepcional!’,  que você diz ‘Olha que perverso!’. Ele é uma pessoa limitada, muito estreita do ponto de vista psíquico. Ele não é um malvado, um cara especialmente ruim. O entorno dele é muito mais perigoso.

Quem seriam os perigosos? Os filhos do presidente, por exemplo?
Esses são, sim, exemplo de perigo. Os filhos mandam no pai. Bolsonaro na verdade é um manipulado. No fundo, é isso. É um cara limitadíssimo que não consegue conversar, que não aguenta um debate.

Dos três filhos (que estão na política) qual o mais perigoso, do ponto de vista da psicanálise?
É o cara que mexe com as fake news, o Carlos. Acho muito curioso porque ele é o exemplo do que há de pior na família brasileira. Sabe aquele pai que cria o filho pra ser um mimado, bater em mulher, que leva ele na zona pra ‘virar’ macho? É o caso clássico de um coronel fora de tempo. O filho vira aquele cara que o pai dá risada achando bonito porque seu herdeiro é sacana, tira vantagem. É o próprio corrupto.

Enxerga uma saída para o Brasil, em relação à política?
Do ponto de vista institucional, a coisa vai ser feia, dolorosa (pra tirar Bolsonaro da Presidência). Mas o que me importa é que tem 70% que não concorda com isso (fascismo). E dos 30% restantes, parte é de conservadores que já percebeu que caíram num golpe, e outra pequena parte está mergulhada no fascismo. Você pode ser conservador, de direita, de esquerda – pra psicanálise isso não importa. São pessoas. Mas esse negocio aí, o fascismo, é outra coisa.

No seu meio profissional, você já teve muitos problemas por expor suas análises políticas?
Ah, sim, sim. E teve um momento curioso. Quando escrevi sobre a vitória de Bolsonaro, o discurso do ódio dele, o que ele pretendia fazer com o Brasil… Eu esperava reações pesadas de bolsonaristas, mas as mais ácidas vieram de outros psicanalistas. Me diziam: ‘Você não pode fazer isso, porque as pessoas vão pensar que a psicanálise é de esquerda e não vão me procurar’. Outros diziam: ‘Vão achar que psicanálise não é séria porque se mete com política’.

E como você saiu dessa?
De fato, há um consenso de que a gente não interpreta a vida de políticos. Porque é trazer o privado pra dentro do público. Mas minha justificativa é que o Bolsonaro é uma pessoa que jogou o privado dentro do público desde o começo. Então eu briguei com amigos psicanalistas porque disse a eles: ‘Vocês sabem ler discurso, sabem que isso aí (do bolsonarismo) é coisa de outra ordem. É um discurso que destrói pessoas, que autoriza a violência sistêmica’. E aí eu dizia aos meus colegas que eles sabiam que quem ia pagar por isso, por liberar esse discurso, não era o grandão lá em cima, mas o leigo, a mulher, o gay, o negro, que estão lá embaixo.

Apesar de tudo, consegue ser otimista?
Muito! Completamente otimista. A pandemia trouxe pra gente um choque de realidade e uma crise ética. O que você vai fazer com o que fizeram de você? É na hora do aperto que você sabe do que a pessoa é feita. É nessa hora que aparece o melhor e o pior da pessoa. Eu sou otimista porque eu estou vendo que todo mundo sentiu o gosto da mudança. E este tipo de perda real que a covid-19 traz – de vidas, de empregos, empresas – , nos colocou numa dieta narcísica. Pra darmos valor ao que importa e sabermos viver com pouco. Estávamos muito gordos, muito donos de si e do mundo. ‘Eu mando, eu faço, eu clico e acontece tudo’. Você, meu caro, não é de nada pra um vírus que fechou as portas do mundo.

\CECÍLIA RAMOS

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