Protecionismo ‘põe o País num quarto escuro’, diz Trabuco

Protecionismo ‘põe o País num quarto escuro’, diz Trabuco

Sonia Racy

23 de dezembro de 2019 | 01h00

LUIZ TRABUCO. FOTO: DENISE ANDRADE/ESTADÃO

 

Presidente do conselho do Bradesco considera
livre comércio ‘fundamental
para tornar
o mundo menos desigual’ e avisa: grande
desafio,
para bancos e empresas, é ‘agir local e pensar global’

 

Para Luiz Trabuco, presidente do conselho de administração do Bradesco, a democracia brasileira é jovem mas está consolidada. “Os anos recentes mostram justamente isso”, destacou à coluna, em conversa recente, lembrando ser fundamental um sistema que tem vida na base dos pesos e contrapesos. O fortalecimento da democracia brasileira tem reconhecimento internacional e “é um dos elementos da queda acentuada do risco país que regrediu para menos de 100 pontos, vislumbrando a recuperação do grau de investimento”.

Nesse processo há momentos de maior polarização, especialmente nas fases de mudança de ciclo político ou econômico, segundo alerta o executivo, que começou cedo no banco, como escriturário. Assumiu vários cargos de gestão, depois a presidência e agora, depois de 50 anos, está à frente do conselho de administração do Bradesco.

Qual o papel do Brasil neste desenho?
O Brasil consegue produzir mas muitas vezes ele não é tão competitivo pelas dificuldades de logística, da carga tributária ou do chamado custo Brasil. No mesmo período em que houve uma dificuldade do crescimento do PIB industrial, isso foi suprido pelo crescimento do agronegócio. Vamos produzir este ano mais de 200 milhões de toneladas de soja, nos tornando o maior produtor do mundo. Os EUA produzem muito também mas têm problemas da água, impedindo expansão de fronteiras. O Brasil tem água. Lá há também o problema da sucessão – as propriedades médias ou pequenas, tocadas pelos proprietários, sofrem com o envelhecimento pois os filhos migram para cidade.

Nos últimos anos as taxas de juros vêm caindo, no Brasil bem como no mundo. Hoje, 30% dos papéis rendem o que se chama de “juro” negativo. Como vê esse processo?
Olha, após a crise de 2008, para que os governos pudessem tirar seus países da crise, houve afrouxamento monetário. Isso gerou impacto na poupança financeira mundial e hoje ela tem juros negativos. Isso abre grande oportunidade para o Brasil. O dinheiro precisa se reproduzir, o que só acontece investindo. Se a taxa de juros financeira é baixa, os agentes econômicos vão procurar atividades produtivas para compensar queda de rentabilidade. Aqui, chegamos à menor taxa de juro da história. E não podemos subestimar a força da política monetária adotada pelo Banco Central na reativação do crescimento do País, e principalmente na redução do ônus da dívida interna.

Quais são as oportunidades?
Nós temos falhas e desafios da infraestrutura, o ministro Tarcísio tem um diagnóstico muito claro do que deve ser feito.

Lázaro de Mello Brandão, seu antecessor, se foi esse ano. Que lições ele deixa?
Ele foi um ícone do sistema financeiro, porque ao trabalhar ao lado de Amador Aguiar – que foi um lendário – ele foi um gênio ao ver a possibilidade de ter um banco para pequenos e médios depositantes dos anos 40. Seu Brandão acompanhou todas as etapas mais de 7 décadas na construção do banco e do País. Viveu os grandes dramas da economia, quando o sistema bancário se reconfigurou, se adensou. Diferentemente de outros países, onde a hiperinflação praticamente selou de morte das instituições financeiras, no Brasil bancos como o Bradesco e outros foram capazes de se adaptar.

E o desafio de preparar o banco para este momento disruptivo, que é a digitalização da sociedade?
Queremos ser um banco tradicionalmente digital, que oferece a sua marca, credibilidade e conceito – afinal, temos o mesmo nome, a mesma cor e mesma filosofia de trabalho há sete décadas – somado a modernização para facilitar a vida do cliente.

Bancos digitais significam diminuição de empregos?
A digitalização vai criar outro tipo de emprego, né? Um banco do futuro terá de conciliar duas plataformas. Ser high tech, sem deixar de ser um banco de contato, o chamado high touch.

Como que vocês estão se armando para esse futuro?
Temos uma universidade corporativa com várias escolas – e uma delas trata da formação de gerentes. Pelo fato de nós privilegiarmos a carreira aqui dentro, existe a possibilidade de formar esses gerentes.

Quais as qualidades que tem que ter um gerente?
Postura, comportamento, alinhados aos princípios éticos, aos princípios do compliance. Ele tem que ser acima de tudo um agente do compliance, que ele respeite, e traduza o que a clientela quer. A fidelização do cliente no mundo contemporâneo se faz pela especialização. Tratar clientes que têm objetivos diferentes. A pedra de toque é segmentar clientes, segmentar produtos. Somos mais que um banco, somos o maior grupo segurador da América Latina, empresa de cartão de crédito, empresa de leasing, de consórcio. Pacote completo.

O Bradesco não se arriscou a se internacionalizar. Por quê?
Olha, eu tenho de atuar e agir nacionalmente, mas tenho de pensar internacionalmente visto a globalização financeira. Então, acho que “agir local e pensar global” é o grande desafio, não só do banco, mas das empresas brasileiras. Conciliar essa dualidade, de agir aqui mas pensar no mundo.

Nesses anos todos, como avalia a área de produção agrícola, industrial, varejista, comércio…
Olha, o grande desafio do empresário brasileiro foi ser um sobrevivente de ciclos extremamente desafiadores, já que a inflação dilapidava sempre o ativo – não só das pessoas, como das empresas – e, no final do dia, a empresa tinha um compromisso de sobreviver. E os bancos também.

Os bancos são acusados por terem grandes lucros. Sabe-se que se o banco não for lucrativo, ele quebra instantaneamente, diferentemente das empresas. Como amenizar essa imagem?
Os bancos já contribuem com uma alíquota importante do seu lucro econômico com impostos e contribuições sociais, algo na faixa de 45%. Os bancos são gestores dos riscos que a sociedade acaba tendo, voltada para o crescimento. O papel social do banco é fundamental. Eu costumo dizer que a melhor forma de perceber a importância dos bancos é imaginar se eles não existissem.

Onde depositar a moeda? Voltaríamos à época do escambo?
Tem razão. Se não houvesse mecanismo da intermediação financeira, o sistema seria muito binário. Agora, neste cenário, na disputa da poupança, ou melhor, da alocação da poupança na sociedade, você sempre tem o Estado. Então um Estado deficitário acaba demandando grande parte dos recursos da sociedade – é por isso que os juros sobem e ficam às vezes muito elevados. Quando o Estado está equilibrado fiscalmente, existe um maior volume de recursos à disposição da sociedade, o que faz com que os juros caiam.

Qual foi a última vez que você se lembra de Estado brasileiro equilibrado?
Há muitas décadas temos um Estado desequilibrado, um Estado que não é um Estado. O que isso significa? Um Estado que nas despesas correntes gasta mais do que arrecada, não sobrando nada para investimento. Temos de inverter esse ciclo. E pela política econômica, monetária e fiscal, estamos vendo que há mudança.

Acontece com a interrelação entre política e capitalismo?
Estamos vivendo uma fase da história da civilização muito parecida com movimentos cardíacos, de sístole e diástole. Há na economia, às vezes, movimentos contracionistas e, às vezes, movimentos liberais. Como os ciclos não foram revogados, nem na economia, nem na política e nem no corpo humano, esses ciclos vão se sucedendo pela própria biologia humana. Há uma crise da globalização, não no sentido de o mundo ficar mais globalizado, mas pelos resultados sociais que ele não entregou em nível satisfatório. Com isso emergiu o nacionalismo e com ele o protecionismo. Mas temos que estar atentos porque um mundo protecionista e nacionalista pode resultar em um mundo de menores oportunidades.

Isolacionista?
Sim. A postura protecionista equivale a imaginar um país trancado num quarto escuro – e quando de repente aparece um leão, um tigre, você está fadado ao fracasso. A vantagem de um mundo de respeito maior, de maior densidade do livre comércio, do liberalismo econômico é que ele se transforma em mundo de oportunidades pra redução da pobreza e do desenvolvimento. Acho que o livre comércio é fundamental para tornar o mundo menos desigual.

A desigualdade aumentou nas ultimas décadas, não só no Brasil, no mundo inteiro. O que é que deu errado?
Olha, se nós analisarmos a China, ela reduziu a pobreza e aumentou o seu nível de desenvolvimento, por meio da sua inserção internacional. O aumento da densidade de produção e os acordos comerciais abriram espaço para reduzir os índices de subdesenvolvimento do mundo. Países são diferentes e muitas vezes complementares nos seus ciclos de distribuição. Hoje temos uma guerra comercial entre China e Estados Unidos. Acredito que vão chegar a um bom termo até por necessidade dos produtores do agronegócio americano, que precisam aumentar as suas cotas de vendas da soja e do milho para o maior consumidor do mundo, que é a China. Então serão os interesses empresariais que vão definir o fim desta guerra comercial, uma guerra de preservação dos mercados.

A Cidade de Deus foi formada pelo Bradesco ou foi o Bradesco que se instalou dentro da Cidade de Deus?
Quando foi inaugurado em 1953, o Amador Aguiar achou que era importante ter um centro administrativo. Comprou uma propriedade rural e começou a construir uma cidade. Ele acabou batizando-a de Cidade de Deus, se inspirando em Santo Agostinho com seu famoso livro Cidade de Deus (Civitas Dei).

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