Protagonistas da história

Sonia Racy

08 de março de 2012 | 13h27

Marcando o Dia Internacional da Mulher, a coluna colheu depoimento de Eleonora Menicucci, da Secretaria de Políticas para as Mulheres. Animada com a recente aprovação, no Senado, de lei que pune as empresas que pagam salários diferentes a eles e elas quando ocupam cargos equivalentes, a ministra defendeu a luta contínua pela igualdade. Em todos os setores.

A seguir, os melhores momentos da entrevista.

O Dia Internacional da Mulher faz diferença?
Sim, e muita. Porque a data traz à tona a discussão sobre as mais variadas formas de discriminação sofridas pelas mulheres na sociedade e a necessidade da superação das desigualdades de gênero existentes. Em nenhum outro dia do ano há uma movimentação social tão grande nesse sentido, porque a sociedade clama por justiça, por uma democracia radical, com respeito à equidade de gênero.

Por que a senhora acha que não existe o Dia Internacional do Homem?
Porque, historicamente, as relações de desigualdade que imperam na sociedade favorecem homens. Um exemplo disso foi mostrado na terça-feira, com a decisão do Senado de, entre outras coisas, punir as empresas que tratam de forma diferenciada mulheres e homens, com salários inferiores para as mulheres. Os dados do último Censo, feito pelo IBGE, comprovam essa diferença. Segundo o Instituto, em 2010 as mulheres estavam recebendo cerca de 70% do valor do salário de um homem. Na média, o salário da mulher brasileira foi de R$ 983 por mês, enquanto que o dos homens brasileiros foi de R$ 1.392. A desigualdade entre homens e mulheres se repete em todas as regiões do Brasil. E a diferença aumenta quanto maior é o grau de educação e instrução da vaga: no topo da pirâmide, entre os brasileiros que ganham mais de 20 salários mínimos, 80% são homens. As desigualdades também imperam no cenário político, com a tímida participação feminina em espaço de poder e de decisão; e nos ambientes domésticos, em que elas assumem o cuidado com crianças e idosos, entrando em condições de desigualdade no mercado de trabalho. Mesmo assim, elas ainda têm maior nível de escolaridade.

A senhora acha que a data pode reforçar a discriminação?
Ao contrário, coloca luz sobre a necessidade de superar a discriminação, que era invisível por muito tempo e considerada legítima.

Quanto ainda precisa ser feito em relação aos direitos das mulheres brasileiras?
Eu diria que muito. O desafio agora é tornar realidade o que foi proposto no Plano Nacional de Políticas para as Mulheres, com as atualizações discutidas na 3ª Conferência de Políticas para as Mulheres. É prioridade garantir a incorporação de melhorias da condição geral das mulheres nas áreas econômica, política, social e cultural – com repercussões nas esferas jurídicas e administrativas. Entendemos que não se pode aceitar que, ainda hoje, quando temos uma mulher no mais alto cargo do Poder Executivo e outras tantas mulheres em posições de decisão dos rumos desta nação, mulheres sejam vistas como meros objetos sexuais, não tenham seus esforços diuturnos para a sobrevivência própria e de seus familiares reconhecidos. Não podemos aceitar que morram durante a gravidez, por falta de assistência; que continuem sem realizar exames preventivos, como o de câncer de mama e os exames ginecológicos, que continuem sendo mal atendidas em repartições públicas e privadas e que tenham seus direitos reprodutivos e sexuais desrespeitados. É fundamental a ampliação desse direito na perspectiva das mulheres em suas diversas identidades, para além do ciclo reprodutivo, possibilitando o desenvolvimento de políticas de saúde integral para a melhoria da qualidade de vida das mulheres, na juventude, na menopausa, de mulheres lésbicas, mulheres com deficiência, mulheres negras, rurais, por exemplo.

Quando as mulheres forem tratadas de maneira igual aos homens, este dia poderá ser cortado do calendário?
Talvez. Ou a data mude de caráter: o que era luta contra a desigualdade pode virar comemoração pelo dia da igualdade de gênero.

Que mensagem a senhora daria às mulheres brasileiras neste dia?
Quero parabenizar todas as mulheres pelo Dia Internacional da Mulher e por todos os dias de sua vida em que lutaram bravamente pela sobrevivência, desde a necessidade de compartilhar o cuidado com filhos e filhas até por melhores salários num mercado de trabalho ainda marcado pela discriminação. Que lutam pelo direito básico de igualdade e justiça social. Quero parabenizá-las pela grandeza, pela vontade e coragem de lutar por um País melhor, cada uma à sua maneira, no campo ou na cidade. E dizer que, à frente da Secretaria de Políticas para as Mulheres, estou comprometida com a construção de uma sociedade democrática com respeito a gênero, classe e etnia. O que significa trabalhar pelo fim da violência contra as mulheres, ampliar e melhorar acesso à saúde, lutar para que as mulheres conquistem mais espaços de decisão e de poder, conquistem sua autonomia, conquistem o pleno direito de cidadania. Porque queremos, sim, ser protagonistas na história do País.

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