‘Propriedade pantaneira equilibrada tem valor’, defende Roberto Klabin

‘Propriedade pantaneira equilibrada tem valor’, defende Roberto Klabin

Sonia Racy

28 de setembro de 2020 | 00h50

Roberto Klabin. Foto: Marcia Reed

Criador da SOS Pantanal e um dos fundadores da SOS Mata Atlântica, Roberto Klabin sai da sua habitual discrição para alertar sobre o desastre que atingiu o bioma, onde ele atua há mais de 25 anos. Montou por lá o Recanto Ecológico Caiman dentro de uma área gigante de sua propriedade com todo cuidado ambiental até além do exigido por lei. Trata-se de um dos maiores paraísos do mundo para observação de fauna, combinando atividade pecuária e desenvolvimento científico, atrelado a um modelo de negócio considerado sustentável. 

 Militante ecológico, Klabin explica que a ignorância e má-fé são os principais combustíveis dos incêndios que aconteceram na região. Mas alerta: “Não adianta denunciar, ameaçar”. Para ele, é preciso educar aqueles que fazem queimadas sem autorização. Prega, além da preservação ambiental, por uma união consciente dos proprietários rurais da região: “Propriedade pantaneira equilibrada tem valor”. 

Por outro lado, o também empresário não se conforma com a falta de visão do Brasil em promover o turismo: “É um ativo rentável”. Espera algo do governo? “Nada, ninguém deve contar com ele”, desabafa. A ONG, mais outras tantas,  trabalha no resgate de animais feridos,  arrecadando  doações para sustentar brigadas treinadas em campo contra o fogo. Aqui vão os melhores momentos da conversa.  

Qual foi seu propósito no começo da SOS Pantanal ?

Eu tinha o Recanto Ecológico Caiman que busca acomodar na mesma área várias atividades: a pecuária extensiva de corte tipicamente pantaneira, o turismo de observação de fauna e projetos de pesquisadores. Enfrentei dificuldades no esforço de manter este guarda-chuva de atividades de equilíbrio da biodiversidade pantaneira. Conseguimos, acredito. Levei também a mesma ideia para os vizinhos do recanto. Defendo que o negócio se adapte ao Pantanal e não o Pantanal ao seu negócio. 

Como é possível equilibrar ecologia com pecuária? 

Praticamente todo o Pantanal é propriedade privada e envolve a pecuária extensiva há 300 anos. O que tornou-o até mais utilizável. Para ter gado na região não precisa derrubar a floresta, nem destruir o ambiente. É possível conviver gado com toda fauna selvagem.  

 Você atua desde 1985 por lá, o que mudou? 

Antes dos incêndios consecutivos, o Pantanal era o bioma menos transformado do Brasil, 84% da área mantinha características originais. Tive que mudar, culturalmente, muitos aspectos na minha propriedade.

Por exemplo?

A maneira como os peões se relacionavam com a fauna selvagem, muito agressivos. Todo mundo andava armado. Tinha quem caçava bicho para comer. Havia onça na propriedade, mas não se via. Quando montei o hotel, passei a dar emprego para essas famílias, os filhos se transformaram em guias nativos. Então, de repente os peões que antes matavam começam a avisar você sobre a presença de animais especiais na propriedade e começam a enxergá-los também como um ativo. Um avanço. Tive que proibir a presença de cães na fazenda porque caçavam os animais pequenos. Acabei perdendo grande parte dos empregados que queriam ficar com seus cachorros… 

Então, eles optaram pelo próprio cachorro? 

Exatamente, ainda há gatos. Eles estão sendo gradualmente reduzidos porque são caçados pelas jaguatiricas. O efeito é que os animais todos começaram a voltar: veados, tatus, capivaras, tamanduás, bandos de queixadas. Na minha casa tenho onça dormindo no terraço. É o chamado de turismo regenerativo. E, em parte, explica a quantidade de onças e animais que tenho no refúgio Caiman.  

Esse modelo de negócio sustentável é rentável? 

Propriedade pantaneira equilibrada tem valor, mantendo biodiversidade, pecuária e outras atividades. Terá muito mais valor monetário do que às destinadas apenas à pecuária ou alguma monocultura. Lá na África do Sul há um lugar de 60 mil hectares com 24 empreendimentos hoteleiros de cercas abertas para os animais do Parque Kruger nas redondezas poderem transitar. O condomínio de hotéis, por sua vez, está perto de vizinhos que desenvolvem uma pecuária precária. O hectare do africano vale US$ 100 dólares; o outro, algo em torno de US$ 10 mil. O turismo de alto nível, de poucas pessoas não de massa, pode fazer a valorização da propriedade.  

O que esperar do governo no rumo do turismo? 

Ninguém deve contar com o governo. O caminho é união entre os proprietários de terras para mudar práticas erradas e incorporar novas. A união faz a força, principalmente numa situação como essa de incêndio. As brigadas particulares formadas por várias fazendas podem ter um impacto muito grande. Investir na educação dos fazendeiros, na criação de treinamento dessas brigadas, em sistemas de prevenção. O governo poderia reconhecer que o gado no Pantanal é diferenciado e promover um selo verde do bioma, por exemplo. É uma carne especial. Hoje o proprietário pantaneiro paga pelos insumos o mesmo que o fazendeiro do planalto. É muito mais difícil você manter a propriedade no Pantanal em função da natureza, das mudanças climáticas que acarretam todas essas questões de fogo. 

O Brasil não sabe promover o turismo? Qual balanço faz disso?

Não sabemos promover a Amazônia, o Pantanal, Foz do Iguaçu, Lençóis Maranhenses, o Cerrado, lugares incríveis. Não sabemos construir produtos sustentáveis nesses lugares. O nosso turismo é uma vergonha. Recebemos 6,5 milhões de estrangeiros há dez anos, sendo que dois terços vêm de países vizinhos. Europeus, americanos e outros desconhecem o Brasil, que tem uma imagem péssima no exterior, agravada por esse governo terraplanista, negacionista, sem uma preocupação em salvar essas áreas e de respeitar o que a ciência manda. Estou satisfeitíssimo porque a Globo vai fazer de novo a novela Pantanal. Isso levanta o bioma e tenho certeza que agora a novela será muito mais ligada à questão ambiental. 

Como avalia os últimos incêndios no Pantanal? 

As pessoas falam que o incêndio é natural. Acredito que 99% dos incêndios são ocasionados pelo homem, 1% é natural. Ele acontece em geral motivado por ignorância ou má-fé. Há o indivíduo que queima o lixo ou uma casa de vespa numa época de muito vento, seca, e a situação sai do controle. E há o fogo provocado por indivíduos que pensam que nunca vão ser descobertos e queimam sem autorização legal. O gado é fundamental na região, ele mantém o pasto baixo. O pasto alto e seco pode ser o estopim de foco de incêndio no Pantanal. 

Existem queimadas autorizadas na região? 

Pode-se manejar áreas com fogo desde que você peça autorização e cumpra as obrigações legais. Quando se quer renovar a pastagem nativa ou controlar a biomassa, coloca-se fogo depois das primeiras chuvas porque se for em época de seca pode alastrar. Tem gente de má-fé que se aproveita, na época de seca, e provocam incêndios porque não querem ter o trabalho de pedir e pagar pelas licenças, de serem controlados. Aí eles põem fogo. 

Como lidar com isso? 

Uma das formas de melhor levar essa questão para frente seria por meio de entidades ambientalistas no Estado, que pudessem ensinar e destacar as boas práticas. Ao invés de ameaçá-los, de dizer que vai denunciá-los. 

Foi fácil implantar a SOS Pantanal há 10 anos? 

Quando escolhemos o nome de SOS Pantanal, os fazendeiros disseram que a ONG já começava errada, porque o Pantanal não precisava de SOS. O Pantanal precisa, sim, de SOS, precisa de atenção. Levar a mensagem é difícil. 

E hoje? 

Essa situação terrível do incêndio serviu também para SOS Pantanal sair com destaque, mostrando o trabalho sério da ONG. E que ela pretende usar as doações que está recebendo para treinamento de brigadas de fazendeiros contra o fogo e a iniciativa fantástica de salvamento de animais queimados no Pantanal. 

/COLABOROU PAULA BONELLI 

 

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