Presidente da Bienal de SP fala do desafio de incentivar a arte na pandemia

Presidente da Bienal de SP fala do desafio de incentivar a arte na pandemia

Sonia Racy

10 de setembro de 2020 | 00h45

JOSÉ OLYMPIO DA VEIGA PEREIRA – FOTO: DIVULGAÇÃO

A ideia para a 34ª Bienal de São Paulo, mesmo antes da pandemia, era a de que a mostra se estendesse pelo espaço e tempo. Exposições e performances espalhados por outros polos culturais começaram a ser realizadas em fevereiro deste ano e a edição iria até à coletiva, em outubro. Com o adiamento para setembro de 2021, surgiu uma nova programação online gratuita, pontuada por lives com curadores, entrevistas gravadas com artistas em seus ateliês e minicursos – que também comemoram os 70 anos da Fundação.

Para José Olympio da Veiga Pereira, presidente da instituição, a ferramenta digital tem uma capacidade de alcance inacreditável e o principal desafio continua sendo “como tornar a arte contemporânea acessível ao grande público”. Leia abaixo a entrevista.

A Bienal sempre foi um evento que atraiu um grande volume de público, mesmo aquele que não é profundo entendedor de arte. Como trazer essas pessoas para o digital?
Vamos fazer campanha on e off line para atrair o interesse geral do público. Antes disso tudo acontecer, nós já estávamos com uma atividade digital grande. Para ser exato, a ação da Bienal no online data do início da internet, de 1996. Fomos precursores no uso da internet para divulgação de conteúdo. Nossas redes sociais também estão indo muito bem. Buscamos fazer isso de forma acessível, não hermética, para que não só o intelectual possa usufruir. O desafio é como tornar acessível a arte contemporânea ao grande público.

Pela observação de vocês, o público brasileiro adotou o costume de consumir arte pelas redes sociais?
O público brasileiro de uma forma geral pode consumir mais arte do que consome, e, principalmente, a arte contemporânea. Há certo desconhecimento e até desconforto com a arte contemporânea. É muito fácil ir ao MASP e achar os Van Gogh maravilhosos porque são obras consagradas. Temos que educar as pessoas na hora de promover a arte contemporânea, é preciso ativar um tipo de sensibilidade a que muitos não estão acostumados. Ouvimos muito essa pergunta, ‘ah, mas o que essa obra quer dizer?’ Não quer dizer nada. O interessante é que efeito aquilo tem sobre você, é um exercício de reflexão, de sensibilidade e de pensar não necessariamente com o racional.

A extensão da programação no tempo, no espaço e nas redes se liga ao projeto curatorial de que forma?
Tem a ver com uma mensagem em alta na Bienal, que é a questão da importância do diálogo. Um dos pensadores que orientaram o projeto curatorial é Édouart Glissant, filósofo que defende que os diferentes têm que ser capazes de se relacionar e de dialogar, sem necessariamente abrir mão das suas ideias. Se alinha com a metáfora de você ter todas as instituições culturais de São Paulo trabalhando juntas por um objetivo comum, que é promover a arte contemporânea de uma forma coordenada, sem abrir mão das suas identidades.

Muitos artistas criticam abertamente a relação do atual governo com o meio cultural. Como o senhor vê a questão?
Quando o ministério foi extinto e transformado numa secretaria eu inicialmente pensei que isso não necessariamente representava uma perda de importância da cultura, até porque, naquele momento, eu achava que uma redução do número de ministérios era boa. Mas, infelizmente, com essa troca constante de secretários, a cultura está sofrendo, sim. Podem existir críticas sobre políticas culturais, mas tem que ter ação. Até já pedi para conhecer o novo secretário de Cultura e faço votos que ele faça uma boa gestão. Mas a experiência deste último ano e meio não foi boa. /MARCELA PAES

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