Premiada, Barbara Paz oferece leão a Babenco

Premiada, Barbara Paz oferece leão a Babenco

Sonia Racy

11 de setembro de 2019 | 00h40

BÁRBARA PAES EM VENEZA. FOTO: IDENTITY COMMUNICATION

 

Para Bárbara Paz, Babenco – Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou é mais que um filme sobre seu ex-marido, Hector Babenco. Ela define o longa – que levou o prêmio de melhor documentário sobre cinema em Veneza e o prêmio da Crítica Independente – como “uma carta de despedida, um poema visual”. A atriz e diretora conversou com a coluna sobre a surpresa ao faturar um Leão, os protestos ocorridos durante o festival e novos projetos na direção.

No seu discurso de agradecimento você falou sobre censura. O que acha do momento que o Brasil está vivendo?
Eu escrevi o discurso 5 minutos antes e, nesse mesmo dia, estava acontecendo aquilo na Bienal (a tentativa de censura dos livros LGBT na Bienal do Livro do Rio). Não é possível que a gente vá retroceder dessa forma neste País, não é uma questão de direita ou esquerda. O povo votou, escolheu um governo e tudo certo, nós vivemos numa democracia. Mas censura é um retrocesso enorme. Já andamos tanto e fazer algo assim é inaceitável. Para o cinema a liberdade é crucial. Todo mundo lá em Veneza estava falando do Brasil. Perguntando principalmente sobre as queimadas na Amazônia, só se falava disso. Não tinha como eu não falar. No tapete vermelho eu levei o cartaz (com a frase ‘I am Amazônia’)para chamar atenção para o problema. Muita gente lá do festival veio me agradecer pela importância do protesto. É um alerta. O mundo está preocupado com o Brasil e está falando sobre a nossa situação, sobre o problema na Amazônia.

Você sentiu alguma mudança na imagem do País?
Não. As pessoas amam o Brasil, amam o que a gente faz, amam o nosso cinema, mas estão assustados com o que pode acontecer. Todo mundo abre o sorriso quando fala do Brasil, mas agora com preocupação, se perguntando onde isso vai parar.

Tinha alguma expectativa em relação ao prêmio?
Nenhuma! Eu já achava um prêmio estar lá entre nove filmes que são filmes grandiosos, sobre o Tarkovski, sobre o Fellini. A sessão foi muito bonita, foi emocionante. Estava lotada e muita gente ficou de fora – além do ótimo bate-papo com a plateia. O Julian Schnabel (pintor norte-americano que era amigo de Babenco) estava na sessão e também ficou superemocionado. Foi uma surpresa entrar num festival grande desses com o meu primeiro filme, que é muito pessoal.

Você tem algum palpite sobre o que o Babenco acharia da sua vitória?
Ele sempre teve muita opinião e odiaria que eu falasse por ele. Durante todo o tempo lá eu senti a energia dele regendo aquilo. Ele nunca ganhou um Leão e esse Leão aqui é dele. Ele tinha muito carinho pelo festival, já participou do júri, mas jamais ganhou. Agora este leãozinho é como se fosse um filho nosso.

Foi seu primeiro trabalho dirigindo. Você acha que agora seguirá para direção?
Sim, eu quero caminhar para a direção em paralelo com a minha carreira de atriz, não vou parar de atuar. Eu já estava seguindo por esse caminho e ele (Babenco) me deu esse passaporte para eu acreditar que podia dar certo. Estou com outro projeto, mas de ficção. É um filme sobre solidão que comecei a desenvolver quando o Hector ainda estava vivo. O documentário vai entrar na Mostra de Cinema de SP e rodar outros festivais. Também lanço em Óbidos (Portugal) o livro Mr. Babenco: Solilóquio a Dois Sem Um. /MARCELA PAES

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