Prejuízo com vazamento de óleo ‘pode ficar muito maior’, avisa ambientalista

Prejuízo com vazamento de óleo ‘pode ficar muito maior’, avisa ambientalista

Sonia Racy

24 de outubro de 2019 | 00h50

 

JOSÉ PEDRO DE OLIVEIRA COSTA. FOTO: IARA MORSELLI /ESTADÃO

Veterano conhecedor dos desafios ambientais do País e do planeta, tendo passado pelo governo FHC para cuidar de biodiversidade e florestas, José Pedro de Oliveira Costa se diz “estupefato” com a sequência de más notícias na vida ambiental brasileira. Primeiro, o que chama de “desmonte” do ministério, depois as queimadas na Amazônia, agora a invasão da costa do Nordeste por óleo derramado em alto mar, de consequências ainda imprevisíveis. Ao avaliar, nesta entrevista, esses vazamentos, ele conclui: “O fato é que não temos meios de saber onde o petróleo está, no fundo do mar, nem o tamanho desse depósito. O estrago, que hoje é enorme, pode ficar ainda maior”.

Como analisa o episódio dos vazamentos de óleo na costa do País, entre Bahia e Ceará?
O que me parece é que demoraram pra encarar o desafio em sua real dimensão. Depois vimos autoridades federais e estaduais batendo boca, revelando desconhecimento do problema real. A Marinha entrou, agora o Exército. Mas não se sabe bem qual o foco da ação nem qual a estratégia para o futuro.

Qual o seu balanço sobre os estragos dos vazamentos?
As consequências serão catastróficas. Primeiro aparecem as turísticas, com impacto econômico, cancelamento de viagens etc. Mas o crucial mesmo é saber o que está acontecendo “lá embaixo”. O petróleo atingiu muito, ou pouco, os corais? E os recifes, os manguezais? De que modo afetam peixes, moluscos, caranguejos ou tartarugas que dependem deles para se alimentar e se reproduzir? Quanto tempo isso ainda vai durar? A verdade é: o estrago no mar é enorme e pode ficar ainda maior.

Não há alternativa para a vida que circula nesses ambientes?
Não dá pra saber. O mangue, por exemplo, é um berçário, uma junção de água doce com salgada. A água fica ali parada, na calmaria, folhas caindo, detritos acumulando, cria-se uma massa orgânica de alto poder alimentício. Aí você cobre tudo de petróleo, interrompe a reprodução. Com os corais, a mesma coisa. Há santuários especiais, como os de Alagoas e Paraíba e não se sabe ainda como estão.

Como isso é protegido em tempos normais?
Temos um Código Florestal que é de 1937 e foi atualizado uma ou duas vezes. Mas o petróleo estando submerso não é simples saber onde ele está.

O sr. já falou em “princípio de precaução”. De que se trata?
É uma forma de controlar riscos. O primeiro item é evitar que aconteça. O segundo, havendo acidente, é estar preparado para combatê-lo, minorar seus efeitos. O terceiro é esclarecer responsabilidades. O que me surpreende é que, com a tecnologia existente, ainda não tenham ideia exata do que ocorreu. A tecnologia não tem ideologia. Mas precisa de disposição pra se aplicar.

O que o governo pode fazer para reduzir os danos?
Sempre é possível estabelecer um plano. Mas veja, dois meses depois de surgir o problema ainda tem gente recolhendo mais de uma tonelada de petróleo numa praia…

Outros países dispõem de melhor tecnologia que a nossa? Poderiam ajudar?
O Brasil, em muitos casos, tem preparo e tecnologia de ponta, no mesmo nível de outros países. Mas na contramão disso as autoridades do governo perderam a credibilidade internacional ao passar ao mundo a mensagem de que não estão se incomodando com as questões de meio ambiente. / GABRIEL MANZANO

Tudo o que sabemos sobre:

Ministério do Meio Ambiente

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.