‘Prefiro Obina ao Plano Cruzado’

‘Prefiro Obina ao Plano Cruzado’

Redação

17 de agosto de 2009 | 07h33

Luiz Belluzzo, presidente do Palmeiras, pretende mudar o futebol: quer criar uma liga e um fundo para comprar jogadores

Engana-se quem acha que a vida de Luiz Gonzaga Belluzzo se limita a duas paixões – economia, na qual joga no primeiro time nacional, e futebol. A exemplo de Mário Henrique Simonsen, o presidente do Palmeiras também conhece, e bem, música clássica. “Aprendi com padres jesuítas a ler partituras”, conta Belluzzo, que recebeu a coluna em sua casa, numa tarde tranquila – se é que na vida de presidente de um grande clube há tardes tranquilas.

Na conversa, revelou que já jogou futebol, sendo um bom centro-avante. “Pelo menos, era o que diziam”, recorda. Hoje ele mostra que faz um bom meio de campo. Não é fácil ser amigo e conselheiro de Lula, interlocutor de José Serra, além de ex-professor de Dilma Rousseff. Em tom de brincadeira, desconversa sobre essa delicada situação dizendo que, nas eleições de 2010, vai se mudar para a Noruega – já que não poderá votar duas vezes…

Com olhos de economista, além de defender o futebol como política pública, Belluzzo propõe que os clubes sejam transformados em sociedades anônimas, ampliando suas possibilidades e responsabilidades. E mais: quer a criação de uma defesa contra a venda de jogadores para clubes infinitamente mais ricos que os brasileiros. Como? Por meio de um fundo coletivo que pertenceria a uma Liga de Clubes do Brasil, também a ser criada. Pode-se deduzir que seria uma espécie de “Febraban do futebol”, que viria acoplada a algo que também existe no mercado financeiro: um fundo garantidor de créditocomo o que hoje “segura” os bancos em horas difíceis.

Lula e Ricardo Teixeira, da CBF, combinaram que é preciso mudar o calendário do Brasileirão, coisa que o senhor vem defendendo. Deveria haver também alguma lei impedindo a transferência de jogadores no meio do campeonato? Criar uma lei seria algo complicado, inconstitucional. É preciso, sim, uma mudança na estrutura societária dos clubes. Eles precisam deixar de ser uma sociedade civil sem fins lucrativos, pois essas entidades não podem ser executadas e isso dificulta obter financiamentos.

E como evitar as transferências? Poderíamos criar um fundo coletivo para reposição de jogadores, em moldes que permitissem diminuir a defasagem, em termos financeiros, em relação aos clubes europeus. Sou a favor de uma liga como a da Inglaterra. Mas isso tem que passar pelo amadurecimento dos dirigentes. É preciso transferir a responsabilidade da gestão para a liga em vez de deixar tudo nas costas da federação. Outro dia fiquei indignado quando vi na TV o jogo de um torneio de verão entre Milan e LDU (do Equador). Poxa, imagina se fosse Milan vs. Palmeiras ou São Paulo… Os times brasileiros têm mais peso mas não podem excursionar por falta de datas. Perdem receita e exposição.

O que acha da CBF? Depois de eleito não falei ainda com o Ricardo Teixeira. Mas me dou bem com ele, sei que ele tem claro que é preciso mudar o calendário do futebol e que apóia a criação de uma liga.

O sr. é o único intelectual-cartola do futebol brasileiro. Sente-se um estranho no ninho? Outro dia recebi um telefonema do pessoal da Gazzetta dello Sport perguntando sobre isso. Eles não entendiam como um professor universitário e intelectual virou presidente de time de futebol. Acharam estranho…(risos).

Qual a relação entre economia e futebol? O futebol nasce como um fenômeno do século 19.Tem a ver com o estilo de vida moderno, como a economia, mas esta é uma coisa racional. Como é racional a música clássica, de que gosto muito também, pois tem uma estrutura lógica.

E entende? Entendo, sei distinguir os autores. Sou sobretudo um beethoveniano.

Quando foi que o sr. se apaixonou pelo Palmeiras? A primeira palavra que aprendi com meu pai foi “Palestra”. Minhas fotos com três anos sempre têm uma bola. Fui a um estádio pela primeira vez aos cinco anos, em 1947, para ver um Palmeiras vs. São Paulo. Foi 4 a 3 para nós.

Na torcida entre Dilma e Serra, em qual arquibancada o sr. ficará? Sou amigo dos dois. Dilma foi minha aluna no mestrado e doutorado. Vou ter é que me mandar para a Noruega… (risos).

Ela foi sua aluna naquele doutorado que não terminou… Tem gente dizendo que ela não frequentou as aulas, isso é mentira. Ela foi minha aluna. A não ser que eu tenha visto um ectoplasma…

Disseram que o Serra o incumbiu de levantar o currículo dele. Como foi isso? Surgiu uma notícia de que o Serra não tinha graduação em economia, porque saiu daqui no 3º ano da Politécnica e foi para o Chile, no exílio. Mas lá ele foi direto para a pós-graduação em economia. Depois, foi para (a universidade de) Cornell, onde fez doutorado. De volta, foi trabalhar no Instituto de Economia da Unicamp, onde eu dava aula.

O governador costuma ligar reclamando do Palmeiras? Ele me liga quase todo dia. Certa vez, num jogo com o Real Potosí, no Palestra, tomamos um gol quando o placar marcava 2 a 0. Tocou o telefone na hora: era ele prestes a embarcar para Europa. “Pô, o Potosí fez um gol. O Palmeiras não pode ganhar só de dois…” Em seguida fizemos 3 a 1, mas ele já estava voando. Quando aterrissou, o jogo tinha acabado em 5 a 1.

O sr. é remunerado no Palmeiras? Não, e não acho que devia ser. Mas temos um diretor-financeiro e outro de futebol bem remunerados. O problema é que tudo isso está mergulhado numa estrutura amadora. O futebol é um negócio complicado, não funciona só no racional. Entra um ingrediente extra, o enlouquecimento afetivo das pessoas. Contra isso não há racionalidade que vença.

Mas o sr. pode ser responsabilizado por algo que aconteça de errado no clube? Em princípio, sim, mas isso é incorreto. Conversei muito com o Andres (Sanchez, presidente do Corinthians) sobre isso. Não é fácil gerir uma estrutura precária, correr toda hora atrás de dinheiro, sofrer pressão da torcida. O torcedor sempre acha que sabe mais que você.

Quanto custa o Palmeiras? Custa R$ 15 milhões (por mês). Recebe R$ 35 milhões pelo Brasileiro, mais R$ 9 milhões pelo Paulista, em direitos de transmissão. E também uma verba de material esportivo, que as empresas fornecem. A mensalidade dos sócios vai para a parte social do clube. Estou empenhado, nunca administrei uma coisa com tanta vontade de dar certo.

Nem no governo federal? Quando fui do governo administrei com responsabilidade. Mas tenho que admitir: entre contratar o Obina e fazer o Plano Cruzado, prefiro o Obina (risos). Contratar jogador é uma aposta, se bem que o plano também foi – só que deu errado. Foi feito em circunstâncias complicadas.

Já saiu do Conselho da TV Brasil? Ainda não. Preciso falar com o presidente antes. Mas vou sair.

Ganhou salário lá? Não.

O sr. tem algo contra ganhar salário? (risos) Não. Eu recebo como professor da Faculdade de Campinas e sou aposentado da Unicamp. Dá para viver bem.

Por Pedro Venceslau e Sonia Racy

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.