“Precisaremos de rituais de acolhimento nas escolas”, diz Priscila Cruz, do Todos pela Educação

“Precisaremos de rituais de acolhimento nas escolas”, diz Priscila Cruz, do Todos pela Educação

Sonia Racy

01 de junho de 2020 | 00h40

PRISCILA CRUZ, PRESIDENTE EXECUTIVA DO TODOS PELA EDUCAÇÃO – FOTO: DIVULGAÇÃO

À frente do Todos pela Educação – uma organização não governamental apoiada por gigantes como Itaú, Natura e Votorantim –, Priscila Cruz, 45 anos, sendo quase 20 dedicados ao setor no Brasil, nunca se viu tão “angustiada”. “Me faltam palavras pra definir o que o Brasil presencia na Educação hoje”. Mesmo sem a ajuda do MEC, sublinha, e com a sociedade civil se “organizando sozinha”, ela acredita que a volta às aulas presenciais da rede pública no País se dará em agosto, “num cenário otimista” da pandemia da covid-19. E alerta que os Estados que não estiverem se planejando para isso já estão atrasados.

“Não é uma volta pós-férias. Tem que ter protocolo de saúde, impacto emocional. Vamos precisar de rituais de acolhimento”, explica Priscila, advogada, mestre em Administração Pública pela Harvard Kennedy School of Governmaent.

Ela integrou o time que compôs as diretrizes para o ensino remoto no Brasil e para a retomada das aulas presenciais. O grupo – que inclui o Conselho Nacional de Educação e todos os secretários da área no Brasil – analisou 43 estudos de escala internacional para extrair experiências em diversos países. Como voltaram após tragédias, guerras, pandemias? “Há um estresse tóxico que vamos ter que lidar”, alerta Priscila, nesta entrevista a Cecília Ramos. Veja principais trechos.

Como será a retomada?
Num cenário otimista, há um retorno possível em agosto. Essa volta tem que ser escalonada. Talvez comecemos com 20% da capacidade. Por isso tenho dito aos gestores do País: quem ainda não traçou um plano de retorno, já está atrasado. Com o ensino remoto estamos no meio de campo, mas a gente só marca gol na educação com a retomada das aulas presenciais. Está claro que o nível de engajamento de aulas remotas está baixo em todo o País, apesar de todos os esforços.

Aulas presenciais mudarão completamente o formato?
A gente analisou 43 estudos de larga escala nacional e internacional, que estudaram a retomada do ensino após crises agudas, como pandemia e desastres naturais e guerras. Como a educação conseguiu sobreviver e até melhorar em ambiente adverso. E o cerne da questão é: essa volta às aulas é diferente de um pós-férias. As escolas vão precisar adotar protocolo de saúde.

No que consiste?
Em diretrizes para as escolas saberem como vão se comunicar com as famílias; como dar apoio emocional ao aluno e ao professor? Qual será o protocolo de higiene? Alunos vão entrar com seus sapatos? Haverá pia perto das salas? Todos usarão máscara? Vai ter espaçamento entre as bancas?

A maior preocupação é com o emocional, nessa volta?
Pelo que tenho testemunhado, os efeitos da covid-19 no emocional das pessoas envolvidas com a educação é alarmante. Eu participo de seis, sete videoconferências por dia com mestres, educadores. Não há uma coordenação mínima do Ministério da Educação, não procuraram os secretários estaduais e a sociedade civil é quem está cumprindo o papel que é do MEC. Isso só aumenta o estresse tóxico que uma pandemia já causa. Vamos precisar de rituais de acolhimento na volta.

Pode dar um exemplo?
Não vai dar para tocar um sinal na escola e dizer: ‘pessoal, vamos pra aula de matemática’. A gente vai ter que passar semanas, talvez, acolhendo uns aos outros. Ouvindo as histórias de cada um. E ter um olhar sobretudo à professora, porque a maioria é mulher e ainda por cima pode ter sofrido violência doméstica na quarentena. Isso aí é outro componente do estresse tóxico, que afeta psicologicamente.

Quais países e experiências inspiraram o plano?
O Haiti, em especial. Primeiro, porque teve aquele terremoto que matou a querida dra. Zilda Arns (em 2010). Ela foi uma das fundadoras do Todos pela Educação. É uma perda que até hoje mexe com a gente. Esse estudo do Haiti mostra como um país pobre se recuperou – e, lembremos, com ajuda grande do Brasil. Lá, vimos a importância da comunicação dos gestores públicos com seu povo e a participação da família na educação escolar. Pela experiência internacional, a evasão e o abandono é um dos principais riscos pós- tragédia.

Que outros riscos há?
O risco número um é a defasagem de aprendizagem. A pandemia gerou uma lacuna. O risco dois é a desigualdade. Porque tem escola que consegue fazer ensino remoto melhor, mas outra já é mais vulnerável. O terceiro risco é do abandono escolar. E o quarto são questões emocionais não tratadas. Isso tem reflexo no desenvolvimento cognitivo. A educação sozinha não vai dar conta, temos que ter um trabalho de união com a saúde, economia e assistência social.

Que estados se destacam pelo bom exemplo na pandemia?
Quem se destaca nas duas frentes (quarentena e pós-pandemia), é Pernambuco, São Paulo e Maranhão. O secretário Fred Amâncio (PE) é muito bom, é fora da curva. Pernambuco já está mais avançado inclusive no planejamento de retomada presencial. Em SP, destaco o trabalho hercúleo do Rossieli Soares para ampliar o acesso ao ensino remoto, com app, TV, parceria com as teles. E tudo isso sem ajuda do governo federal.

Sobre o EAD (Ensino a Distância), há o fato de ter exposto as desigualdades sociais, num País em que 30% dos domicílios não têm internet, diz o IBGE. Ao mesmo tempo veio pra ficar?
Aula remota nunca vai se equiparar à aula presencial. Uma grande parte dos alunos da escola pública está sem aula alguma justamente por isso que você citou, estão sem internet. Um dos legados da pandemia é que a tecnologia não substitui o presencial, mas complementa. E também acredito que os pais vão sair dessa dando mais valor à escola. Pela primeira vez, eu, por exemplo, assisto a aulas das minhas filhas. É lindo! Minhas filhas estão no Zoom. Já fizeram até recreio virtual, num site, para atividades coletivas. Aí a gente vê como é difícil o trabalho dos professores.

Esta crise sanitária também reacendeu o debate sobre o Homeschooling (educação domiciliar, sem precisar de escola regular). Isso vai pra frente?
É um método ‘irmão’ do Escola Sem Partido (movimento contra suposta ‘doutrinação ideológica’ que virou projeto de lei, mas não foi aprovado até hoje). Não acredito que o Homeschooling avance.

Que orientação dá a familiares que estão ‘educando’ filhos, na quarentena?
Primeiro: evitem estresse no ambiente. Isso gera marcas emocionais pra sempre, sobretudo nos menores. Segundo: pais, familiares não são professores, não os substituirão. Pais precisam fazer as pazes consigo. E entender que não dá pra fazer tudo. Devem pedir apoio à escola.

Em 2021, você fará 20 anos trabalhando com educação, conhece todos os ministros do período. Que balanço faz do atual, Abraham Weintraub?
Ele é inacreditável. No nosso meio, a palavra mais comum é angústia. Weintraub e seu grupo não sabem o que é gestão pública, acham que é fazer show nas redes sociais. É constrangedor. Também é responsabilidade dos brasileiros que aplaudem essa gestão tão descolada da realidade, da ciência, da eficiência. As palavras absurdo, indecente e injusto não dão conta do que a gente presencia no Brasil.

O Enem acabou adiado sob pressão, mas não há data. O novo Fundeb não foi aprovado ainda e postos cruciais pra educação estão sendo entregues à política (o Centrão) por Bolsonaro. Como ter esperança?
Eu durmo e acordo angustiada (faz uma pausa, se emociona). Indignada. É desesperador. Os alunos e educadores não merecem isso. O Enem virou uma questão política do presidente contra governadores. O Fundeb, com a covid-19, perdeu posições na pauta da Câmara, mas temos boa interlocução com Rodrigo Maia. Já o MEC não participou e o pouco que fez foi decepcionante. Nossa esperança é a própria articulação da sociedade civil.

Quais foram os melhores ministros da Educação?
Paulo Renato (governo FHC), que foi o ‘pai do MEC’, Fernando Haddad (governos Lula e Dilma) e Mendonça Filho (governo Temer). Observe que são três ministros de orientações políticas diferentes. PSDB, PT e DEM. O que os une? O trabalho técnico, a preocupação com resultados.

E o maior legado da pandemia para a educação?
A educação salva vidas. Os estudos no mundo mostram que países que colocaram a educação como prioridade pra se recuperar de pandemia, tragédias, guerras saíram mais fortes ou mais rápido da crise.

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